Correio do Minho

Braga, quarta-feira

A teoria do labirinto

Saboaria e Perfumaria Confiança – pela salvaguarda do seu património

Ideias

2017-09-01 às 06h00

José Manuel Cruz

Terá o leitor desta crónica seguido a polémica dos cadernos de exercícios - passatempos - da Porto Editora? Episódio ridículo, a tal ponto, que o meu ocupado interlocutor ponderará abandonar a leitura destas linhas. O risco corro de inútil me tornar, de não justificar o espaço que o jornal me confia. Porém, tão ilustrativo o incidente é, que eu não hesito.
Segunda dúvida me assalta: terá o leitor dado fé, sequer, do burburinho? Saberá ao que me refiro? Escreverei entre o sim e o não, procurando não decalcar, procurando não dar por assumidos aspectos de facto ignorados ou subestimados.

Começo pelo fim: o senhor ministro da Educação deu ordens para que duas sebentas de sarrabiscos fossem retiradas do mercado, supostamente por diminuírem a menina diante do menino, exercícios delineados sendo para elas menos complexos do que para eles.
Atalho a direito e permito-me dizer que o senhor ministro se prestou à última de deplorável cadeia de idiotices. Sublinho, na idiotice do governante, a aparente falta de critério na alocação do tempo de trabalho pelo qual é remunerado. Na idiotice do ministro, sublinho, o exemplo de uma decisão tomada na vertical, em trânsito entre saletas e salões, por nótula debitada em tom escandalizado, hipoteticamente histérico, de assessor ou assessora - desdobrado que vai em respeito das igualdades de género.

O grilo-falante do senhor ministro emprenhou pelos ouvidos; o senhor ministro acompanhou-o na imaculada conceição. Assunto de lana caprina, dir-me-ão, relevável. A Porto Editora não perdeu rios de dinheiro; a cadeia política sai do imbróglio condecorada com uma piada de expiração em meia dúzia de dias. Fica, no entanto, a estrutura do enredo: precipitação, parcialidade, prepotência, tripé em que governante presunçoso se encavalita, hoje, por decisão com entrada no anedotário, ontem e amanhã, por despacho com implicações bem mais vastas e onerosas. Cabeça tem o ministro uma só, equipa tem o ministro uma só.

Ao ministro, a última; a outros, as idiotices preparatórias. Entre dezenas de páginas, sombrio alguém, sem mais que fazer, e da sua importância altamente convencido, encontrou um exercício para as Marias mais rudimentar do que o duplicado para os Manuéis. Da parte fez o todo, e sobre falsa totalidade elaborou enviesada oração de sapiência que, sem filtro, sem contraditório, foi servida com escarcéu público em jornal de contraído critério.

Detenho-me na pessoa que arranja a vida com pareceres de chula ciência. Imaginemos, por hipótese longínqua, que, abrindo o bloco das meninas e o dos meninos ao calhas, súbito sensível censor se depara com tamanho despropósito e, espírito inflamado, sai em defesa da honra da saia contra milenar estereótipo: pode lá aceitar-se que, em pleno XXI, haja quem barbies faça de todas as raparigas! E não correu dedos pelas outras folhinhas? Se as passou a pente fino: não constatou a equivalência geral dos caderninhos? Constatou, mas esteve-se nas tintas, já que bom exemplo tinha para se pôr em bicos de pés e armar uma escandaleira?

Dou por mim a concluir que a comissão para a cidadania e igualdade de gênero enferma das parcialidades e das péis finas de beata de cursilhos de cristandade e liga eucarística. Espírito de tosco, farisaico talhe, que resiste à passagem das gerações! Em que geratriz colhiam ser os obscurantismos da outra senhora: na época, ou na tacanhez obtusa de quem se instalava na máquina?

Estorinha que num instante se esvai, sem consequências, que de verdadeiro fait divers se trata. Ninguém se retratará, ninguém irá de castigo para o quarto escuro, ou no canto ficará durante o intervalo com orelhas de burro. Associações que me levam ao antigamente, às escolinhas diferentes para meninos e para meninas, que, parece, é ao que quer brincar a Porto Editora. Caderninhos de actividades lúdico-didácticas distintos para meninos e para meninas? Qual é o racional da coisa? De que aleijão, a que traumas quer a Porto Editora poupar menino a quem pedido seja que conduza feminil boneco, de vestidinho, ao longo de rocambolesco labirinto? Ainda vão dizer que a culpa é da psicologia!

Refresca, a tal comissão do bom gosto, a fundamentação do veto, por pecados transversais da molhada de fotocópias: um livreco de riscar e deitar fora perpétua a subalternidade da mulher? A que maquiavélica sociedade secreta pertencerão as autoras do catecismo? Não ter tão louvável comissão mais estandartes para arvorar: uns 50/50 por toda a parte, no parlamento, no governo, em sectores que deformam por feminina, esmagadora maioria, até no grupo técnico-científico da benta comissão, partido a 7 para elas e a 3 para eles.
Podem contar comigo, que muito andrógino sou. 

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