Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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A revolta nos cemitérios do Minho

O Movimento Escutista Mundial (IV)

Ideias

2013-10-28 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Na próxima sexta-feira, 1 de Novembro, a Igreja Católica irá celebrar o dia de todos os santos e mártires católicos. Em Portugal, é tradição prestar-se homenagem a todos os entes falecidos, aproveitando os portugueses para rumarem aos cemitérios.
Sendo Braga um símbolo do catolicismo em Portugal, compreende-se que aqui tivessem existido entraves à criação de cemitérios públicos. Prova disso é que, apesar dos decretos de 21 de Setembro e 8 de Outubro de 1835, da autoria de Rodrigues da Fonseca Magalhães (que considerava os enterramentos no interior das igrejas próprios da Idade Média) Braga só viria a ter o seu cemitério público em 1878.

Sendo a criação dos cemitérios públicos uma competência dos Governadores Civis, por diversas vezes estes eram questionados, criticados ou incomodados pelas razões que levavam à ausência de um cemitério público nesta cidade.

Nas igrejas de Braga, quer das freguesias urbanas, quer das freguesias rurais, os cadáveres acumulavam-se no interior dos templos, misturando-se com a multidão de fiéis que diariamente acorria às igrejas. O jornal “O Bracarense” (1) sintetizava esta realidade de forma clara, afirmando ser verdadeiramente “indecente e ofensivo do culto fazer dos templos, que são as casas de Deus, salgadeiras de carne podre que é o pasto dos vermes”.

Existiram algumas possibilidades para a construção de um Cemitério Público em Braga, sendo um terreno junto à igreja do Carmo, bem no centro da cidade, uma forte possibilidade. No entanto, devido às fracas possibilidades de garantir a higiene pública necessária para um projecto deste género, este acabou por ser abandonado. O jornal referenciado questionou mesmo se “Estará Braga condemnada a não ter cemitério publico e a ver enterrar nas egrejas com offensa das leis eclesiásticas?”.

Mas não era só em Braga que o problema do cemitério público se colocava. Um pouco por todo o distrito ocorriam episódios de grande revolta social, devido a este problema. Um desses episódios ocorreu na freguesia de S. Nicolau, em Cabeceiras de Basto. Cansado pela ausência de solução para este problema, um habitante dessa freguesia resolveu construir uma parede, no meio de um monte que era sua propriedade, e disse aos habitantes da freguesia que o cemitério público seria, a partir desse momento, nesse terreno.

O povo da freguesia ficou muito revoltado com esta possibilidade e recusou-se a enterrar os seus entes nesse pedaço de terra “infiel”. Foi então que o Governador Civil de Braga, acompanhado por um exército de soldados, se dirigiu à freguesia de S. Nicolau e exigiu que os populares enterrassem nesse “cemitério público” as pessoas que falecessem. Mais, ordenou que os cadáveres que se encontravam na igreja fossem levados de imediato para o novo cemitério.

Esta atitude do Governador Civil provocou uma grande indignação popular, uma vez que esse “cemitério público” não tinha sequer portas. Por essa razão, era frequente queixarem-se que andavam animais a vasculhar no cemitério, vendo-se frequentemente cães e porcos com ossos humanos: “Ultimamente foram d’ali corridos um bando de porcos, que andavam esfossando em procura dos cadaveres, fugindo um dos carnívoros animaes com uma cabeça de defunto, o que horrorizou e causou grande desgosto no povo da freguesia” (2).

Mas quando se pensava que os problemas com os cemitérios e os enterramentos nas igrejas tinham terminado com a chegada do século XX, isso não se verificou. Basta recordarmos três episódios, verdadeiramente caricatos, e que aconteceram no Minho, já no séc. XX.
O primeiro ocorreu em meados de Março de 1904, quando a população da freguesia de Britelo, concelho de Ponte da Barca, insistiu em enterrar um cadáver no adro da freguesia, em vez de o enterrar no cemitério público.

As exigências da população atingiram proporções quase incontroláveis, ao ponto de ter sido necessário deslocar uma força de Infantaria 8, de Braga para Ponte da Barca, comandada pelo tenente Vilaça. Para acalmar os ânimos na freguesia, esta força militar teve que ficar em Britelo cinco dias (entre terça e sábado).

No início do Outono de 1908 ocorreu uma epidemia na freguesia de Priscos. Por esse motivo, as autoridades sanitárias proibiram os enterramentos no interior da igreja. No entanto, essas ordens foram desrespeitadas, tendo a população decidido enterrar um cadáver na capela-mor da igreja. A acrescentar a esta afronta às autoridades e à saúde públicas, os populares decidiram ainda mudar para o interior da igreja seis cadáveres, que tinham sido enterrados no adro.
Esta atitude da população de Priscos originou uma intervenção das autoridades, que de imediato foram para o local averiguar os culpados destas atitudes.

Em 1911, já em plena República, um novo motim ocorreu no Minho, desta vez no concelho de Terras de Bouro.
Foi na sexta-feira, dia 2 de Junho de 1911, quando um cadáver foi sepultado no adro da igreja da freguesia de S. Mateus da Ribeira e depois levado para dentro da igreja. Muitas pessoas não gostaram e manifestaram-se. Para resolver esse verdadeiro motim popular, foi necessário ir de Braga a Terras de Bouro uma força composta por 30 praças de cavalaria.

Como se vê, quer no distrito de Viana do Castelo, quer no distrito de Braga, não foi fácil eliminar a prática dos enterramentos no interior das igrejas, o que demonstra a mentalidade tradicional e conservadora das nossas gentes. Mentalidade que ainda hoje se mantém.

1) De 8 de Novembro de 1861;
2) Jornal “O Bracarense”, de 6 de Novembro de 1861.

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