Correio do Minho

Braga, segunda-feira

'A rua da Amizade', por Paulo Taleixa

O mito do roubo de trabalho

Conta o Leitor

2012-07-11 às 06h00

Escritor

Numa terra muito, muito distante… Era tão distante que só se podia chegar lá através de sonho ou da fantasia. Nessa terra havia de tudo; alegria, tristeza, sonhos, amigos e pessoas invejosas, como em todo lado. Havia rios, mar, montanhas e cidades muito bonitas, com ruas bem arranjadas, onde o povo gostava de fazer as suas compras. O mais importante nessas ruas, era a limpeza, o arranjo das ruas e dos canteiros de flores. Era por isso que as pessoas gostavam tanto de fazer compras, pois uma das razões era também a simpatia com que o cliente era recebido. E a variedade dos artigos, e a qualidade.

Mas existem excepções!
Existia na nossa terra distante uma rua muito larga, que era separada por um enorme canteiro de flores onde, de um lado e de outro, existiam lojas… e que lojas!
De um lado, vamos chamar o lado A, a rua era bonita, tinha a calçada com desenhos, era perfumada e era iluminada à noite por estátuas de cristal e fontes luminosas. As lojas eram ricas nas ornamentações, no recheio, até os placares de publicidade eram de cristal, ornamentados com pedras preciosas. Mas que esbanjamento! Mas as pessoas gostavam tanto daquela rua, que rapidamente os stocks desapareciam. Os donos das lojas do lado A eram muito importantes.

Eram os mais conceituados cidadãos da cidade, o presidente da câmara, o chefe de polícia, o juiz, advogados importantes, que se sabiam portar à altura das suas lojas.
Vamos agora falar do lado B da rua. A rua era tão miserável que até o sol tinha vergonha de lá entrar. A rua cheirava mal, pois não havia recolha de lixo, e poucas ou nenhumas pessoas passavam pelo lado B da rua. Ora, as lojas eram tão miseráveis que nem produtos em condições tinham para vender. Nem placares tinham! Mas que pobreza!

A farmácia, em vez de vender medicamentos, já vendia doenças. Tinha, na montra, folhetos: “gripe com cinquenta por cento de desconto”, “leve uma dor de costas com desconto e, grátis, uma tosse”... etc.

O padeiro já estava vendendo só miga-lhas. O taberneiro, para fazer publicidade, já que não tinha placar, estava sempre bêbedo à porta, para saberem que era a taberna. A casa funerária era conhecida porque viam o dono sempre com cara de enterro. O padeiro punha-se em frente da porta com a cara cheia de farinha. O farmacêutico estava sempre a tossir, com um lenço no nariz.

Um certo dia, os lojistas do lado B decidiram reunir-se na taberna. Estavam indignados com a sua situação, pois não aguentavam mais a miséria em que se encontravam.

E dizia o dono da funerária:
- Isto é uma situação de morte!
E o dono da farmácia:
- Isto vai acabar mal, vai acabar em doença.
E o dono da padaria abria os braços e dizia:
- Nós andamos aqui à cata das migalhas!

Decidiram então que tinham que fazer algo, não só pelo comércio do lado B, mas também pela rua. Delinearam um bom plano e, no dia seguinte, antes das lojas do lado A abrirem, estavam os lojistas do lado B sentados, com cartazes, junto às portas que diziam: ‘miséria’, ‘fome’, ‘indignação’, etc.

Os donos das lojas do lado A, ao verem tal espectáculo, mandaram-nos embora. Eles foram. Mas as pessoas que iam fazer as compras repararam nos cartazes. Na manhã seguinte, estavam de novo, com os cartazes, e sentados às portas das lojas do lado A. Mais observadores se juntaram a eles. E os lojistas do lado A reuniram-se, indignados, porque estavam a ser prejudicados na sua imagem. Mais uma vez os mandaram embora e ameaçaram-nos de que à terceira vez iriam ser presos.

Mas na manhã seguinte, não só os lojistas do lado B, mas também as pessoas todas que costumavam frequentar a rua e os arredores, estavam a fazer uma manifestação no lado A. E os lojistas do lado A reuniram-se para resolver a situação. Quando foram ao lado B, ficaram chocados. Nunca tinham visto tal miséria. Acusaram-se uns aos outros, mas no fim concordaram em que todos tinham culpa.

Reuniram-se com os lojistas do lado B e pediram-lhes para se ausentarem durante alguns dias. Passados esses dias, quando os lojistas do lado B regressaram, tiveram uma enorme surpresa...
A primeira coisa que verificaram é que já não existia o canteiro de flores que dividia a rua. O chão, de novo pavimentado, com lindos desenhos de flores e pássaros, fazia o convite aos mais cépticos, as montras das lojas e placares de publicidade brilhavam tanto que ofuscavam.

A rua estava tão perfumada que chamava a atenção de qualquer pessoa a muitos metros de distância. Já existiam contentores de lixo e tudo estava bem preparado. Até que o padeiro notou que na parede estava uma placa com o novo nome da rua...‘Rua da Amizade’.

Juntaram-se, conferenciaram e decidiram pôr a placa do lado A da rua, em agradecimento ao que os lojistas do lado A tinham feito por eles.
Moral da história: devemos ajudar-nos uns aos outros, sem esperar algo em troca, e nunca nos esquecermos de agradecer.

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