Correio do Minho

Braga, quarta-feira

A velhinha e o demónio

Diplomas em tempo de 130.º aniversário

Ideias

2015-11-25 às 06h00

José Hermínio Machado

Era uma vez umas velhinhas que sabiam as cantigas de cor e as usavam porque sim. O demónio andava detrás delas a querer saber como as aprenderam e porque as cantavam, mas pouco conseguiu saber além do óbvio: elas cumpriam todos os destinos das cantigas, o de chorar e o de rir, o de trabalhar e o de dançar, o de matar a fome e o de rezar, o de nascer e o de morrer.

Começou o demónio então a procurar saber se as velhinhas acautelavam o futuro das cantigas e foi de viagem pelo país à procura da resposta. Depressa se envaideceu por encontrar mais velhinhas dispostas a aturá-lo e chegou mesmo a declarar que dava o mundo a quem lhe indicasse velhinhas para ouvir. Numas terras encontrou velhinhas já muito desmemoriadas, mas noutras, encontrou-as ainda bem organizadas e disponíveis para ensinarem aos mais novos. O demónio começou a sentir angústias de compreensão e de finitude: o que vai ser das cantigas quando as velhinhas morrerem, o que vai ser dos novos se não tiverem com quem aprender?

Numa terra ou noutra encontrou respostas que o sossegaram: as memórias tinham instalado sistemas de segurança e estavam de saúde. Não tardaram a comparar o demónio a outros e depressa o alcandoraram a guardião de memórias, coisa que lhe desagradou sobremaneira, pois além do mais tinha começado a ficar com dúvidas sobre essa coisa da tradição.

As pessoas que viam os registos que o demónio fizera de seus trabalhos achavam-nos de excelente qualidade, autênticos testemunhos da força da música entranhada na vida das pessoas e nelas mesmas; as pessoas reconheciam as melodias e as letras, os tons e os toques, os impulsos e os batimentos; as pessoas viam nos filmes pessoas felizes, dedicadas, orgulhosas de seus cantares e de suas capacidades artísticas. Foi então que o demónio começou a sentir-se obrigado a explicar que ele não era quem pensavam e deu-se a todos os confrontos de teoria.

Quanto mais se explicava, mais as pessoas lhe achavam graça: ver um demónio a sofrer com seus próprios trabalhos dá que espantar: afinal ele assumira para si próprio todas as angústias, a música da tradição oral entrara-lhe no corpo e motivava-o a livrar-se da tradição, velho mito do crescimento, velha história de matar os pais para sobreviver. Deu-se então o demónio a experimentalismos tecnológicos e sampladélicos.

Qualquer semelhança entre esta efabulação e o conteúdo da I Tertúlia ‘Braga nas Tradições’ que ocorreu em Braga no pretérito dia 20 de Novembro, na Casa do Professor, é uma coincidência estudada. De facto a obra de Tiago Pereira ‘A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria», tanto quanto pôde ser partilhada e apreciada, constituiu um elevado momento cultural vivido nesta cidade.

O documentário visto e comentado «Porque não sou o Giacometti do Século XXI’ constituiu um verdadeiro momento reflexivo sobre os caminhos de registo, vivência, preservação e animação das práticas musicais das gentes portuguesas. Como se sabe, a organização deste evento esteve a cargo deste movimento associativo ‘Braga nas Tradições’ e foi acompanhado com uma exposição síntese da construção de cavaquinhos, organizada pelo Museu dos Cordofones de Domingos Machado, por uma exposição bibliográfica de livros dedicados à música portuguesa de tradição oral organizada por Félix Cabrerizio, por uma exposição-venda de livros e discos da editora Tradisom, organizada por seu proprietário José Moças, por exposições publicitárias da Sond’Arte e da Música Portuguesa a Gostar Dela Própria e por uma intervenção musical na rua da Associação Cultural e Festiva ‘Os Sinos da Sé’.

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