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A Sensatez do Novo Ano

Cisnes negros

A Sensatez do Novo Ano

Escreve quem sabe

2020-01-14 às 06h00

Analisa Candeias Analisa Candeias

Aqui está ele, o Novo Ano. Cheio de esperanças, sonhos, perspetivas… Cheio de vontades, aspirações, desejos – ou seja, toda uma canseira. Existe uma aura mística em redor da noite da passagem de ano que nos impele a ansiar pela manhã do dia seguinte e que nos quer fazer acreditar que no dia seguinte é que vale. Valem as dietas, o ginásio, as boas intenções, os renovados afetos. Valem as mudanças, a dedicação, o compromisso. Vale tudo na manhã seguinte à noite de trinta e um de dezembro, até as promessas de dormirmos mais e melhor ou de passarmos menos tempo com o telemóvel.
Não me entendam mal: gosto de uma boa festa como qualquer outra pessoa. Sou animada, divirto-me muito e acho que é uma sensação extraordinária partilharmos estes momentos. São memórias que se vão construindo, outras desvanecendo, momentos que podem perdurar; no entanto, tenho alguma dificuldade em entender o excesso desta altura do ano, o brilho forçado que se tenta imprimir a uma noite, os festejos com gastos megalómanos e o desvario nas promessas que se fazem. Sim, que algumas não passam de desvarios, porque toda a gente sabe que ninguém vai correr às seis horas da manhã do dia 1 de janeiro.

Haja esperança, é óbvio. Mas sensatez naquilo que se pensa em desejar, em querer. Pessoalmente, adoraria ter de altura um metro e oitenta (vá, aí um metro e setenta e cinco, já a desejar por baixo) – mas meço um metro e meio, sou um bom espelho da herança genética portuguesa e das mulheres cá de casa. Não sofro de algum tipo de frustração por causa desse facto, aceito o meu metro e meio com bastante orgulho, uso-o com muito gosto ao pé de todos aqueles que me são queridos que, diga-se de passagem, são quase todos bastante altos. Não seria sensato da minha parte desejar ter um metro de oitenta de altura: não existe coisa alguma ao meu alcance que possa mudar, instigar ou dominar para que tal acontecesse. O bom senso pode ser um bom conselheiro naquilo a que aspiramos e ajuda-nos a facilitar processos de alcance.

Esta nova história do Novo Ano, dos desejos, da renovação da esperança, da formulação de novos objetivos e tudo o restante, confesso, cansa-me demasiado. Antes de entrar esse ano tão esperado já me encontro exaurida por tanta divagação de ideias à minha volta, de ver essa ampliação de intenções ou essa extrema necessidade de passar uma noite de festa com uma roupa interior azul (ou amarela, ou vermelha, ou outra qualquer cor que varia de acordo com aquilo que se pretende). Acredito que a travessia do ano é um ritual de passagem importante, que marca ritmos, que deve ser percorrida com quem é mais importante para nós. Acredito também que a felicidade traz consigo trabalho, árduo esforço, alguma sorte e muita esperança, e que o caminho para a ir alcançando, dia a dia, passa mesmo por essa partilha, tirando uma porção de nós para oferecermos aos outros.

O acreditar é importante, claro. Mas o acreditar sem labuta, sem atividade, é provável que não resulte. E, quiçá, pode ser que as coisas não resultem, mesmo que trabalhemos muito, porque não estamos na esfera da escolha mais acertada e correta para nós. Pequenos passos possíveis, dizia alguém mais sábio e mais sensato; pequenos passos de que nos orgulhemos diariamente, que nos ajudem a conseguir algo maior no final. Como na minha adorada fantasia do Harry Potter, em que tudo se compõe e entende no final. Não desejar ir correr às seis da manhã diariamente, mas, talvez, começar por ir caminhar vinte minutos ao final da tarde; melhorar a alimentação com a introdução de mais fruta e vegetais na nossa nutrição diária; deixar de olhar para o telemóvel uma ou duas horas antes de dormir e, com isso, cumprir a hora de dormir. Pequenos passos possíveis para que a nossa autoestima aumente, para que a nossa saúde melhore e para sabermos que conseguimos chegar até lá, ao final.

Neste meio-tempo o ano vai correndo, janeiro vai avançando e (algumas) das vontades vão esmorecendo. Ou talvez não. Talvez se consiga viver na euforia da noite da passagem de ano durante as restantes noites. Ainda assim, penso que será mais saudável optarmos pela já expressão «devagar que tenho pressa», realizando etapas seguras e desfrutando delas, vivendo os momentos de festa e os rituais com aqueles que nos são caros - a saúde agradece. E entretanto… Bom ano!

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