Correio do Minho

Braga, sexta-feira

A última casa

Amarelos há muitos...

Conta o Leitor

2013-08-30 às 06h00

Escritor

FÉLIX DIAS SOARES

É a história de um humilde pedreiro, como havia tantos no tempo dos nossos avós. Trabalhavam sol a sol, passavam a vida a picar a pedra, preparando as fachadas e só depois se alinhavam os alicerces e se faziam as paredes. Ao sol e ao vento, ao frio e ao calor. Era duro, mas era uma arte de que ele gostava. Falava com as pedras, contava-lhes todas as suas mágoas e segredos, mas também as acariciava cantando para elas, na solidão das pedreiras, eram a única companhia que tinha. Nesse tempo eram muitos os meses necessários para a construção de uma casa. O pedreiro sabia que todas as casas teriam histórias diferentes, com gentes que lhe dariam alma e vida. Sempre que acabava uma, nunca a deixava sem se sentar dentro dela, lembrando os dias difíceis na sua construção, saboreando o fruto do seu trabalho. Pensando para si: nunca poderei ter uma casa como esta.

Mas os anos foram passando e as forças diminuindo. Um dia foi ter com o patrão e disse-lhe que era tempo de pendurar o martelo e o pico. Os braços já não eram os mesmos e os dias tornavam-se longos de mais para as suas forças. Os filhos já estavam crescidos, já todos trabalhavam e para os poucos anos que lhe restavam, não seria necessário ir até ao limite das suas forças. Também, gostaria de dar ainda um jeito à sua velhinha casa, que desde há muito estava a pedir uma reparação.

O patrão ficou triste, pois um Professional como aquele, competente e amigo de trabalhar, não era fácil substitui-lo. Mas compreendia, bem sabia que o seu pedreiro andava cansado e já era com grande esforço que chegava ao fim dos dias de trabalho, que terminava com o pôr-do-sol. Então o patrão só lhe pediu um último favor, fazer mais uma casa, dizendo que era para um amigo. Seria o seu último contributo, apenas mais uma casa. O pedreiro não podia dizer que não, mas custava-lhe dizer que sim. Fazer mais uma casa, era tarefa que já não o entusiasmava.
Mas o patrão insistiu, voltou a dizer-lhe que era para um amigo seu, voltou-lhe a pedir por favor que a construi-se, assim sabia que o seu amigo ficaria bem servido. Foi de má vontade que o pedreiro acedeu, ao pedido do patrão. O pedreiro começou a casa, mas cada vez mais limitado na sua condição física, pelo desgaste de muitos anos de trabalho, facilitando na construção da obra pela falta de motivação. Nem sequer foi seletivo nos materiais que empregou. Aquela obra afinal não passava de mais uma casa a juntar a tantas outras, às quais já tinha perdido a conta.

Passados muitos meses o pedreiro deu a casa por acabada, então o patrão foi inspeciona-la, como fazia a todas as outras construídas. Olhou o pedreiro e disse-lhe, esta casa foi feita para um amigo como lhe tinha recomendado. Lembra-se? O pedreiro fez um gesto afirmativo com a cabeça como dizendo, lembrar-se da recomendação, ficou com medo que o patrão apontasse algum defeito à nova casa, ficando em silêncio. O patrão olhou o pedreiro nos olhos e disse-lhe! Esta casa é para si. O pedreiro perguntou, então! Mas a casa era para um seu amigo. O patrão respondeu, sim é verdade, esse amigo é você: É um presente que eu lhe dou, para agradecer tantos anos de dedicação e amor ao trabalho. Durante todos estes anos o senhor foi um pedreiro laborioso, sempre disponível mesmo para os trabalhos mais árduos, nunca reclamando nada, mesmo quando teria razões para o fazer, nunca descurando os princípios de uma pessoa honesta e integra. A partir de hoje, sou eu que estarei disponível para o ajudar em tudo que precisar.

O pedreiro ficou sem palavras, nunca lhe passou pela cabeça que o seu patrão fosse tão generoso para com ele e o considerasse um amigo. Murmurando em voz baixa: que pena! Se eu soubesse que a casa era para mim, tê-la-ia aperfeiçoado muito mais, teria feito tantas coisas diferentes. Passou tanto tempo a trabalhar, sem saber que estava a construir a sua própria casa. O mesmo acontece connosco.

Passamos muitos anos a construir a nossa vida, pedra por pedra, como o pedreiro que constrói uma casa, tantas vezes aldrabando, como se estivéssemos a construir a casa dos outros. Depois descobrimos que afinal, foi a nossa casa que estivemos a construir, sobre uns alicerces por vezes não consolidados, que nos deixa em sobressaltos, porque não temos a certeza se a nossa construção vai resistir a todas as adversidades e o risco da nossa vida se desmoronar é evidente.

Não esperemos pelo fim da vida para dizer: se pudesse, fazia tudo de novo, como seria dife-rente…

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