Correio do Minho

Braga, quarta-feira

- +

A saia comprida

“As bolhas” de Cidadania

Conta o Leitor

2020-08-02 às 06h00

Escritor Escritor

Texto: Fabíola Lopes

Quando Braga estava num processo de crescimento, uma vontade de excesso, um ar citadino a crescer-lhe pelas tranças fora, um espreitar de novidade a cada esgar no centro da cidade, era eu ainda um ser a adolescer e a descobrir horizontes além-fronteiras. Parecíamos percorrer um caminho paralelo, eu e a cidade.
A cidade a acolher novas lojas de roupas, de estilos mais diversificados, as marcas que víamos desfilar na televisão a chegarem, as tribos urbanas a definirem-se pelos andrajos, pelos penteados, pelas identificações musicais. A construírem identidades e a agruparem-se num instinto quase animalesco. A chocarem por prazer, mas sobretudo a testarem-se e a descobrirem-se individualmente.
Já trabalhava nas férias para ganhar o meu dinheiro. Não para o sustento diário ou ajudar a família, tive, tivemos a sorte de nunca ter sido preciso. Mas para chamar meu ao suor e ao destino a dar à compensação. Um lampejo de liberdade, que é como quem diz a responsabilidade das escolhas. Os erros, os devaneios, os caprichos. Uma primeira aproximação à independência, a palavra mais cara que conheço.

Crescer. E a cidade crescia. Havia um quiosque transformado em venda de passagem, bem perto do que hoje é a fonte na Avenida Central, de pequenos pacotes de batatas fritas. O cheiro tornava-se irresistível para a gula nas narinas e era tão simples pegar naqueles pacotes e seguir caminho a fazer o gosto à gula. No início da Avenida da Liberdade cresciam lojas e, na altura, uma particularmente seduzia-me o canto dos olhos.
Comprava lá camisas na secção de homem para não estar constantemente a usar emprestadas as do meu pai. Eram as únicas que me chegavam aos pulsos e as camisolas feitas pela minha avó ou pela minha madrinha ajudavam a disfarçar esse defeito de proporção. Ou aquilo que me parecia um excesso de braços para as medidas tidas como normais para a época. De repente, tudo era um excesso de corpo, uma lonjura do chão como se o corpo tivesse uma ambição própria para chegar ao céu. Eu só queria manter-me rasteira, normal, sem qualquer destaque ou saliência. E o corpo ali, a afirmar-se e a contrariar-me. A ser e a poder mais do que eu.

Com a abertura dessas lojas, um cheiro a modernidade visual instalava-se, quase superficialmente. E lembro-me de muitas vezes recorrer à comparação com a frase que ouvi por essa altura ou li em algum lado: podes tirar a rapariga da favela, mas não podes tirar a favela da rapariga. Ainda assim, as conjugações entre as novidades, o crescimento e a criatividade eram, no mínimo, interessantes.
E lembro-me de nessa loja ver, num certo início de verão, uma saia comprida, com fundo bege e flores vermelhas e alaranjadas a crescerem em alturas da bainha, quase do chão, quase a fazer dos pés raízes. As flores a crescerem esquias e elegantes, flutuantes pelo andar, o assentar perfeito na anca. A saia a desfilar a altura dela e a minha, sem desajeito, a esconder a magreza excessiva e a dar à altura desmedida carácter e identidade. Uma certa definição de beleza. Experimentei-a duas vezes em dias diferentes. Confirmou sempre a memória que guardava do seu efeito. O sublime em tecido, em corte e composição.
- Porque não a compras?

O Miguel sempre a insistir, a acusar já alguma impaciência por todos os dias, no final da tarde, passar pela dita loja comigo só para a ver, nunca para a comprar. Era cara. Eu tinha dinheiro para a comprar. Tinha-o ganho, era meu, podia fazer com ele o que quisesse. Podia comprar aquela saia.
Mas queria ir de férias, tínhamos o Alentejo como horizonte, o Alentejo que nos apaixonou as explorações de calores anos e anos seguidos, da costa ao interior, a desenhar linhas e costuras na nossa história. Poderia fazer-me falta aquele dinheiro. Poderia dar para mais um dia de liberdade em campos secos a perder de vista, em estradas de quase 40 quilómetros que atravessam quintas, em pessoas tão gentis connosco como com as distâncias, onde tudo é já ali porque a pressa não existe e os dias se sucediam em horizontes, sabores e pele.
- Vou comprar-te a saia.

Não, nem pensar. Era um teste, uma formação de resiliência, uma relação em evolução. Eu e aquela saia. Um namoro diário que se prolongou por semanas, até irmos de férias, depois já sem o Miguel para não atiçar a impaciência ou o impulso de a comprar para resolver a questão. Mas a questão não era para ser resolvida. Não assim.
Houve ainda o dia da despedida, um possível até ao meu regresso, se me sobrasse dinheiro. Se ela ainda lá estivesse, à minha espera.

O Alentejo foi corpo e alma. Foi sal, foi tempero, foi descanso. Foi alargar de horizontes, foi crescimento. Foi criador também de identidades. Não pensei mais na saia, em nenhum dos dias.
Quando voltei fui ver se ela ainda lá estava, apesar de já não ter dinheiro para a comprar. Podia contemplá-la um pouco mais, ver se no mês seguinte poderia, então, torná-la minha. Talvez com os saldos conseguíssemos estreitar a distância que nos separava.
Já lá não estava. Tive muitas saias, algumas parecidas com aquela, muito até, mas não tive aquela. E ainda bem. Desta vou-me sempre lembrar a rodopiar paciência e crescimentos.

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