Correio do Minho

Braga, sexta-feira

A última despedida... e a rosa seca

Amarelos há muitos...

Conta o Leitor

2014-07-07 às 06h00

Escritor

Félix Dias Soares

Eram princípios do mês de Agosto, a casa tinha cortinas lavadas e estava asseada, os terreiros varridos, os canteiros bem arranjados e floridos, para receber o filho imigrante. O pai vivia numa grande ansiedade à medida que a vinda do filho se aproximava. Era assim nos anos sessenta e setenta. Os nossos imigrantes tinham pouca formação, tinham apenas a quarta classe, outros eram analfabetos, mas uma coisa tinham em comum, era os seus afetos familiares, a sua coragem e seu espírito nobre de ser Português.

Depois de um ano ausente, a sua chegada era festejada por todos, mesmo pelos vizinhos que vinham congratular-se com a chegada dos amigos. Era assim nas nossas aldeias, onde tudo era simples e profundo. E por algum tempo o imigrante ia esquecer a sua vida amarga e dura, amassada com lágrimas e suor, na nova pátria emprestada. Nesse tempo, os jornalistas e os políticos não faziam comentários sobre a imigração, pelo simples facto, de serem os pobres a imigrar, os que não tinham voz no seu País.

Durante as férias, ficavam muito tempo na aldeia, a sentir o calor humano do povo e isso ajudava-os a entender a sua presença no seu meio, era para eles um sinal de esperança, no meio de tanta miséria! A sua vinda tinha sentido. Aqui, as razões de viver prendiam-se ao essencial e àquilo que era prioritário para se ser feliz, pensavam eles.

Nesta família os pais habituaram-se ao vaivém do seu filho e depois dos netos, mas os anos foram passando por todos e o pai, como todos os humanos foi envelhecendo, sendo cada vez mais difícil a despedida. Todos os anos o pai dizia, se acontecer alguma coisa aqui! Não quero que venhais por nossa causa. Mas o filho logo dizia, que não aconteceria nada e que o pai dizia todos os anos a mesma coisa, era o mesmo ritual todos os anos, o pai acompanhava sempre o filho até ao caminho, depois, esperava até o carro desaparecer na curva mais abaixo, ficando muito emocionado ao ver partir a família, porque ambos sabiam, que um dia, haveria a ultima despedida.

Como todos os anos, os familiares imigrantes passavam o mês de Agosto, entre amigos e família, que os esperava impacientemente cheios de saudades. Nesse ano, como em todas as férias, o tempo voou e depressa chegou o dia da despedida. Esta despedida, foi igual a todas as outras, o pai acompanhou o filho até ao caminho, mas quando o filho se preparava para partir, o pai pediu que espera-se e foi colher uma rosa dizendo, quando voltares traz-me esta flor.

O filho saiu do carro e sentiu um arrepio ao voltar abraçar o pai, depois do abraço, o pai entrou o seu portão, não esperando ver o carro partir como era habitual. Então o filho teve um mau pressentimento e disse à esposa que era a ultima despedida, a esposa disse que foi brincadeira dele para não pensar mais nisso, que nada de mau iria acontecer. Mas o pai, também não dissera ao filho para não vir a Portugal, se acontece-se alguma coisa com eles, como dizia todos os anos no momento da despedida. Havia qualquer coisa que o pai quis transmitir ao seu filho, mas que este não compreendeu.

O filho sabia que alguma coisa tinha mudado o comportamento do seu pai. Arranjou lugar no porta-luvas do carro e colocou cuidadosamente a rosa. A viagem foi feita sem sobressaltos evitando falar do sucedido, mas a presença daquela rosa, deixava-o apreensivo e decidiu não a tirar do carro. Os dias foram passando e a rosa secou, mas o seu aroma fazia-se sentir sempre que abria o carro, lembrando- lhe aquele rosto emocionado do pai na hora da despedida.

O filho telefonava todas as semanas, para saber da saúde da família e das notícias da terra, nunca ousando falar à família, do pedido do pai nem da rosa. Apenas dois meses se tinham passado depois da despedida, quando o telefone tocou às dez horas da noite. Do outro lado do fio, houve um silêncio e depois uma voz trémula dizia, morreu o nosso pai… Foi um grande choque para o filho, desceu as escadas e foi ao carro ver a rosa que estava mais perfumada que nunca, ali chorou a primeira vez a morte de seu pai.

À meia-noite, o filho depois de um dia de trabalho partia com a sua família em direção a Portugal, com uma grande mágoa no peito, por não ter compreendido o seu pai na última despedida. A chegada do filho deu-se no dia seguinte, um de Novembro, dia de todos os Santos. Todos esperavam com ansiedade aquela família que vinha de França, fizeram a viagem sem descaçar, com a esperança amordaçada pela saudade, mas também há procura do calor humano, para derreter tanta angústia acumulada no peito. Depois do doloroso encontro e saudações feitas, o filho foi ao carro buscar a rosa seca, que ficara intacta sem perder alguma pétala e discretamente entregou-a seu pai.

Muitos perguntaram o significado daquela rosa seca, no caixão a seus pés, mas ninguém sabia de onde tinha vindo, nem o que significava, sendo motivo de muitos comentários. Mas alguém sabia, que era o pedido de um pai ao seu filho, para estar presente, na verdadeira ultima despedida… O seu pai não partiu sozinho, a rosa que escolheu, acompanhou-o no cais do infinito. Para o seu último destino…

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

31 Agosto 2018

Ingratidão

30 Agosto 2018

Humanum Amare Est

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.