Correio do Minho

Braga,

A traição de Marthe

Transtorno obsessivo compulsivo por compras: Oniomania

Conta o Leitor

2016-07-16 às 06h00

Escritor

Félix DIas Soares

T empos difíceis dos anos trinta levaram milhares de Portugueses a deixar as suas aldeias do Minho, sua família, seu lar e amigos. Todos os que partiam levavam consigo a eterna saudade, dos filhos e da esposa, prometendo um breve regresso e fidelidade às esposas, que ficavam destroçadas e desamparadas, ficando a maior parte delas com os encargos e dívidas da viagem dos maridos. Muitos partiram para jamais regressar, esquecendo-se das promessas feitas e da razão pela qual partiram.
Foi o caso do Manuel, recém-casado com uma jovem chamada Maria, partira também para França, com a esperança de encontrar uma vida melhor. Porém, as promessas feitas depressa foram esquecidas. As cartas da esposa começaram a não ter resposta, mesmo quando numa carta, abria o seu coração dizendo, o quanto o amava e dando-lhe a notícia que tinha ficado gravida. Muitas cartas se seguiram, mas todas ficaram sem resposta, então a jovem Maria, que tinha perdido os pais na sua adolescência, voltava a estar com o coração destroçado, sabia que tinha perdido, o grande e único amor da sua vida.
O Manuel foi trabalhar para uma quinta, com alimentação e alojamento, mas a filha do patrão chamada Marhte, depressa se enamorou por dele, escondendo-lhe as cartas da esposa. O Manuel durante muito tempo contino-ou a escrever, pedindo a Marhte que lhe envie as cartas, mas as cartas eram retidas por ela. Marhte golpeou de morte aquele amor, roubando seus destinos. O Manuel pensou que sua esposa o abandonara, entregando-se nos braços dela. Tiveram dois filhos e netos, foram felizes durante muitos anos, até um certo dia.
Na década de sessenta, um sobrinho do Manuel imigrou para a mesma região e ao saber da existência de um velho Português, com o seu nome de família, lembrou-se! Será o meu tio que todos consideram morto? E numa manhã de Domingo, foi tocar à campainha daquela casa senhorial, já com a certeza que havia lá um Português. Veio à porta um senhor com os cabelos brancos e quando o jovem lhe perguntou se era Português, negou num francês perfeito, fechando a porta. O jovem sobrinho ficou desiludido, foi ver o nome à caixa do correio e foi com grande surpresa, que viu o nome, Antunes e voltou a tocar a campainha. O Manuel ficou surpreendido ao ver de novo o mesmo jovem, mas antes que ele falasse, o sobrinho disse saber que era Português e que conhecia a sua Família, essa que ele abandonou, culpabilizando-o da pobreza da sua mulher e da morte das suas filhas gemias. Antes que ele reagisse, disse ser seu sobrinho e conhecer toda a história da sua família. Perante tais acusações, o Manuel ficou sem palavras, mas logo se recompôs dizendo! Não ter abandonado a mulher, nem ter filhos em Portugal. O sobrinho contou-lhe toda a verdade, acusando-o de abandonar a Família. Depois de ouvir o sobrinho perguntou! Como está a minha mulher? O sobrinho respondeu, de luto pelo senhor há muitos anos. Aquele homem de cabelos brancos não pode conter as lágrimas. O Manuel já estava aposentado e tinha perdido a companheira Marhte, vivia com a filha e os netos, não tendo com quem partilhar as suas mágoas. A filha perguntava, a razão de tão grande desalento! Então o pai disse ter a ver com o passado.
A filha, pensando consolar o pai, foi buscar um embrulho que a mãe lhe entregara antes de morrer, pedindo que o destruísse, pensando ser uma coisa importante não o fez, entregando-o nas mãos do pai. Ao abrir o embrulho, encontra as cartas ainda fechadas da sua esposa Maria e as que ele escrevera e nunca foram enviadas. A filha ficou arrependida por ter traído sua mãe, por não ter queimado o embrulho como lhe pedira. O segredo estava desvendado e o Manuel só pensava voltar a Portugal.
Na terra já se falava que o Manuel era vivo e numa possível vinda a Portugal. A sua mulher fragilizada pela idade e muitos anos de trabalho, não acreditava na sua vinda. Mas a data anunciada aproximava-se e o coração da esposa, não resistiu a tão grande emoção, sendo vítima de uma A.V.C. que a deixou paralisada e sem fala. O dia chegou, a esposa esperava o marido no seu leito, ao ver entrar o marido, o seu rosto iluminou-se e as lagrimas molhavam-lhe a blusa preta de chita. O marido inclinou-se e beijou-lhe o rosto, ela levantou a mão que podia mover, num gesto de perdão.
O pouco tempo que Maria viveu após o encontro, nada lhe faltou. Os filhos e os netos vieram-no buscar, mas ele não regressou a França. Nunca perdoou à sua companheira Marhte, tal traição. Mais tarde, com uma idade avançada, casou com uma jovem viúva com filhos, pouco tempo depois faleceu. A mulher ficou a beneficiar de parte da boa reforma do Manuel, durante a sua vida. Foi talvez a forma encontrada pelo Manuel, para se redimir dos erros da juventude, por não ter confiado no grande amor da sua esposa. Um grande amor… Traído por Marthe.

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

31 Agosto 2018

Ingratidão

30 Agosto 2018

Humanum Amare Est

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.