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A viagem vai continuar...

As bibliotecas e as leituras no verão

A viagem vai continuar...

Voz aos Escritores

2024-06-14 às 06h00

Fernanda Santos Fernanda Santos

Enquanto houver saudade
a viagem vai continuar,
há sempre um recanto a descobrir,
um coração a escutar,
basta sentir.


Se as viagens são tão antigas quanto a humanidade, a literatura de viagem é tão antiga quanto a escrita. A necessidade de registar as nossas andanças pelo mundo para as mostrar a quem não esteve lá connosco sempre existiu. A tendência do viajante, a princípio, era fazer um registo, uma documentação de um mundo ainda vastamente desconhecido. Mais tarde, ganhou contornos de literatura e poesia, não só o que se via e ouvia, mas a história de aventureiros reais e fictícios.
O que o viajante/escritor sentia ganhava contornos literários relevantes.
Fazendo uma revisão da literatura pelo mundo, verificamos que as viagens nos fascinam desde sempre e não à-toa sempre serviram de matéria-prima para a literatura de alguns dos maiores escritores do mundo. Tenho, por isso, grande admiração por Homero, García Márquez, Hemingway e pelo nosso brilhante Saramago.
A literatura de viagem surge da necessidade de entender não só o que se vê, mas o que se escuta e o que se sente.
A propósito da Viagem a Portugal disse Saramago após essa deambulação, misto de crónica, narrativa e recordações, que «o fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite… É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos».
Podemos dizer que com o leitor ocorre o mesmo processo, com o acréscimo da tentativa de viver imaginariamente o que não viveu de modo material.
Para criar uma descrição viva dos locais visitados, é comum que os autores de narrativas de viagem recorram a diversas áreas de conhecimento, como a história, a antropologia, as ciências naturais e até mesmo a ficção. Isso dá ao género um caráter interdisciplinar, que agrega relatos sobre a natureza encontrada na região, costumes, crenças, questões políticas e comerciais, artísticas, arquitetónicas e qualquer outro aspeto que tenha chamado a atenção do escritor no destino visitado.
Por isso, eu volto a subir e a descer o Douro várias vezes. Há sempre algo de novo a descobrir, a reviver.
Numa viagem de comboio (histórico), por exemplo, após a descoberta inicial do contexto e da paisagem que nos rodeia, o olhar começa à procura de pormenores.
Satisfazer a curiosidade sobre como se mantêm em funcionamento muitas das peças originais do comboio, ao fim de tantos anos, de como seria viajar um século antes…! Imaginar, ficcionar, versejar, sentir…
A imaginação e a contemplação são quebradas quando a linha de comboio fica vizinha da água do rio e parece que os pés massajam os nossos poemas, aromatizados com o cheiro dos valados de vinhedos.
Tal como nos nossos “Bons Sonhos vos Sonhem”, as aventuras destas viagens rio acima, rio abaixo, revelam o colorido e as complexidades das nossas vidas e estão cheias de gente, rostos e objetos que pensamos reconhecer. Tal como nos sonhos, quando estamos a ler o que revivemos somos, por vezes, tão fortemente atingidos pela natureza extraordinária das coisas com que deparamos que chegamos a esquecer onde estamos e vemo-nos no meio de pessoas e de acontecimentos imagi- nários que se nos apresentam pela frente. Nessas alturas, sentimos que o mundo ficcional com que deparamos e a que nos entregamos com entusiasmo é mais real do que o próprio mundo da realidade quotidiana.
Que essa vida paralela possa parecer-nos mais real do que a realidade significa frequentemente que substituímos a realidade pela ficção, ou pelo menos que a confundimos com a da vida real.
Particularmente, quer quando sinto ou finjo o que sinto, nunca me arrependo dessa ilusão, dessa ingenuidade. Pelo contrário, como quando tenho certos sonhos, quero que essa vida paralela provoque em mim um sentido sólido, consistente de realidade e de autenticidade. Apesar de tudo o que conscientemente sabemos sobre ficção, fico contrariada e dececionada se um texto ficcionado não consegue criar a ilusão de uma verdadeira vida, de uma vida que estamos realmente a viver.
Afinal, toda a minha vida tem sido um sonho, e os sonhos são ilusão!...

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