Correio do Minho

Braga, quarta-feira

A Viagem da Lua

Saboaria e Perfumaria Confiança – pela salvaguarda do seu património

Conta o Leitor

2011-08-19 às 06h00

Escritor

Por Mário Viana

Recém-nascida atrás da igreja, uma lua amarela, enorme e redonda, subia no céu, tornando-se mais pequena e prateada à medida que subia. Por fim, parou lá em cima, banhando num brilho de prata a quietude da aldeia, que já dormia na sua placidez rural, não obstante o ladrar tardio dum ou doutro cão.
Mas Diana não dormia, por mais voltas que desse na cama. Dormia o marido, a seu lado, e dormiam os filhos, no outro quarto, o sono solto que dormem as crianças. Mas ela não dormia. A noite já ia alta como a lua, mas o cansaço que a prostrava parecia despertar-lhe os sentidos e os pensamentos corriam-lhe pela mente, claros e nítidos como a luz do dia. E não dormia. A angústia da doença roía-a por dentro em silêncio, deixava-lhe as noites em branco. Era assim há meses. Noite após noite, as horas mortas batiam, madrugada adentro, no relógio da sala, sem que Diana dormisse.
No vazio da insónia, veio à janela e viu que a lua, agora do outro lado do céu, se banhava no mar, que retumbava, sem incomodar o sono comprido da aldeia.
E Diana sentiu a solidão da lua que percorria sozinha a estrada sideral, num firmamento mudo e frio, de onde as estrelas se tinham sumido. Porque Diana estava desperta na sua angústia, mas a povoação dormia, na sua indiferença pela doença que a consumia e a impedia de dormir. A mesma indiferença que a manada sente pelo animal ferido, que vai servir de festim aos predadores.
Muitas vezes Diana tentara rezar, mas sentiu a angústia de estar a falar para o vazio, sem ninguém do outro lado que a ouvisse. E agora, olhando o céu claro, extenso como uma planície sem fim, onde nuvens luarentas lembravam leivas em campo arado, ela imaginava que, se a lua de súbito se apagasse, restaria apenas a impenetrável e fria escuridão do universo.
- A vida - pensou Diana - devia ser eterna, cheia de dias perfeitos. E um dia perfeito devia ser como aquelas grandes tardes de domingo, plácidas e quentes, que passara com os pais e os irmãos, antes de se ramificarem os caminhos da vida de cada um. Mas não era. Era agora uma noite de vigília solitária, à espera que a lua completasse a sua viagem pela abóbada celeste. Por fim, quando a aurora clareasse, Diana mergulharia num sono breve e agitado. Acordaria um par de horas depois, uma vez mais sozinha, porque o marido saíra para o trabalho e os filhos para a escola, depois de se levantarem numa surdina triste, para não a despertarem. A essa hora, a lua teria terminado a sua viagem e ficaria invisível no céu, até à madrugada seguinte, quando voltasse a nascer atrás da igreja. Diana não o sabia, mas, na madrugada seguinte, já não acompanharia a viagem da lua. A lua viajaria no espaço na mais absoluta solidão, porque, desta vez, toda a aldeia estaria a dormir. Até Diana, enfim…

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

31 Agosto 2018

Ingratidão

30 Agosto 2018

Humanum Amare Est

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.