Correio do Minho

Braga, sábado

A tragédia que atingiu Guimarães

Dia de sol

Ideias

2017-11-26 às 06h00

Joaquim Gomes

No dia 1 de dezembro celebra-se em Portugal a restauração da independência, processo que colocou um ponto final em 60 anos de domínio filipino no nosso país. Este é um dia tão importante que ainda na atualidade, já lá vão 357 anos, é feriado nacional.
Por coincidência, o dia 1 de dezembro é, para os vimaranenses, um dos dias mais tristes, porque foi neste dia, no ano de 1942, que uma tragédia atingiu a basílica de S. Pedro, situada bem no centro da cidade.
Tudo aconteceu bem cedo quando, após a “Missa das Almas”, que se realizou às 6 horas da manhã, algumas centenas de pessoas que se encontravam junto à basílica de S. Pedro, dirigiram-se para uma dependência do edifício, para receberem uma esmola em pão de trigo e com ela eliminarem um pouco a fome que os assolava. A esmola que então foi servida era em sufrágio pela alma da mãe do capelão da Irmandade das Almas, reverendo José Ferreira Leite, dessa paróquia.
Estava-se em plena Segunda Guerra Mundial e, apesar de Portugal não ter participado nesse conflito armado, a miséria e a fome também aqui se faziam sentir. Nesse contexto, um simples pedaço de pão era desejado ansiosamente por muitas pessoas!
Foi precisamente o peso excessivo provocado por essas centenas de pessoas que se concentravam no corredor lateral da igreja, e que dá acesso à capela-mor, que originou a cedência das traves em madeira. A queda das traves arrastou dezenas de pessoas, que caíram no salão da Cervejaria “Atlantic”, situado junto à igreja, causando um pânico generalizado e uma onda de destruição material e humana arrepiante!
Perante esta catástrofe, de imediato os sinos da basílica de S. Pedro tocaram a rebate, num sinal de alarme que atraiu várias centenas de pessoas ao local, umas desejosas de colaborarem na ajuda às vítimas, outras a inteirarem-se do motivo do toque dos sinos. À multidão de populares, juntaram-se elementos dos Bombeiros Voluntários de Guimarães e da Polícia de Segurança Pública, que em conjunto prestaram os primeiros socorros às vítimas.
O cenário de destruição humana era deveras horrível: mais de sessenta feridos foram transportados com gravidade para o Hospital da Misericórdia, tendo esse transporte sido efectuado em ambulâncias dos Bombeiros, mas também em “carros de praça” e até numa camioneta da célebre “Recoveira”.
No Hospital da Misericórdia de Guimarães, para onde foram levadas as vítimas, o cenário assemelhava-se ao de uma de guerra, uma vez que existiam feridos espalhados pelos corredores do hospital, entre os quais se encontravam várias mulheres e crianças!
Os corredores que separavam a enfermaria e a morgue, no Hospital da Misericórdia, ficaram repletos de pessoas, vivendo-se aí cenas verdadeiramente comoventes. Uma delas prende-se com um homem que subia a escadaria da morgue para a enfermaria quando, de repente, viu os bombeiros a transportarem um cadáver de uma mulher para a morgue, quando se apercebeu que se tratava da sua própria mãe! Outro episódio chocante prendeu-se com uma rapariga que não esperava ver membros da sua família no Hospital, quando de repente vê passar o cadáver do seu próprio pequeno irmão!
A comoção por esta terrível tragédia foi geral. O presidente da Câmara Municipal de Guimarães, João Rocha dos Santos, ordenou de imediato que fossem colocadas as bandeiras do município a meia haste, e dirigiu-se também ao Hospital da Misericórdia, para visitar os doentes. No contacto que manteve com o Provedor da Instituição (Mário de Sousa Menezes) informou-o que a Câmara Municipal de Guimarães custearia todos os funerais das vítimas. No mesmo sentido, pediu para ser informado da necessidade urgente dos familiares das vítimas, ordenando à “Sopa dos Pobres” que de imediato distribuíssem comida urgente a estas familiares.
As dez vítimas mortais foram as seguintes: Antónia da Silva (que se encontrava no último mês de gravidez); Amélia de Freitas; Maria Emília (de 14 anos de idade); Adão Martins (de 15 anos); João Luís da Costa (de 13 anos); Maria Rodrigues da Silva (de 27 anos); Rosa Mendes (de 56 anos); Joaquina Rodrigues; João Lopes (de oito anos) e Fernanda Leite (de dez anos).
Nos dias seguintes à tragédia, o ambiente em Guimarães foi de enorme consternação e pesar. No dia 2 de dezembro, a meio da tarde, o largo em frente à igreja estava repleto de pessoas. O comércio fechou, tal como as fábricas dispensaram todos os seus trabalhadores.
De referir ainda que o funeral das vítimas, que se realizou às 16 horas do dia 3 de dezembro, ficou marcado por enorme comoção. Assistiram a estas cerimónias fúnebres as principais entidades do concelho de Guimarães e do distrito de Braga, e ainda milhares de pessoas, que fizeram questão de se despedir das malogradas vítimas desta enorme catástrofe.
Para além da mensagem de pesar enviada pelo Presidente da República, os vimaranenses registaram de bom grado o gesto de gratidão do Arcebispo Primaz de Braga, que enviou a quantia de três mil escudos, para que fosse distribuída pelas famílias das vítimas desta enorme tragédia, das maiores que Guimarães alguma vez assistiu!

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