Correio do Minho

Braga,

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A Torre esquecida de Ruílhe

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

Ideias

2020-03-01 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

O ritmo de vida dos nossos dias requer momentos de tranquilidade que podem, e devem, ser vividos no âmbito da habitação familiar. Nos tempos mais recentes, os locais recônditos, para férias ou para residência permanente, começam a ser preferidos por pessoas que procuram momentos de tranquilidade e de paz.
Já noutras épocas, o ritmo de vida agitada de algumas pessoas, requeriam locais mais calmos para fugirem da inquietação diária e social. O episódio que aqui quero apresentar ocorreu no final da Primeira Guerra Mundial e envolveu o bracarense José Teixeira, também conhecido como o “Teixeirinha de Braga”.
A segunda década do século XX ficou marcada, em Portugal, pela forte perturbação política, pela crise financeira acentuada e pela instabilidade social, resultante da carência alimentar e da falta de condições de habitação e higiene com que as pessoas se deparavam. Ainda a participação de Portugal na Primeira Guerra, Mundial teve efeitos perturbadores na população portuguesa aos quais os bracarenses não puderam escapar.
Artista e intelectual, devoto ao ensino e ao pensamento filosófico, José Teixeira passou uma vida de dedicação ao bem comum e à sociedade. Contudo, foi-se deparando com algumas posturas de pessoas que lhe eram mais próximas e que acabaram por o entristecer. Nesse sentido, e já numa idade avançada da sua vida, decidiu procurar um local distante da cidade de Braga para aí passar os seus momentos finais de vida.
Nesse contexto, decidiu escolheu a freguesia de Ruílhe, do concelho de Braga, para aí construir uma habitação que se enquadrasse com as suas pretensões. Assim, optou por um local muito calmo e elevado da freguesia, para poder contemplar melhor uma paisagem natural. O seu amigo J. de Faria Machado, na “Ilustração Católica”, de 16 de junho de 1917, refere que José Teixeira, “Cansado das cidades, farto da turbulencia desvairada da epocha, cheio de nojo dos homens e das coisas, ergueu alli o refugio da sua alma”.
O local onde construiu a sua invulgar casa situa-se na zona mais elevada da freguesia, à face da estrada que liga Tadim a Nine. Tratava-se de um terreno bravio, marcado pela sua postura agreste e onde dificilmente qualquer cultura ali podia ser desenvolvida.
Época marcada pela Grande Guerra e pelos efeitos nefastos que esta causou, o Teixeirinha começou a recolher pedra de casas antigas e degradadas que existiam nas redondezas. Aos poucos, foi colocando pedra sob pedra, construindo uma casa que mais se assemelhava a um castelo. A casa que foi crescendo ficou com a forma de torre que lá foi colocada.
Para Leopoldo de Sousa Machado, em texto publicado no “Echos do Minho”, de 25 de julho de 1917, as “Pedras e arbustos dispostos em razoavel alinho védam um terreno bravio assás restricto que nunca dará pão, vinho ou qualquer fructo”. Refere ainda que à “medida que nos ultimos annos iam, por perto de Braga, sendo demolidas velhas construcções ia o artista aproveitando e colligindo pedras, ferragens e lenhas que agora dispoz a seu gosto”.
J. de Faria Machado, coincidindo com a descrição de Leopoldo de Sousa Machado, recorda que o seu amigo Teixeirinha foi “...colhendo aqui e além, no mysterio das ruinas uma lage, um parapeito, uma cornija, reunindo, n’uma amorosa paciencia de benedictino illuminista”.
Depois de acumular as várias pedras recolhidas nas redondezas, José Teixeira juntou-as “jungindo-as e argamassando-as, na reconstituição fiel d'um genero, d'uma epocha, d'uma historia, resuscitou-lhes a sua vida, devolveu-lhes o esplendor, a tradição, o romance...”.
O interior da habitação foi, também, construído com o máximo de pormenor e simplicidade. J. de Faria Machado continua a sua descrição, dizendo que o seu amigo “não esqueceu um detalhe, não desperdiçou um pormenor e desde a cantaria ao mobiliario, desde o fogão angular ao oratorio medievo, desde os côres aos livros referidos aquella torre constitue a mais feliz e requintada reconstituição d'uma epocha.”
Na torre da habitação, José Teixeira colocou uma “janela angular bipartida por columnas, d’onde se dominam montes e valles” numa paisagem natural que projetava as pessoas para um autêntico “sonho épico de cavallaria e de lenda” dominada pelo vale que contempla toda a visão a partir desta casa castelo.
Terminada esta construção, no verão de 1917, o popular José Teixeira passou a recolher-se nesta sua fortaleza, em Ruílhe, que mais parecia o refúgio de um monge.
Escondida durante décadas pela forte vegetação, este autêntico castelo de Ruílhe pode ser observado agora com mais clareza depois de, recentemente, ter sido limpo o terreno circundante.
Atualmente em ruínas, o destino deste edifício enquadraria-se bem numa estrutura que contribuísse para a divulgação da cultura e da etnografia desta freguesia e, até, desta região.

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