Correio do Minho

Braga, quinta-feira

A Queixa

Mar revolto

Ideias

2019-03-17 às 06h00

José Manuel Cruz

Juristas em vazio de ofício, brigadas da confraria de Santa Justa Socialista, pessoas com horas mortas em dia de tédio, resolvem instar as autoridades: que se pronunciem, comissões competentes, sobre o desabafo do deputado em letra de porcaria, e sobre a teledifusão de programas assentes em estereótipos que amesquinham a boa mulher.
Ai de mim, conservador, ai de mim avestruz puritana: que fazem orgulhosos activistas LGBTI em aula semiprática de «Educação para a Cidadania»? Não são figurantes destas tendências sociopolíticas que se indignam e que tagam #CriançaNãoNamora? Eu sei que alongo a infância, que a estico até sexto-oitavo ano de escolaridade despreocupada, época pela qual já há beijos e comoções, erro que, no entanto, não ultrapassa o actual, este de tudo querer elencar, de vez, apressadamente, como quem larga perdizes diante de partida assanhada de caçadores.
Quem desenhou a palestra? Quem convida, se oferece ou se faz convidado? Como se pronunciou o Conselho Pedagógico do agrupamento de escolas? Questões preliminares ao reconhecimento. Sim, na Escola tudo pode ser discutido, em função de calendarização prévia ou de urgência que paire sobre os espíritos. Deste modo, que não a mim, ao senhor deputado Bruno Vitorino, pelo menos, que lhe seja fornecido o dossier do evento. Ou não haverá, e foi tudo atamancado em cima do joelho?
Mais: quanto não protesta a Escola, quanto não clama contra esse laxismo familiar que a sobrecarrega com a obrigação de Educar, quando melhor se quereria ela terreiro de Ensino e, por extensão, de Qualificação. No limite, demitam-se as famílias, declinem assumir a responsabilidade de esclarecer as tortuosidades do amor, de falhar clamorosamente no processo, e nos perguntamos: e, dentro da Escola, com distância, com ponderação, não se encontra quem possa abordar semelhantes temas, criativamente, especulativamente, remetendo para o futuro o que ao devir pertence?
Finalmente: não pode um cidadão – autarca ou não, deputado ou não – levantar reservas, pedir explicações de bastidores, indignar-se, inclusivamente, por causa de relambório que não subscreva? E que exagere no tom ou no verbo: se é parvo, com ele fica a parvoíce. Cheira-nos, porém, que se indigna quem força a barra, quem semeia pequenos ventos, para velejar de seguida a todo o pano, cavalgando a onda da modernidade, do igualitarismo panfletário. Como nada é igual!
E que não dizer do escândalo das alcovitices de televisão! Santos são, os arranjos de sogra e de nora em perspectiva – fica o homem entregue e servido. Se estou varado, em contrapartida, é com a ideia de que se possa conjurar lavradeira para parolo perdido nos fundilhos de Judas. Mas, um que outro que haja, prendado e encalhado, lorpa, conquanto de bom coração, e é uma obra de caridade que se faz aos dois. Isto digo eu, que não enjeitaria a possibilidade de encontrar trigueirinha que precisasse que lhe remexessem as terras e lhe puxassem vida às fruteiras. É entretenimento, minhas senhoras. Desanquem nas televisões, mas exijam cultura. Castiguem ministérios, mas não se calem, enquanto não tiverem ópera e bailado, teatro e cinema com estética apurada, ciência e documentário que amplie horizontes e que dobre saberes.
Enfim, senhoras e senhores de hábito bem-pensantes: ponham a ferros os alarves, arrasem os marialvas e as televisões de esgoto, arejem as escolas, mas metam literatura e antropologia, filosofia e psicologia, nas salas e nos ecrãs – têm uma ideia destas coisas, ou será que me engano? Espero que tenham. Vão ver que os jovens ficam servidos. Todos nós, arriscaria dizer.

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