Correio do Minho

Braga, quarta-feira

A vida, quando um cancro a visita, por Liliana Malainho

Saúde escolar: parceiro imprescindível das escolas de hoje

Conta o Leitor

2010-07-11 às 06h00

Escritor

(O depoimento de uma mulher vencedora, criada por mim, nas palavras de uma admiradora, eu!)

uma luta incessável, esta que me doma os sentidos. Sempre me conheci como uma pessoa dura e difícil de convencer, determinada e batalhadora, dona de grandes males porém conhecedora de grandes remédios. Nunca aprendi o lema base de uma vida, porque sempre fui de opinião contrária aos demais: nenhuma outra se iguala a minha, até porque vida em singular só conheço uma!
Todavia, nesta ala de sentimentos e sensações, percebi que ela é demasiado miúda para que a possamos desperdiçar. O que me magoa nesta selva enigmática, é o facto de ter lugar no final da vida a aprendizagem dela mesma. Como um resumo de remorsos e arrependimentos que nos inferioriza o ego. E ainda pior do que essa localização, é essa aprendizagem surgir quando algo nos encosta a parede. Ficamos mórbidos sem ter por onde fugir, quando a morte nos espreita pelo buraco da fechadura. Tememos em abrir a porta e choramos quando ela fraqueja e se quebra. Aí, em segundos apáticos e intermináveis, olhamos o passado e fazemos uma análise nunca antes feita. É triste pensar que erramos e deprimente idealizar como seria se esse erro não tivesse oportunidade de emergir na nossa vida. Quando o lago da possível finalização se funde com o do arrependimento, surge a saudade dos oásis emocionais.
Foi numa tarde degradante que pisei pela segunda vez a sala, que momentos depois me ecoava ao ouvido dizendo que tinha de ser forte e lutar com forças inexistentes. Foi a tarde mais gélida da minha vida e aquela em que mais tremi, não por ansiedade mas por medo. As paredes brancas já escorriam dó, os olhares próximos vertiam lágrimas por mim e eu senti-me frágil. Uma fragilidade sensata e compreendida no momento, ajustável à ocasião mas completamente desconhecida ao meu ser. Receei pelos que me guardam no coração e tive medo que a morte entrasse no meu quarto.
Nessa noite enchi de lágrimas o diário que suportou a minha dor. Enrolei-me nos lençóis e confessei à almofada que nem sentir-me, eu conseguia. Tentei fechar os olhos e o descanso negou fazer-me companhia. Então, pus fim ao relaxamento não conseguido, levantei-me e tentei saber mais sobre o cancro da mama.
As minhas mãos tremelicavam quando acariciavam o teclado do meu portátil com ansiedade. Temia que nas definições mais breves sobre este assunto estivesse escrito a palavra morte. Sentiria o seu significado e conseguiria sentir a dor dos, que por mim, a cumprimentavam se fosse necessário. A minha vontade era clicar na cruz vermelha, pegar no portátil, atirá-lo à parede e esquecer que aquele dia tinha existido. Suportei essa intenção e somei forças nas pequenas porções de vida que a esbanjam. O meu coração não conteve e diminuiu, ficou pequenino. Eu, mulher saudável e dona de mim, contraí um cancro na mama e muitos fumadores riscam a sua vida e, ao contrário de mim, não contraem outro cancro qualquer. Não que queira o mal deles mas desejo, mais do que nunca, o meu bem!
A noite multiplicou-se e custou a passar. Cada vez me sentia incapaz de concretizar os meus sonhos e o tempo escasseava a cada pestanejar de olhos. Enlouqueci por engrandecer a minha vida ao ponto de me ver distante dela. Durante muito tempo entreguei-me aos prazeres mundanos que uma boa cidade oferece e, em segundos, rendi-me à ruralidade do meu coração. Quanta natureza eu queria ter explorado e somente uma pedaço dela eu conheci!
Também queria viver o amor da minha vida. Não que nunca me tenha apaixonado, antes pelo contrário. Porém nenhuma das minhas relações conteve o brilho que o meu coração ditava como divinal. Desejei muitas vezes ter espaço sentimental suficiente para suportar os amores que na minha vida se iam penetrando e hoje só agradeço a Deus por ter cruzado o meu caminho com o rumo deles. Também tive a oportunidade de me apaixonar fraternalmente e comportar um amor indefinível pela minha família. Lembro-me de como a minha mãe se orgulhara de mim e com desgosto idealizo o infernal momento em que lhe contarei a notícia. Não conheço estas fases terminais mas acredito que a revolta faça parte do meu trajecto. Estou indignada não só comigo, por ter desperdiçado a minha vida como quem deixa cair areia por entre os dedos, como também por esta injustiça que Deus ou o Destino me puseram em mãos.
Hoje vejo-me como uma das lutadoras que intervêm em campanhas como a luta contra o cancro e arrependo-me, em tempos, nunca lhes ter dado valor. Peço à minha capacidade física um pouco de compreensão; há minha divisão psicológica, acompanhamento; à minha dor, umas férias e ao meu coração um moderado tempo indefinido de atenção e compaixão. Vou lutar, sobreviver e conjugar a vida, num tempo mais risonho!

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