Correio do Minho

Braga, quarta-feira

A seleção nacional

Um futuro europeu sustentável

Voz às Escolas

2016-06-16 às 06h00

José Augusto

Começou ontem mais um processo de constituição da seleção nacional dos jovens a quem vai ser dada a oportunidade de representar Portugal no campeonato do desenvolvimento. O desempenho do país na competição mundial da economia, do conhecimento e do desenvolvimento cultural, social e humano será protagonizado pelos escolhidos. E muitos são chamados, mas poucos os escolhidos (que alguns já lá estão por direito hereditário).
Para as funções mais prestigiadas os lugares são poucos e muito talento terá de ser ignorado. Se se ajustarem a papéis alternativos, poderão ter oportunidades noutras funções, se não podem ficar mais um ano à espera de vaga. Afinal, a polivalência pode ser uma virtude e “mais vale um pássaro na mão do que dois a voar”.
O ingresso na seleção nacional não depende apenas de trabalho e do desempenho individual. O país é pobre e cada equipa tem um número limitado de vagas. Aqui não há “mínimos olímpicos”. É preciso estar entre os eleitos e, para isso, é preciso que os concorrentes não sejam melhores. Não basta trabalhar para uma determinada marca, é preciso que haja muitos a ficar abaixo dela.
Como habitualmente, haverá algumas baixas de última hora. Os testes finais farão o último desbaste e o plano de preparação diligentemente cumprido ao longo de dois ou três anos pode ficar comprometido por contingências de última hora ou de um mau par de horas.
A seleção nacional dos jovens não faz controlo “anti-doping”. Alguns apresentam-se nas provas finais com a preparação que puderam, fruto dos meios gerais à disposição de todos e da perseverança e trabalho individual autónomo. Outros apresentam-se após programas complementares de preparação longos e dispendiosos, fortemente vitaminados com atividades extra e suplementos vários. Pouco importa, todos serão testados da mesma maneira e, mesmo que o rendimento caia no futuro, o que importa é o momento.
A seleção nacional dos jovens não cuida de dar oportunidades, cuida, primeiro que tudo, de dar conformação e tranquilidade social. As provas finais são aceites como um juízo final divino. A sentença pode ser acolhida como uma bênção ou como um castigo, mas não é questionada. Aliás, ela revela-se com uma precisão impressionante - até à centésima de ponto. E uma centésima basta para decidir quem entra e quem é rejeitado. E porque não haveria de bastar? Com que autoridade alguém vai questionar uma centésima de ponto? Sim, sempre que necessário, a seleção nacional também recorre ao “foto finish”.
Claro, haverá milhares de vidas defraudadas e frustradas nas suas expectativas. Haverá talento desperdiçado, energia desbaratada, mas afinal são jovens e serão capazes de se adaptar a outro destino. Pois! A vida continua e dispensamos bem algumas inquietações. O que é que se pode fazer!? Sempre foi assim!
Na seleção nacional dos jovens, a decisão final está nas mãos de uma entidade sem rosto e cada vez mais isolada na sua torre de marfim. Uma entidade feita de identidades anónimas. Uma entidade irresponsável e inimputável, porque nada lhe pode ser imputado dos resultados e das suas consequências, nem disso assume qualquer responsabilidade. Se os jovens falharem é porque estavam mal preparados.
A seleção nacional dos jovens toma como natural que milhares fiquem de fora. Não lhe fica bem assumir que está lá para isso - há coisas de que não se fala - mas também não se sente verdadeiramente incomodada com isso. Aliás, quase todos, até os próprios, aceitam como natural ficar de fora. Esta sina e estas crenças estão de tal forma enraizadas em nós, que nem ousamos pensar em alternativas melhores ou menos más.
Finalmente, há o destino, a fortuna ou o azar como conforto e explicação sempre disponível para todas as contingências da vida.
À pergunta sacramental:
- Correu bem?
Se correu bem, ouviremos recorrentemente:
- Sim, foi fácil!
Ou, muito raramente:
- Sim, estava bem preparado!
Se correu mal, nem ouviremos a resposta porque, seja ela qual for, já sabemos: estava mal preparado (e é culpado disso).
Começaram ontem os exames nacionais.

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