Correio do Minho

Braga, sábado

A todos os professores disponíveis para aceitar a diferença: tchim-tchim

Noam Chomsky, um pensador crítico do mundo actual

Escreve quem sabe

2018-01-01 às 06h00

Cristina Palhares

Ao segundo dia do ano, o percurso escolar de uma menina vai mudar. Foi avaliada como uma menina com elevadas capacidades de aprendizagem, e com um excelente desempenho escolar. Ajustada emocionalmente à idade é uma “conversador” nata, integrando-se muito bem em ambientes sociais e familiares diversos. Da matéria do 2º ano só tem pena de estar a aprender “contas de mais e menos” quando já sabe resolver equações de primeiro grau. Do ballet à ginástica, da música ao piano, de delegada de turma a líder de jogos de recreio, com amigos preferidos mas atenta a quem não os tem, da rapidez de aprendizagem à quantidade de informação que retém, a Joana vai ver o seu percurso escolar mudar.

Quando for grande a Joana quer ser muitas coisas… quer ser só uma coisa, mas não sabe qual. Mas sim… quer ser. E vai sê-lo. Apenas se interroga sobre como será possível que os seus sonhos se concretizem tal como os sonhos de tantos amigos e amigas. Como a Joana, muitos meninos e meninas vão passando pelas nossas escolas sonhando com aquilo que um dia poderão vir a ser. Mas como a Joana, muitos meninos e meninas vão passando pelas nossas escolas interrogando-se se o conseguirão atingir.

Hoje, nas nossas escolas, os sonhos de tantos meninos e meninas perdem-se num afazer rotineiro, num cumprir de metas e objetivos, nos testes, nos exames, e num sem fim de tarefas, onde o sonho não tem mais lugar. Sonhar, e sonhar alto, é uma das poucas formas que temos para nos mantermos motivados e interessados num projeto, num percurso de vida, que se inicia mais ou menos por esta idade. Está nas nossas mãos, pais e professores, como tantas coisas que infelizmente não nos damos conta, dar o suporte necessário e fomentar os pequenos passos, as pequeninas etapas, que, no dia a dia os nossos alunos necessitam dar para atingir um dia o seu sonho. Ele não é estanque, ele não é rígido e fixo, ele vai sofrendo pequenas alterações, pequenos ajustes, adequando-se às novas realidades, às novas emoções, às novas descobertas, aos novos percursos de vida. Mas ele está lá: o sonho. Ou devia estar.

A escola tem que continuar a ser palco de sonhos, onde eles se inventam, reinventam. E ser palco, é dar luz, é dar cor, é dar som, é colocar em palavras, em gestos, expressando o que os nossos meninos e meninas, rapazes e raparigas, vão encenando, vão treinando, vão exteriorizando, vão interiorizando. E ser palco, sim, é difícil. O palco precisa de tempo. De tempo para ouvir, de tempo para compreender, de tempo para motivar, de tempo para exigir, de tempo para elogiar, … de tempo! Muitas vezes de estar apenas… do lado!

O maior de todos os palcos é aquele que permite a passagem de vidas e percursos de qualquer menino ou menina, rapaz ou rapariga, com um sonho! Mais… o maior de todos os palcos é também aquele que oferece um sonho, a quem ainda não se permitiu sonhar. Mas será que a nossa escola, a escola de hoje, é este palco? Não… infelizmente não. Perdemos as três pancadas de Molière, anunciando o início do percurso para atingir um sonho. Só faz sonhar, quem sonha também. E nós, pais e professores, deixamos de sonhar. Tiraram-nos o tempo do sonho, o tempo para o sonho, o tempo com o sonho!

Ao segundo dia...Uma história que só conseguiremos terminar quando a escola se tornar num enorme palco de sonhos. À Joana, devíamos conseguir prometer que os sonhos dela não vão começar por “Era uma vez”. Os sonhos da Joana vão começar por “É uma vez”. À Joana a escola vai ter que bater as três pancadas de Molière, abrir a cortina, dar luz, dar som, envolver, acolher, colocando-o ao lado de outros meninos com outros sonhos, para que partilhem, para que juntos façam os seus percursos tendo o seu fim em vista: os seus sonhos! Na plateia estarão sempre os que um dia apreciarão o nosso trabalho, de pais e professores.

E eles não vão querer saber se atingimos os objetivos curriculares todos, se atingimos as metas e competências desenhadas iguais para todos, se passaram com distinção nos exames e testes que a vida escolar exige. Eles vão querer saber como é a vida de cada menino e menina. O que faz aquele palco com a vida de cada menino e menina. E vão apreciar, não vão avaliar. E vão apreciar o que está a ser feito para concretizar os sonhos da Joana. Porque os sonhos da Joana são o que está no palco. É a peça que eles estão a apreciar. E, por certo, quem aprecia, bate palmas de pé, emocionado. Quem aprecia, bate palmas de pé, com vontade de não sair dali.

Quem aprecia, quer mais. Porque afinal, a escola, o enorme palco dos sonhos da Joana, não vai deixar que a vida passe por ela. A escola vai sim ajudar a Joana a passar pela própria vida, porque ela é maior que a própria vida. E a Joana vai ser todos os sonhos! Claro que vai. E eu estarei por cá para a ver a brilhar no palco dos sonhos! Tal como a sua professora que, ao segundo dia do novo ano, mudou para sempre o percurso escolar da sua aluna.
O novo ano merece um brinde: a todos os professores que com a maior tranquilidade estão disponíveis para os seus alunos, porque é de isso mesmo que se trata. Disponíveis para aceitar a diferença: tchim-tchim.  

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