Correio do Minho

Braga, quarta-feira

A serra do Gerês

Semana Europeia da Prevenção de Resíduos

Conta o Leitor

2016-07-27 às 06h00

Escritor

Pontes Oliveira

Vai fazer 61 anos que Miguel Torga, poeta e escritor consagrado, sentado numa pedra de um dos muitos miradouros da serra do Gerês, certamente fascinado pela grandeza e beleza da paisagem à sua volta, escreveu “há sítios do mundo que são como certas existências humanas: tudo se conjuga para que nada falte à sua grandeza e perfeição. Este Gerês é um deles”. Também Ramalho Ortigão, escritor, jornalista e bibliotecário, foi um admirador da beleza agreste da serra.

Algumas das obras dos dois notáveis homens das letras ou foram escritas no Gerês ou pelo menos ali inspiradas. De Adolfo Rocha o médico, Miguel Torga o escritor, existe na vila do Gerês uma rua com o seu pseudónimo. De Ramalho Ortigão, existe no lugar de Assureira, no centro de um parque florestal, local paradisíaco onde o escritor costumava refugiar-se nos finais da tarde para escrever, um bonito e artístico banco circular em granito, chamado “Banco do Ramalho”.

É um facto que tanto Miguel Torga como Ramalho Ortigão foram apaixonados pela serra do Gerês. Eles e outros, homens ilustres das letras, da pintura e da ciência, portugueses e estrangeiros como o médico, botânico e naturalista alemão Link (1767/1851, aproveitaram as enormes e naturais singularidades da serra para realizar os seus trabalhos de inspiração e investigação. Miguel Torga e Ramalho Ortigão, mas principalmente o segundo, oriundo do norte e com fortes raízes ao mundo rural, desde muito novo não resistiu aos encantos da serra. Com grande regularidade, ambos viajavam até ao Gerês onde se hospedaram por períodos mais ou menos longos.

Depois, a pé ou montados em mulas, embrenhavam-se por veredas quase inacessíveis na descoberta da serra. Naquele tempo como hoje, eles como qualquer outro visitante amigo da natureza que se aventure através dos seus inúmeros trilhos, não pode ficar indiferente, insensível, perante a grandeza e beleza das paisagens, proporcionadas pela monumentalidade da orografia em perfeita harmonia com o bucólico, o simples, o pitoresco. O quadro que se depara aos olhos do caminhante/visitante fá-lo sentir, de imediato, um suave encantamento, um místico despertar de bonomia espiritual.

Inserida no Parque Nacional da Peneda-Gerês, classificado como Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurés, a paisagem da mata de Albergaria, coração verde do PNPG, verdadeiro santuário vivo de biodiversidade, observada do alto do pico do Pé de Caril ou melhor ainda do alto de Calvos, de preferência a meio da primavera e no final do outono, é deslumbrante.

Vista dos cocurutos indicados, e de preferência nos períodos assinalados, o visitante/caminhante fica deslumbrado pela belíssima paisagem policromática da copa do extenso carvalhal secular e de outras espécies autóctones de grande e médio porte, salpicada aqui e ali por grandes blocos graníticos que emergem da copa do arvoredo. A meio, a mata é pacífica e generosamente invadida pela água dos rios Homem e Maceira, este afluente daquele, que têm as suas nascentes lá bem no alto da serra, o primeiro junto às antigas minas dos Carris, o segundo no planalto da Lomba de Pau.

Na época seca a água corre mansamente gorgolejando através de profundos e sombrios córregos, meio oculta por densa vegetação formada por azevinheiros, teixos, cornogodinhos, e medronheiros. Já na força da invernia, enfurecida desce em louca correria as encostas de corga em corga, formando aqui e ali pequenas cascatas, até chegar ao rio grande, onde, destemida, se envolve num abraço fraterno com a sua congénere, ganhando direito a integrar a forte correnteza que ao fundo do profundo e apertado vale segue bramante em catadupas até à albufeira de Vilarinho da Furna, ultrapassando tudo o que lhe aparece pela frente.

Mas em qualquer época do ano, em dias claros, o visitante eleva o olhar e pode ver para o lado das minas dos Carris o extenso e profundo vale do rio Homem encimado por alcantilados e fragosos picos, pouso natural das cabras bravas que ali se refugiam do lobo, e de algumas espécies de aves, incluindo a ave real que ali nidifica em total segurança.

A serra do Gerês inspira encanto e abstração. O conjunto das suas montanhas distingue-se facilmente pelas altas vertentes escarpadas, terminando em ameaçadores cumes aguçados. Uma das singularidades distintivas da serra do Gerês é a abundância de nascentes de água natural, uma delas pelo menos, explorada, com enormes potencialidades terapêuticas. Por toda a serra, do sopé ao cume mais elevado das montanhas, existem nascentes que alimentam pequenos regatos onde a água gorgoleja por entre a vegetação de amieiros, cornogodinhos, teixos e vidoeiros, e onde os animais selvagens e as rezes bebem.

Aqui e além, em local de fácil acesso ou no sítio mais recôndito, o caminhante/visitante pode apreciar as mais belas paisagens, umas em que a grandiosidade e rudeza dos picos alcantilados despertam um forte sentimento de respeito e admiração, outras em que se vê mergulhado em doce e deleitosa afeição perante um quadro de real bucolismo, capaz de enternecer o coração mais empedernido.

A Mãe Natureza foi de uma enorme generosidade com a serra do Gerês. E a provar essa bonomia está o facto de inúmeros e reconhecidos escritores, poetas, pintores, geólogos, botânicos, arqueólogos e zoólogos, e outros, nela se inspirarem e trabalharem nas suas obras, literárias ou não.

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