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A árvore dos desejos – porque a Primavera começou

O estado de emergência e a prisão preventiva

A árvore dos desejos – porque a Primavera começou

Escreve quem sabe

2020-03-24 às 06h00

Cristina Palhares Cristina Palhares

Aquela árvore! Uma árvore recheada de tantas, tantas folhas pequeninas, verdes, rijas, prontas para crescer e abraçar o mundo. Refletem os primeiros raios da manhã, num eterno agradecimento ao sol, fonte de vida, para ela, é bom de ver! Em cada folha bafejei um desejo, um pequeno desejo de como tornar o meu mundo um mundo mais bonito. Não de árvores, florestas, rios e lagos, mar… tanto mar, nem de animais, mansos e bravos, lindos e feios, pequenos e grandes, rastejantes e voadores, submersos ou hibernados, não! Com tudo isto o meu mundo já é mesmo bonito. Tão bonito como o nascer e o pôr do sol, o arco-íris de todas as cores, a aurora boreal e as cores fantásticas do céu, que dos polos alguns ventos as trazem até nós! Não! Tudo isto já não cabe em cada folha pequenina e bem verde, da minha árvore dos desejos. Não cabe porque já não é desejo. Desejo! Desejo, … é tudo aquilo que eu gostaria que acontecesse e que ainda não tenho.

Não tenho os meus pais, presentes, tanto tempo quanto o tempo das horas do meu dia. Queria tanto…!
Não tenho os meus pais, presentes, num bom-dia demorado, passeando de pijama pela casa, num pequeno almoço domingueiro (mas que fosse todos os dias). Queria tanto…!
Não tenho os meus pais, presentes, brincando e rindo com uma aula de ginástica para todos, revigorando os nossos corpos de uma noite descansada. Queria tanto…!
Não tenho os meus pais, presentes, nas mil e uma tarefas, exercícios, leituras, jogos on-line, um sem fim de ocupações enviadas pelos meus professores para mim, não, para nós, claro, porque teria os meus pais comigo. Queria tanto…!

Não tenho os meus pais, presentes, na descoberta de receitas culinárias, que todos, todos juntos na cozinha, descobrimos, inventamos, confecionamos. Queria tanto…!
Não tenho os meus pais, presentes, sentados num sofá, um sofá de dois lugares, mas onde cabemos quatro, ao colo, apertadinhos, juntinhos, num abraço longo, ouvindo uma história de encantar. Queria tanto…!
Não tenho os meus pais, presentes, num beijo de boa-noite, livre, despreocupado, demorado. Queria tanto…!

E tantos, tantos outros desejos: desejos de tempo, de tempo para juntos fazermos e sermos tudo! Fazermos jogos, jogos de todas as cores e feitios… fazermos construções e desconstruções, para lá da nossa imaginação e criatividade. Mas sermos.
Sermos gentis e bondosos: porque esperamos uns pelos outros, cuidamos uns dos outros, promovemos o bem-estar dos outros.
Sermos pacientes e empáticos: porque temos tempo para ouvir, tempo para partilhar, tempo para nos colocarmos no lugar do outro.
Sermos genuínos e tranquilos: porque não esperamos nada em troca, não antecipamos preocupações, temos tempo para viver o presente.

Mesmo quando o mundo à nossa volta não parece o mesmo. Mas não esqueçam: não parece, mas vai voltar a parecer. O mundo não parece o mesmo porque agora eu tenho tempo. Tempo para o que queria tanto…! E sabem porque tenho tempo? Porque é a hora de ser solidário. Solidário comigo, com todos, com o Mundo! Por isso tenho tempo…
Aquela árvore! Em cada folha bafejei um desejo. Queria tanto…!
Mas um dia, um dia, quando o mundo não precisar tanto da minha solidariedade, será que ele vai deixar que se cumpra cada desejo? De cada folha, da minha árvore? Queria tanto…!

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