Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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A Uma Voz

Perdidos e achados

Ideias

2016-04-05 às 06h00

Analisa Candeias Analisa Candeias

Não tendo formação musical, sei que é importante, em primeiro lugar, saber ouvir os outros para que os sons de uma orquestra, um coro, um quarteto, um trio - seja o que for - não saiam desafinados. Existe trabalho em equipa por detrás daquelas brilhantes melodias que estes diferentes grupos nos proporcionam, e é da conjugação e da articulação de todos que a beleza transparece. Quem produz música identifica as relações como algo a preservar caso se queiram manter na área - só através dos laços que estabelecemos é que vamos conseguir sobreviver.

Em todas as restantes profissões que privilegiam a relação como ponto de partida para a produção de algo melhor e mais belo, existe a identificação de que o respeito por saber ouvir é essencial para um futuro mais criativo e menos monótono - e bem mais prazenteiro. Quem dirige tem de saber dirigir, mas quem é dirigido deve apresentar a dignidade de se fazer ouvir. Esta ação de falar com fundamento e consistência é uma ajuda para a equipa, para a orquestra, para o grupo. Ajuda a parar, refletir na produção que tem vindo a ser realizada, e pode igualmente ajudar na descoberta de novos caminhos.

Os enfermeiros - habituadíssimos e apuradíssimos no tal trabalho em equipa - estão a fazer-se ouvir. Porém, é de pensar se o estão a fazer a uma só voz e com a unidade que lhes é caraterística - e com coerência. Nem sempre quem nos representa é representante dos nossos incómodos e maleitas, e nem sempre conduz por caminhos onde acordamos estar. É urgente que se oiçam os diferentes instrumentos da nossa orquestra, que cada um de nós, como Enfermagem, representa e toca. Enfermagem não é um solista, brilhante e só. Enfermagem é uma orquestra, brilhante e constituída pela soma de diferentes partes. E mesmos os solistas necessitam de acompanhamento e maturação - necessitam de ouvir o que vai além deles.

Os cargos e as direções não são focos onde a luz deva permanecer, quando nos referimos aos espetáculos das dinâmicas laborais. Esses cargos e essas direções são para que a luz se difunda pelos restantes atores e músicos que compõem as teias que os sustentam e que, muito provavelmente, os aguentam lá. A Enfermagem, profissão de enredo sólido, assente num conhecimento maduro e com laços fortes a outros instrumentos que se tocam na área da saúde, é, obrigatoriamente, pela sua natureza, um difusor de luz. Somos chamados a sermos profissionais porque existem outros que necessitam dos nossos cuidados, e que sem eles não teríamos razão de existir.

A necessidade de afinação começa a fazer-se sentir. Não podemos, cada um para seu lado, ir tocando ou cantando conforme as conveniências, opiniões pessoais, modas e ocorrências do momento. A afinação deve ser realizada a uma só voz, convocando competências distintas no sentido de preservarmos a nossa missão que, afinal de contas, serve a sociedade e pode alavancar a qualidade dos cuidados de saúde. É necessário sermos ouvidos, numa voz que conflua a uniformidade e o bem de todos, e que transmita uma sonorização bela e fácil de ouvir, não ruídos pardacentos que ficam aquém da visão geral do grupo. A uma voz os tempos vão mudando.

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