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A saudável posição dos bispos bracarenses sobre os abusos sexuais na Igreja

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A saudável posição dos bispos bracarenses sobre os abusos sexuais na Igreja

Ideias

2023-03-26 às 06h00

Artur Coimbra Artur Coimbra

1. Em meados do passado mês de Fevereiro, a Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa, constituída a pedido do presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. José Ornelas, liderada pelo pedopsiquiatra Pedro Strecht e incluindo respeitáveis personalidades nacionais, como o juiz conselheiro jubilado Laborinho Lúcio, a socióloga Ana Nunes de Almeida e o psiquiatra Daniel Sampaio, apresentou um relatório que teve como objectivo o estudo dos abusos sexuais de crianças por membros e/ou colaboradores da Igreja, entre 1950 e 2022. A opção metodológica de fundo foi colocar no centro do seu estudo a pessoa da vítima, encorajá-la e dar-lhe voz, tornando-a protagonista de uma experiência traumática que interessava conhecer, caracterizar e interpretar, após décadas de ocultação sistémica, encobrimento e silenciamento destes ominosos crimes.
Tudo surgiu na sequência de processos similares já registados em outros países, mas sobretudo em resultado da posição do Papa Francisco que, em Carta Apostólica, expressamente escreveu que “os crimes de abuso sexual ofendem Nosso Senhor, causam danos físicos, psicológicos e espirituais às vítimas e lesam a comunidade dos fiéis” e que “é necessário continuar a fazer tudo o que for possível para desenraizar da Igreja a chaga dos abusos sexuais contra menores”.
Foram validados 512 testemunhos directos (que remetem para mais 4300 casos e muitos milhares de abusos praticados), que permitiram elaborar uma análise estatística da amostra, que revela que a maior percentagem das crianças foi abusada entre os 10 e os 14 anos de idade, numa média de 11,2 anos, em práticas como manipulação dos órgãos sexuais, masturbação, sexo oral e sexo anal, bem como cópula completa.
Quanto aos locais mais comuns dos abusos, destacam-se os seminários, as igrejas, o confessionário, a casa paroquial e a escola religiosa, entre outros. Além dos abusos físicos, foram registados maus-tratos emocionais sobre as vítimas, que as forçavam ao silenciamento, à culpabilização, enquanto a pessoa agressora, pelo seu poder e domínio na igreja ou na instituição e na sociedade, mantinha uma situação de impunidade.
O relatório desce ao pormenor de solicitar às testemunhas o que lhe dizia a pessoa abusadora para se aproximar de si (a justificação era a necessidade de uma “purificação” da vítima), o que lhe dizia durante o abuso (a invocação verbal do que surgia como um “desígnio divino”, um imperativo), o que lhe dizia depois do abuso (expressamente proibia a revelação do que se passara, dando ordem de absoluto “segredo”) e se lhe dava recompensas ou castigos. Manifestamente, o impacto psicológico sobre as vítimas foi brutal, porque nenhum abuso sexual deixa uma criança emocionalmente indiferente. Sobressaem sentimentos de medo, culpa, vergonha, nojo, humilhação, desconfiança e insegurança, revolta e solidão. Uma grande maioria “cortou” posteriormente com a instituição Igreja, sublinha o relatório, embora permaneça católica, expressando a sua fé de outras formas.
Claro que este tsunami provocado pelo conhecimento dos abusos sexuais no âmbito da Igreja Católica tem lesado fortemente a instituição, levando a uma perda da fé, da prática religiosa e da simpatia pela instituição, se bem que não se deva tomar a parte pelo todo, até porque a Igreja tem um passado de serviço, em diferentes áreas sociais, educativas e culturais, que não deve ser apagado. Como em outros universos, não se podem confundir os abusadores criminosos com a generalidade dos seus membros. Mas que estes casos abalaram seriamente a credibilidade da Igreja Católica, não resta qualquer dúvida.
Em consequência, a comissão avança com medidas para evitar a multiplicação destes casos, que passam pela eliminação do celibato obrigatório, pelo respeito pela livre orientação sexual, pela integração e participação de mulheres em práticas religiosas e na vida da Igreja e, a outros níveis, pela mudança da moldura penal, aumento de pena e de prazos de prescrição destes crimes. Sobretudo tendo em vista o cumprimento da “tolerância zero” proposto pelo Papa Francisco relativamente aos abusos sexuais sobre crianças pelos membros da Igreja que só têm um nome: tarados.

2. Em consequência, foram díspares, absurdas e disparatadas algumas das posições da Igreja Católica, com bispos a avançarem com medidas e outros a assobiarem para o lado, numa estratégia de encobrimento do sol com a peneira, absolutamente intolerável. Mensagens confusas, contraditórias e equívocas, curiosamente por parte de uma classe que vive da luz da Palavra. Só com a passagem dos dias, as coisas se vão clarificando, atenta a gravidade do que está em jogo. Nem que o abuso fosse apenas um, já era condenável. Milhares, representam uma hecatombe para a instituição religiosa.
Saúda-se a decidida posição da Arquidiocese bracarense sobre este tema (dia 23 de Março). Em carta ao povo de Deus, subscrita pelo Arcebispo Primaz, D. José Cordeiro e pelos Bispos Auxiliares D. Nuno Almeida e D. Delfim Gomes, é enunciado:
“Com grande comoção e sentido pesar encontramos pessoalmente e ouvimos os testemunhos de algumas pessoas que foram vítimas de abuso sexual por membros da Igreja. As suas histórias e o seu sofrimento dilaceraram o nosso coração. Conscientes de que o olhar sobre a vítima não pode ser o mesmo que sobre o abusador, ousamos partir da súplica humilde e confiante a Deus para que nos conceda um olhar de compaixão sobre todos: em primeiro lugar as pessoas vítimas, mas também os abusadores e silenciadores, todos os que se escandalizam com a atuação de alguns membros da Igreja, as famílias e a sociedade em geral”. É positivo que se reconheça “a centralidade das pessoas que sofrem”, as vítimas destes hediondos crimes, que saiba interpretar a crise dos abusos, como “oportunidade para uma evolução ética da humanidade e também para uma renovação e purificação da Igreja”, que decida e actue em vista de uma cultura da protecção e de um ambiente mais seguro para todos, nas igrejas, nas paróquias, nos seminários, nos colégios, nas IPSS, em todas as instituições.
E conclui o documento:
“Precisamos, como Igreja, de reforçar uma nova consciência sobre o poder de cada um para saber ouvir e ler os sinais de alerta. Que estes dias duros que vivemos, de estrada penitencial, nos levem a caminhos novos em ordem a comunidades cristãs sãs e seguras, conscientes de que é preciso fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que não voltem a acontecer abusos no seio das nossas comunidades. Confiamos que o processo de purificação que estamos a encetar abra para a Igreja um novo futuro, marcado pelo reconhecimento humilde e transparente dos seus erros e pecados, pelo acolhimento das vítimas e pela criação de uma cultura de prevenção e cuidado. Todos somos convocados a uma conversão pessoal, pastoral e missionária, para a qual não é suficiente o pedido do perdão! Este é o caminho que queremos percorrer”. 
Muito há a fazer na Igreja bracarense e na Igreja portuguesa para erradicar o flagelo dos abusos sexuais contra menores. Não basta pedir perdão, obviamente; é necessário que a Igreja, como instituição, separe o trigo do joio e assuma as suas responsabilidades como um todo. E enfim, na senda do pontificado do Papa Francisco, é urgente mudar de atitudes, de comportamentos, de práticas e de paradigmas. Para que a sociedade não seja ainda mais descristianizada, porque, afinal de contas, estamos em face de um dos pilares da identidade cultural e histórica do Ocidente!!!

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