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A Saúde e a Arquitetura

Viver sem e-mail: um imperativo existencial?

A Saúde e a Arquitetura

Ensino

2021-06-30 às 06h00

Ana Filomena Curralo Ana Filomena Curralo

Na Grécia antiga, berço da medicina moderna, Hipócrates (460-377 a.C.) defendia que o equilíbrio do corpo humano dependia de mudanças de hábitos alimentares, exercício físico, higiene e entendia que certas condições climáticas, propriedades da água, da luz solar, dieta, descanso e relaxamento tinham propriedades curativas.
Identificada por Hipócrates como a doença mais disseminada e fatal do seu tempo, a tuberculose era responsável em 1815 por uma em cada quatro mortes na Grã-Bretanha. A Peste Branca, como foi apelidada, foi apenas entendida em 1882, quando o bacilo causador da doença foi identificado pelo cientista alemão Robert Koch (1843-1910), que em 1905 recebeu o Prémio Nobel da Medicina por essa descoberta. Porém, não existiu de imediato um tratamento eficaz ou vacina.
Em resultado da evolução da química e da medicina física, a Europa do início do século XX pôde entender nomeadamente as propriedades minerais da água e os seus benefícios para a saúde. A popularização do termalismo é acompanhada de uma outra prática clássica, com origem na cultura árabe: o isolamento de doentes num local específico, afastados em geral para locais altos e arejados, proporcionando um contacto privilegiado com a natureza: os Sanatórios, dedicados à convalescença da Tuberculose.
O arquiteto e designer finlandês Hugo Alvar Aalto (1898-1976), juntamente com a sua esposa Aino Aalto (1894-1949) projetaram em 1933 o Sanatório de Paimio, cidade do sudoeste da Finlândia. O edifício foi gradualmente convertido em Hospital, permanecendo até aos nossos dias uma das obras mais emblemáticas de Aalto. Caracterizada pela rigidez geométrica, a estrutura é um complexo de edifícios divididos em áreas articuladas entre si de acordo com a sua função. É privilegiada a orientação solar e a perspectiva orientada para a vegetação. No conjunto arquitetónico foram incluídos alojamentos para funcionários em pavilhões isolados, garantindo o seu afastamento e privacidade.
Cada espaço e elemento deste sanatório foi concebido para promover a recuperação dos doentes. A disposição dos quartos dos pacientes foi determinada pelo cansaço típico da doença, que faria o paciente passar a maior parte do tempo reclinado na sua cama; a cor verde dos tetos foi escolhida por ser repousante, as fontes de iluminação foram situadas fora do campo de visão do paciente para melhor descanso ocular, e os móveis foram também projetados por Aalto, pensados como intervenientes na cura do paciente. Exemplo disso é a poltrona Paimio, ainda em produção hoje, de design ergonómico e favorecendo a respiração. Pelas suas propriedades naturais tácteis e térmicas a madeira utilizada para o fabrico da poltrona foi a Bétula Finlandesa. O edifício propõe-se como instrumento medicinal, e a arquitetura apresenta-se como veículo de reabilitação, cura e saúde.
Aliando forma e função, podemos identificar todas as características do que hoje conhecemos como arquitetura modernista, surgida nos anos vinte com o trabalho da escola Bauhaus na Alemanha, e do arquiteto franco-suíço Le Corbusier (1887-1965).
A nível nacional pode destacar-se da mesma época o Edifício Heliantia, Clínica Sanatorial cujas varandas perseguem o sol como um girassol, flor que está na origem Grega da designação do edifício. De arquitectura vocacionada para a helioterapia ou fototerapia, o edifício foi concebido em função da luz solar, com salas espaçosas de pé direito duplo, junto à praia de Valadares, inspirado nas melhores clínicas suíças da época. O edifício projectado pelo Arquitecto Francisco de Oliveira Ferreira (1884-1957) foi inaugurado em 1930 e depois de perder a sua função hospitalar foi adaptado para escola, tendo sido considerado Monumento de Interesse Público em 2013.
Caracterizada pela funcionalidade e parcimónia de materiais, esta arquitetura pode ser entendida como uma consequência da popularização de novos conceitos de saúde pública e de combate à doença como processo não apenas dependente de fármacos, mas como processo holístico, centrado na interacção do ser humano com o meio ambiente, associando aos processos curativos elementos naturais como o sol.
Em 2020 foi identificada uma nova doença altamente contagiosa. Como antes a tuberculose moldou o modernismo, a COVID-19 irá influenciar o futuro próximo da arquitetura, com a experiência coletiva da permanência em isolamento. A casa permitiu o confinamento, tornando-se o espaço mais seguro, e o espaço público partilhado tornou-se perigoso e alvo do afastamento social possível. Soluções móveis foram chamadas ao espaço público, como as barreiras de acrílico, divisórias transparentes segmentando o mundo exterior em zonas de segurança socialmente distantes.
O posicionamento em relação ao sol tornou-se mais relevante, contrariando a tendência arquitectónica da caixa vazia exclusivamente orientada para o seu interior. Características térmicas e acústicas ganharam preponderância, com vários elementos do agregado familiar em tele-trabalho e os mais novos em tele-escola.
Se as lojas e escritórios foram reformatados para a sua reabertura, as nossas rotinas mudaram no âmago. Potenciais quarentenas criaram novas necessidades; de mais espaço na casa para cada um; de erradicar corredores sem utilidade, de ter uma janela no quarto de banho, ou de ter um pátio exterior privativo. A arquitetura é assim novamente chamada a responder aos desafios funcionais presentes e irá refletir a epidemia passada, nos seus testemunhos e vestígios patrimoniais.

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