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A Sul pensando o Leste

Dia Internacional da língua materna

Ideias

2011-05-12 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

Estando esta semana na Universidade de Génova, pouco ou nada ouço sobre Portugal, o que não deixa de ser um alívio. Por aqui os meios de comunicação social tendem a centrar-se - aliás à semelhança da grande maioria dos países por onde tenho andado - na sua realidade doméstica, com uma ou outra notícia de carácter mais internacional. No caso italiano, em plena campanha eleitoral e volta em bicicleta, o mundo entra apenas nos noticiários pela porta da Líbia ou ainda de uma outra referência à morte de Bin Laden.

Fico grata que os media italianos não falem de Portugal, pois em virtude das presentes circunstâncias o que houvesse a dizer talvez não abonasse em favor da nossa imagem e para vergastadas já nos bastam as do nosso sentido de autoflagelação colectiva. Já quanto às pessoas que em Génova me falam de Portugal, pareço estar selectivamente rodeada apenas das que me contam maravilhas! Presumo que seja em grande medida por cortesia sua, mas é também por genuíno apreço, tenho que o admitir, pois só esse chega a explicar que alguém se aplique a aprender a língua portuguesa pelo simples prazer de melhor entender a nossa história, a nossa música, a nossa literatura.

Sinto-me lusitanamente lisonjeada, é certo, mas sem perder a consciência de que estou por agora num pequeno cosmos, numa espécie de mundo coralino exposto em lamela às lentes de um microscópio. E é neste microcosmos que chega a ser reconfortante - sobretudo num momento em que tendemos perigosamente para excessos de auto-crítica nacional - que uma notícia num diário económico (Il Sole 24 Ore) me desperta a atenção e me faz sentir apreensiva quanto ao futuro da velha Europa.

Uma sociedade de seguros do Grupo Allianz (Euler Hermes) apresentou recentemente um novo sistema de avaliação do risco dos Estados. O mapeamento tem por base o cruzamento de diversas coordenadas, tanto de ordem financeira e económica, como de ordem política e social.

A avaliação é particularmente sensível ao nível de interdependência financeira, económica e política que o Estado apresenta em relação a outros estados, sem excluir outros actores internacionais.

A maior ou menor dependência das importações, em particular de matérias-primas com destaque para matérias estratégicas tais como as energéticas; a existência ou não de crises governativas ou de crises de regime (mas não necessariamente a existência ou inexistência de democracia...) bem como a maior ou menor estabilidade das estruturas politicas, económicas e sociais; o nível dependência externa do sistema bancário, são algumas das muitas coordenadas que o sistema proposto considera importantes na avaliação do nível de risco de um Estado.

A tudo isto acresce ainda o factor tempo que num contexto de ampla globalização não pode ser senão breve, logo, toda a avaliação é segundo este sistema necessariamente contingente e sujeita a multíplos ajustes.

De uma primeira e muito breve leitura deste método de avaliação, julgo dever tecer pelo menos duas considerações. A primeira prende-se com o facto de este sistema de avaliação colidir com a posição que actualmente alguns estados ocupam à luz dos correntes sistemas de rating. Países como a China e a Índia que surgem classificados como países B, surgem neste novo sistema de avaliação como países de baixo risco, desde logo em virtude das muitas potencialidades económicas proporcionadas pelos seus gigantescos mercados internos.

A segunda consideração prende-se com o facto de a lista de países apresentada indicar sete países europeus que actualmente são classificados com AA ou B como sendo efectivamente de risco moderado a elevado. São eles a Espanha, a Estónia, a Letónia, a Lituânia, a Eslovénia, a Roménia, e a Croácia. Daqui sublinho ainda um outro facto: seis desses países situam-se no que amplamente designamos por Europa de Leste, sendo cinco membros da UE e um (Croácia) candidato a adesão.

Certamente que esta proposta de classificação do risco é tão válida como qualquer outra, mas, perante isto, como não pensar no futuro da Europa e sobretudo na responsabilidade que sobre esse futuro tem tido a qualidade do processo de alargamento realizado em 2004 e em 2007? A verdade é que não basta canalizar fundos europeus para que problemas estruturais e mentalidades se alterem nos países de Leste, como infelizmente bem o sabemos por experiência própria.

Do mesmo modo, não basta instigar culturas de consumo, amplamente do interesse das economias europeias de maior capacidade produtiva (logo mais competitivas), como se não houvesse amanhã, isto é, como se o endividamento das famílias ao ocorrer pudesse ser nacionalmente circunscrita sem outros impactos sobre economias interligadas. Tudo pois que acontece a Leste não deveria deixar a Europa a leste, mas pelo contrário, bem atenta.

A ausência de estratégia e de pensamento da Europa sobre o seu próprio alargamento a Leste é no entanto apenas parte de um problema mais vasto: o da ausência de uma estratégia global sobre si mesma enquanto projecto colectivo para o devir. Pensar o seu futuro implica porém algo fundamental que lhe tem faltado de uma forma embaraçosa na última década e meia: líderes fortes, com visão de longo alcance. Sarkozy pensa a sua França, Berlusconi pensa a sua Itália e em qualquer coisa mais que não nos interessa; Merkel pensa a Europa, mas pensa-a apenas à escala dos interesses da sua Alemanha e nesse aspecto, a que parece ser a Senhora Europa não deixa de ser à sua maneira também ela uma líder medíocre.

Entenda-se aqui por mediocridade essa incapacidade de ver além do arfar das idiossincrasias conjunturais. Resta talvez a intelectualidade académica, ironicamente prisioneira da sua maior grandeza, a liberdade do dissenso, mas essa não tem a obrigação da decisão política, nem por conseguinte o fardo do julgamento histórico.

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