Correio do Minho

Braga, sábado

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A propósito de um selo com Alves Redol

A velha e a muda

Ideias

2012-01-19 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

Ontem, ao ler as cartas que tinha sobre a mesa de trabalho - invólucros de esperados agradecimentos e aborrecimentos, publicidades, inutilidades e obrigações que diariamente me chegam envoltos na necessária formalidade institucional, reparei numa carta que trazia selo.

Era um selo comemorativo dos 100 anos do nascimento de Alves Redol. Lembrei-me então de que ando há pelo menos sete meses com a ideia de escrever uma crónica sobre Redol, sobre Manuel da Fonseca (cujo centenário de nascimento também se comemorou em 2011), sobre Mário Dionísio, sobre enfim escritores portugueses do Século XX cuja grandeza só parece ser igualada pela também grande (grandessíssima, porque noutra acepção) ignorância feliz com que os (não) lemos e sem que tal belisque, note-se, a assertividade com que ao mesmo tempo declaramos ‘saber’ que são ‘neo-realistas’.

Acabo sempre por adiar a crónica, substituindo-a por qualquer outra que supostamente falará de algo mais actual e pungente. No fundo, creio que tudo se resume ao medo de não conseguir distanciar-me suficientemente desse ‘nós’ abstracto que acumula entre vícios e virtudes, o de subestimar uns nomes e sobrevalorizar outros, no que termina por ser o seu contributo activo para a construção da própria Cultura Portuguesa.

E a verdade é que nem sequer posso honestamente invocar o argumento de que o autor de Gaibéus não seja mediaticamente actual!

É certo que hoje não há Gaibéus, nem Ratinhos das Beiras, nem Carmelos do Oeste, nem Rabezanos das Lezírias, nem senhores de qualquer parte. O mundo cru que Redol despudoradamente desnuda ante os nossos olhos é um mundo de há 60, 70 anos, ainda profundamente agrilhoado a um entendimento feudal das relações sociais em que apenas alguma consciência de luta (porque alicerçada em alguma consciência da miséria) parecia ir despontando, na figura do ceifeiro-herói. Querer comparar esses tempos com os nossos, seria por muitas razões, um insulto.

No entanto, há tristes paralelos que me assaltam o pensamento. Semelhanças poéticas, dirão alguns, mas bem menos metafóricas do que parecem. Em Gaibéus, que li na minha adolescência, havia um céu ameaçador que embora fosse cruel quando tinha o sol a descoberto, era ainda assim preferível do que a chegada de nuvens e de pingos de chuva. O sol era sinal de corpo moído pelo trabalho e roído pela malária, mas de certeza de pagamento, ao passo que a chuva só podia trazer o fim da safra sem qualquer contra-partida.

Também hoje, há um céu que anuncia chuvas de desemprego, de miséria, de intranquilidade familiar, e trabalhadores que desejam que as nuvens se mantenham ao largo, dando lugar ao sol e ao paludismo da resignação trazido pelo mosquito das águas salobras em que se decompõem os direitos sociais.

Em Gaibéus, o senhor queixava-se: que não dava mais porque não podia, que quase se desgraçava por lhe pender para a compaixão, que ainda assim os gaibéus eram não raramente espertos ingratos. Também hoje, patronatos e governos reclamam por toda a Europa ser impossível dar mais, ou melhor dito, ser impossível tirar menos. Tal como noutras histórias, é o trabalhador quem mais uma vez fica na posição de egoísta mesquinho, incapaz de solidariedade, reincidente por orgulho na ignorância sobre as reais condições económicas do mundo.

Em Gaibéus, os alugados bem-diziam com a inconsciência dos simples, o senhor que generosamente lhes pagava uma côdea por cada cesto de espigas de milho debulhado, em compensação por nada lhes pagar pela ceifa do arroz que entretanto já tinham feito, mas que a chuva interrompera. Também hoje, o assalariado dá graças pelo que fica dos direitos laborais, depois da monda a que têm sido sujeitos nos últimos tempos. E talvez não se fique por aqui. Enquanto houver quem ache que os direitos sociais são daninhos, a monda continuará.

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