Correio do Minho

Braga, quarta-feira

A (última) Carta...

O que nos distingue

Conta o Leitor

2012-08-12 às 06h00

Escritor

Por Carlos Alberto Rodrigues

Podia começar como o grande poeta Pessoa sobre as cartas de amor:
Mas esta não é definitivamente uma carta de amor.
Antes uma carta de conforto ou de despedida de lembrança ou de saudade de um sonho sonhado - não acredito em pesadelos, sonhamos e pronto - ou de um pedido de perdão, de alerta. Ou então uma forma de mensagem de “adeus, até já”
O nosso amor nunca foi discreto nem tão pouco cauteloso. Jamais fingido, forçado ou por mera formalidade, como assim naquele primeiro encontro ambos estávamos “disponíveis” pelo que acredito que reunidos os astros e estrelas era esse o destino de ser assim, pelo menos ter-mos a nossa oportunidade.
Os nossos corações sempre estiveram unidos.
Não te quero apoquentar com o meu estado de saúde porque já não somos cúmplices da alegria ou da tristeza, apenas quero que saibas que tudo valeu a pena. Que mesmo em mau estado, está tudo bem. Estou aqui pela amizade que nos une pois se há coisa que gosto de manter é a sobriedade acima de tudo e a amizade de quem passando muito ou pouco tempo em minha vida, merece esse voto.
Quero-te dizer hoje, que valeram aqueles dias em que me recebias com um sorriso e agradecias pela seleção de música que te deixava sempre no leitor de cassetes ou no hi-fi para te ajudar a matar o tempo enquanto estava ausente ou o beijo reconfortante depois de uma jornada de trabalho, ou ainda aquele abraço que ficava sempre apertado ao peito depois de tempos de ausência. As zangas, claro, também quero tratar delas, mas no amor, sobretudo aqui, no amor, elas existem e acontecem para que a reconciliação seja festejada e mais reforçada a relação.
Contigo e tu comigo, aprendemos a amar a noite e a madrugada, que nos “escondia” nos lençóis ou entre o feno sobre as brisas de Verão. Sei que podia ter-te dado joias e presentes caros se dinheiro tivesse, mas também sei que sempre preferiste a minha simplicidade o singelo gesto de amor e paixão desprovido de interesses ou de preconceitos, pois sempre foste viciada no meu amor, no meu corpo como eu fui pelo teu, sempre selado com um beijo enamorado, com carícias em que as minhas mãos percorriam cada centímetro de teu corpo. No teu regaço encontrava o meu porto de abrigo, em teu peito a vontade de dormir serenamente e sonhar mesmo que acordado, ou de me deixar levar pela imaginação; em teus seios alvos sentia o calor e em teus olhos uma vontade de sonhar sonhos de encantar. Não cuides que agora escreve um namorado infeliz: Não! Aliás acredito que tudo deixou de ser na sua devida altura. Apenas porque Deus assim o quis. Acredito que alguém tivesse reservado um outro futuro para ti, que para mim sempre soube o que queria e como te segredava vezes sem conta se ficássemos juntos para todo o sempre nada se perdia. Porém, ouviu-me um Deus desconhecido, sem ouvidos para preces de amor ou de paixão. Não acredito que foi por amarmos demais, às vezes. Simplesmente não acredito. Porém…
Agora penso que decerto podia ter sido mais forte e com coragem de leão ou como a força da barra que te protegesse das ondas fortes e vagas mortíferas debaixo de um céu de chumbo pintado, peço perdão por essa falta, se existiu.
Pena que só assimilamos o verdadeiro valor e peso duma perda, muitas vezes tarde demais.
Vão lá dar crédito ao coração, pensarão muitos. Eu dou porque é o meu e sinto como ninguém que nasci para emoções mesmo que tivesse de enfrentar mais tristezas que alegrias. Preferia o bonançoso dos céus onde pudesse encontrar uma estrela-guia que me indicasse que estava no caminho certo.
Descobri-te na sombra de uma árvore enquanto lia Cesário Verde e caminhava por entre aquele pomar que deixava pelos ares mais próximos aromas a fruta e uma frescura que se encontra numa paisagem tingida de verde natureza. Logo aí a leitura passou para segundo plano. Contemplei-te por breves instantes sem te aperceberes de minha presença (escondida por entre as árvores)
Era um quadro de beleza impressionista, capaz de descrever os teus traços mesmo que te tivesse visto há séculos.
De tez clara cabelos cor de ouro e corpo perfeito que convidava às mais variadas insinuações ou pensamentos que se misturavam com o prazer e o desejo carnal e a vontade de te ter entre os meus braços; a tua candura contrastava com a minha pele mais queimada pelo sol mas esses olhos que não queriam ver, acabaram por esbarrar nos meus! Perdida a timidez de travar conhecimento esvaiu-se num ápice sempre que pensava em ti como alguém que nasceu para dar e receber felicidade… Era eu que devia e queria ser essa pessoa, sortuda por poder contemplar a tua beleza rara, sempre que os meus olhos quisessem. Tinhas de ser minha. Não era um pensamento de posse tão pouco de poder e querer, apenas porque te senti perto de mim como nunca sentira alguém
Abriu-se um sorriso, um passo mais em tua direção e pronto!
Nunca vou esquecer essa tarde de verão dos loucos anos 80.
Falamos horas a fio sobre gostos que partilhávamos em comum como a música, os livros, a fotografia, o cinema…
Afinal sempre tinha estado nas estrelas aquele encontro, pois nunca duas almas gémeas podiam se desencontrar, antes, mesmo que por entre obstáculos e um tempo que se foi adiando, aconteceu a paixão, o amor que ia prevalecer durante uma década cheia de aventuras e desventuras, noites mal dormidas porque juntos queríamos amanhecer acordados.
Corpos suados que se formavam num só, aquele cheiro peculiar a amor que costuma entranhar - se nos lençóis, no quarto com os corpos, finalmente rendidos ao cansaço, agradável, e o sono que vinha de uma forma suave, calma e relaxante…
Porém queria mais uma vez pedir-te desculpa se te faltei com algo que esperasses de mim.
Dez anos de enamorado, bem-sucedido, provocaram em mim euforia mas também desgostos.
Julgava que para me inculcar como teu apaixonado sempre julguei que teria de sacrificar alguma das paixões de minha vida. Complexo? Talvez, mas afinal qual o romance que não traz ratoeiras improváveis ou por outro lado, alegrias inesperadas, como que a afirmar que depois da tempestade vem sempre a bonança. Ainda pensei que não seria digno de ti por me faltarem bens de fortuna, desta Apenas a herdada nos genes, fortuna, honestidade e humildade como sempre me ensinaram. Nem estava disposto a ocultar-te tal desfaçatez, porém sempre souberas que essa era a única fortuna que tu querias. Eu amava. Aí estava uma palavra que estará sempre envolta nos maiores mistérios deste e de outro mundo. Sei que não ficaste incólume a tal revelação. Também senti teu coração retribuir com maior intensidade do que por norma acontece nestas idades.
Porque jovem na minha idade, sinto esvanecer o tempo por entre os dedos metálicos e ossudos de minhas mãos. Ténue linha entre a vida e algo que mais parece um fim anunciado. Sinto-me consumido pelos dias que passam sem me olhar, como se um vazio me invadisse me possuísse qual demónio que precisava de ser exorcizado.
Não creio que sejam estes dias de depressão, de desespero onde a economia peca por escassa e os valores se vão esvanecendo.
Parece que em dois anos se passaram coisas que deviam ter demorado décadas. Por isso continuo a referir que este tempo não quer nada comigo.
Limitou-me ao meu quarto e á minha cama.
Na mesa-de-cabeceira jaz uma vela que a noite esgotou, como um último sopro.
Sem nada fazer, sinto-me cansado, certamente porque o cansaço psíquico seja mais dilacerante que o físico e o que deixe menos margem de manobra para melhoria do ego, do corpo. A recuperação já não entrava nos meus sonhos. Tinha que receber com um último esgar o meu destino.
Quis atingir a mesa-de-cabeceira. A custo consegui recolher a folha que também ela permanecia inerte desde há algum tempo. Consigo ler, a custo:
Espero, querida, por ti, um dia destes naquele sítio a que eu sempre tratei por nirvana, lembraste?
Pois é aí nessa linha ténue e desconhecida que acredito te vou voltar a encontrar um dia destes…
Ainda quis acordar mais uma vez, porém não consegui resistir. Deixei-me ir lentamente. Ainda tive tempo de ver rebobinado um pequeno filme de minha vida. Não faltaram as pessoas que eu mais amei: Pai, Mãe, Irmãs e restante família e tu no fundo deste filme que logo terminou quando fechei os olhos, mais uma vez.
Será que podia voltar a acordar?

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