Correio do Minho

Braga, sexta-feira

A propósito de uma conferência

Bragafado 2018: a trindade do fado tradicional

Ideias

2015-05-01 às 06h00

Margarida Proença

Esta semana tive a oportunidade de ouvir Thomas Piketty na Gulbenkian; para quem se não lembra, trata-se de um economista francês, ainda com 43 anos, que recebeu já um dos mais importantes prémios atribuídos a jovens economistas e conseguiu a proeza de vender cerca de um milhão de cópias de um livro de economia com cerca de 900 páginas. Discutido por todo o mundo e criticado por muitos, numa dicotomia muito redutora de esquerda-direita, o livro trata da desigualdade económica.

Basicamente trata-se de um livro de história económica; Piketty pega em dados estatísticos ao longo de um período com mais de 200 anos, em cerca de 20 países (Portugal não incluído) para mostrar que o capitalismo - ainda que seja um sistema indubitavelmente produtor de riqueza e inovação - reparte a riqueza de uma forma demasiado desigual. Mostra ainda, de forma clara, que no século XX, e depois das duas guerras mundiais a que se sucederam 30 anos de crescimento económico e inovação tecnológica, com a criação de estados baseados no bem- estar social e suportados por políticas fiscais redistributivas, desde finais da década de setenta se entrou num período de “estagnação secular”.

Suportado por uma significativa base empírica, Piketty mostra que a taxa de rendimento do capital tende a ser, em média e a longo prazo, mais elevada que a taxa de crescimento da produção. Quem tem mais dinheiro, porque o herdou por exemplo, fará mais facilmente muito mais dinheiro que os outros e portanto acumulará mais, e mais rapidamente. Nesta lógica, os dados usados por Piketty indiciam a existência de um mecanismo quase semelhante à “seleção natural” de Darwin, que será endógeno, intrínseco ao próprio capitalismo.

Na conferência na Gulbenkian, Piketty mostrou a uma larga assistência de jovens, como o significativo acréscimo na acumulação patrimonial nas últimas décadas, com uma elevada taxa de aquisição de casas por exemplo, contribuirá para que “ o passado tenda a devorar o futuro”. Nos Estados Unidos, em 2010, 70% da riqueza acumulada pertencia a 10% da população, e 35% a 1% apenas; dentro de algumas décadas, estas percentagens terão passado para 90% e 50%, respetivamente, mais ou menos o que se passava na Europa no final do século XIX.

O mecanismo que Piketty demonstra existir , de que a taxa de rendimento do capital é , no fundo, superior á taxa de crescimento das economias, é apesar de tudo um padrão histórico, que a história também já mostrou que pode ser alterado. A liberalização, desregulamentação, financiarização e privatização das ultimas três décadas reforçaram as taxas de retorno do capital, mas o New Deal, nos Estados Unidos e o modelo de bem-estar social europeu no pós-guerra, mostraram que as condições institucionais e as decisões políticas são importantes.

Aliás, por diversas vezes, ao longo da sua conferência, foi chamando a atenção para os perigos de uma interpretação determinística, fatalista do mecanismo, repetindo que há sempre alternativas, e mais do que uma. Há sempre escolhas, sendo certo que neste momento o capitalismo é a única opção credível de funcionamento da sociedade, e é de facto credível enquanto gerador de riqueza. Mas voltando ao que se conhece dos modelos de crescimento económico, será necessário uma forte dose de inovação tecnológica, ou um significativo aumento da natalidade, para permitir taxas de crescimento mais elevadas e por essa via permitir alguma correção das desigualdades na distribuição dos rendimentos.

A ouvir Piketty, na Gulbenkian, estava a maior assistência que já vi em Portugal - para além do auditório principal, muito grande, havia outros dois auditórios e uma zona aberta num hall. Vi por lá nomes famosos da nossa política, de todos os quadrantes, muita imprensa, muitos quadros superiores da administração pública, mas principalmente muitos, muitos jovens.

Um estudo da responsabilidade da Comissão Europeia, num capítulo sobre relações industriais e emprego jovem em 2014, é referido que 42,1% dos jovens entre os 15 e os 24 anos de idade eram trabalhadores temporários, frequentemente em contratos de formação envolvendo níveis salariais muito baixos. A mobilidade para ocupações mais bem pagas, ao longo da vida destes jovens, terá certamente uma componente endógena, ligada com as aspirações, abertura ao risco e capacidades de cada um.

Mas diversos estudos têm demonstrado que não será muito fácil; no caso da Alemanha, entre 1998 e 2003, apenas um em cada sete tinha conseguido escapar. A probabilidade é muito baixa se se mantiverem em ocupações não especializadas ou de natureza administrativa, ou ainda em empresas com uma alta percentagem de trabalhadores com salários baixos, ou ainda de pequena dimensão.

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