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A solenidade de Nossa Senhora das Dores

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A solenidade de Nossa Senhora das Dores

Escreve quem sabe

2020-03-25 às 06h00

Elisa Lessa Elisa Lessa

A Irmandade de Nossa Senhora das Dores da Igreja dos Congregados foi fundada em 1761. Bernardino de Sena Freitas, nas Memórias de Braga, publicadas em 1890, escreveu:

(..) foi graças ao fervor e zêlo do Padre Mestre Martinho Pereira, da referida Congregação de S. Filippe Neri, que a devoção das Dores se começou a generalizar, não só nesta cidade (no Carmo e no Populo, em que se collocaram imagens similhantes à da Senhora das Dores dos Oratorianos), mas ainda também nos conventos de religiosas- alem de muitas mais egrejas e capellas, em todo o arcebispado primaz”

Nos finais do século XIX e princípios do século XX, a solenidade de Nossa Senhora das Dores era celebrada com sumptuosidade e música extraordinária. As actas da irmandade revelam-nos que a escolha dos músicos era um dos assuntos de maior importância e, havendo diferente opinião, a Mesa da Confraria procedia a uma votação. Assim aconteceu em 1862.
“ (…) correndo-se escrutínio, para decidir se, a qual das capelas se havia de entregar o desempenho da Muzica tanto vocal como instrumental, ficou vencido por maioria que se preferisse a Domingos Paiva (…)”

Já em Janeiro de 1888, os mesários, depois de alguma discussão, decidiram que a festividade deveria ser celebrada com o máximo esplendor, acordando que a responsabilidade da música nesse ano seria de Luís Esmeriz com a condição de este convidar as Cantoras e os Cantores precizos para o bom desempenho desta missão (…)

Os Paivas e os Esmerizes foram duas famílias de músicos que se destacaram na vida musical bracarense nos finais do século XIX e princípios do século XX, fazendo-se ouvir nas principais festividades religiosas e profanas da cidade e, em particular, nos Congregados. Em 1901, a Páscoa foi celebrada a 7 de Abril. A escolha dos músicos na solenidade de Nossa Senhora das Dores recaiu na Capella dos Senhores Esmerizes coadjuvados por executantes portuenses e por alguns amadores, de acordo com notícia do Commercio do Minho de 28 de Março desse ano. Na Igreja dos Congregados ouviu-se a Symphonia do Stabat Mater de Mercadante (Fantasia su motivi dello Stabat Mater di Rossini) e a Introdução e coro do Stabat Mater de Rossini, além de outras composições religiosas. O compositor italiano Giuseppe Mercadante (1795- 1870) esteve alguns anos em Espanha e Portugal, voltando para Itália em 1831. A sua fantasia, composta em 1860, recorre a temas do Stabat Mater de Gioachino Rossini (1792-1868), uma obra plena de signi?cado sobre a narrativa da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, ainda que de forte influência operática.

O Stabat Mater (em português, Estava a Mãe) tem uma longa tradição devocional, tanto erudita como popular, que remonta pelo menos ao século XIV. A autoria do poema é geralmente atribuída ao franciscano Jacopone da Todi (m. 1306). No século XV, o Stabat Mater surge como Sequência, um canto latino medieval que nasceu a partir da aplicação de um texto novo ao melisma da última sílaba do Aleluia e que mais tarde se tornou independente. A prática das Sequências, à excepção de quatro, foi proibida pelo Concílio de Trento (1543-1563), mas o Stabat Mater continuou a ser utilizado sendo aceite em 1727 como Sequência da Missa e como Hino do Ofício da Festa das Dores de Nossa Senhora, celebrada na sexta-feira anterior ao Domingo de Ramos.

Em 1902, o Commercio do Minho de 22 de Março noticiou que a Festividade das Dores tinha decorrido na véspera com o brilhantismo costumado, afirmando ser esta a celebração mais imponente que anualmente se realiza em Braga. Desta vez, e também no ano seguinte, a orquestra, composta de profissionais e amadores, teve a regência de Sousa Morais (1863-1919). Corria o ano de 1903 e o Stabat Mater de Rossini foi novamente interpretado.
A tradição de se cantar um Stabat Mater, alvo de atenção de tantos compositores ao longo dos tempos, perdurou durante vários anos nos Congregados.

Este ano, dadas as circunstâncias, a Páscoa em Braga será diferente!
Fica a esperança de que no próximo ano ou nos seguintes se possa ouvir de novo, na Basílica dos Congregados, o Stabat Mater de Rossini. Deixo o desafio ao Departamento de Música da Universidade do Minho e ao seu Coro e Orquestra Académica, que no antigo convento dos Oratorianos tem agora ali a sua formação superior.

A casa residencial dos oratorianos que vieram para Braga em 1686, por iniciativa do Cónego João de Meira Carrilho, tem fachada construída sobre desenho do extraordinário arquitecto André Soares (1720-1769), cujas comemorações centenárias do nascimento se comemoram este ano. Da sua autoria, segundo alguns historiadores, são também o retábulo da Senhora da Aparecida, o arco do coro, a caixa do órgão de tubos e o altar de Nossa Senhora das Dores.


Nota:
Por opção da autora o texto está escrito segundo a norma ortográfica da Língua Portuguesa anterior ao Novo Acordo Ortográfico.

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