Correio do Minho

Braga, quinta-feira

A Quinta do Raposo, de José Costa

O Estado da União

Conta o Leitor

2010-08-06 às 06h00

Escritor

Era um espaço bastante grande, repleto de árvores de belos frutos, designadamente, maçãs, laranjas, pêras, cerejas e muitos outros. Cercava-a um enorme muro rectangular.
O proprietário, o velho Raposo, autorizava que a fruta fosse colhida, apenas aquela que se encontrava no chão, que podia ser comida à vontade e até ser levada para casa, tudo de graça!
Trepar às árvores com o mesmo fim, não estava nas suas contas. Tal propósito era garantido por um guarda latagão, armado de um longo chicote.
O meu grupo formado por catraios dos 10 aos 12 anos de idade, veio a saber que com tal benesse, o Raposo pretendia ver a sua quinta limpa a custo zero. A fruta grátis era na sua maioria amassada pela queda, quase podre portanto.
Após várias assembleias, decidimos, por vingança, atacar o pomar, subindo às árvores onde arrancariamos a fruta que era comida uma e guardada outra.
Só o facto de subir às árvores já era para nós motivo de grande alegria, em obediência à génese simiesca.
No dia aprazado, acercamo-nos do muro, logo escalado por todos. Ficámos sentados em fila no topo, varrendo com os olhos toda a área à cata de qualquer movimento suspeito. Nada foi visto, tudo calmo, somente o zurrar de um burro. O guarda muito provavelmente estaria ausente no exterior em serviço a mando do patrão.
Saltamos e de imediato, corremos para as fruteiras pré-atribuídas. Calhau-me uma frondosa laranjeira. O mais velho, ficou com uma árvore que lhe facilitava vasculhar todo o sector, mandando o assobio secreto em caso de perigo, afim de fugirmos a tempo.
Eu, ia comendo as apetitosas laranjas, guardando outras dentro da camisa e dos bolsos. Eram pequenas, mas muito docinhas. Azar meu, quando ao tirar aquela que considerava ser a última, porque já me encontrava praticamente bem fornecido e pronto a descer, vi, pela pequena clareira antes ocupada por essa laranja, o guara! Fiquei gelado apesar da canícula que se fazia sentir. Por sorte ele não me viu, a laranjeira era mesmo densa de folhagem. Aproximou-se em passos lentos, fazendo estalar o chicote do tronco, estremecendo-o. Sentou-se numa pedra encostada ao mesmo, resguardando-se do Sol. Falava e gesticulava. Tirou um cigarro de um maço barato, acendeu-o e deixou-se ficar recostado para melhorar o fumo.
Estava ali, a par de outros galináceos, um perú, inchado como um balão, incansável no roçar das penas das asas no chão, aos saltinhos aos tremeliques , mas a perúa visada ignorava-o, entretida que estava a debicar a terra.
Por culpa certamente de algum pequeno insecto, ou por vingança, a perúa deu uma forte bicadada na massa de “ tomatinhos” vermelhos no pescoço do perú conquistador dando este um pinote. A dor sentida devia ter sido atroz, pois desinchou logo a seguir, emitindo um longo silvo, encolhendo o monco até desaparecer no alto do bico.
“Muito bem feiro, para não andares a chatear a miúda”, estas palavras do guarda dirigidas ao perú.
Acompanhei o desenrolar de toda esta paixão peruana, estático, receoso, bem escondido entre as folhas, mas sempre de olho no homem logo abaixo.
O guarada, depois de olhar rapidamente em todas as direcções, levantou-se um pouco fazendo soltar um sonoro”traque”, logo saudado por dois glús-glús do perú. “Obrigado amigo”, respondeu o homem.
Valeu-me serrar os dentes com toda a força, para não me denunciar com uma gargalhada, poré,. Ao mexer-me um nadinha, fia sair de um dos bolsos do calção, uma laranja que foi cair junto dos pés do homem. É o fim, assim pensei, mas ele ao invés de olhar para cima por instinto, curvou-se para apanhar o fruto, levantou-se para dar uma caminhada de inspecção na certa.
Reduzi assim a pressão que me atormentava, bem precisava! Olhei para o guarada e quando estava a uma distância razoável, desci com a máxima cautela através dos galhos e como não me era possível escorregar pelo tronco, devido ao volume da fruta que carregava, saltei, fazendo vibrara ligeiramente o chão, comparável certamente a um pequeno sismo, para aí meio grau de magnitude na Escala de Ritcer, todavia o suficiente para o guarda se votar na direcção do epicentro, dando de caras comigo.
Restou-me o tempo útil para puxar a camisa, aliviando-me de toda a fruta, para logo ficar mais ágil, alcançando rapidamente o muro, transpondo-o de um salto.
Fora, era aguardado pelos meus amigos, que ficaram de mãos a abanar porque mal começaram as subidas o assobio secreto fez-se ouvir. Não dei por ele! Acredito que o som tivesse sido abafado pelo constante zurrar do jerico, amarrado muito perto da minha laranjeira.
Seguimos para as nossas casas, mesmo assim com alguma fruta! Duas laranjas, uma em cada bolso do meu calção.

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