Correio do Minho

Braga, sábado

A propósito de um estudo

Investir em obrigações: o que devo saber?

Ideias

2015-05-29 às 06h00

Margarida Proença

Tem vindo a ser divulgado na imprensa um estudo sobre valores, qualidade institucional e desenvolvimento, financiado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. Não conheço o estudo em causa; aparentemente, foram identificados um conjunto de instituições de diferentes setores, e inquiridos os valores e atitudes dos seus gestores e funcionários, usando para tal questionários já testados em outros países. As instituições analisadas são de grande relevância - Autoridade Tributária e Aduaneira, CTT, EDP, Hospital de Santa Maria, ASAE e a bolsa de Lisboa (NYSE Euronext Lisbon). Têm ainda, na generalidade, uma dimensão significativa em termos de recursos humanos, embora dificilmente os resultados possam ser generalizados.

As ideias centrais sobre que se fundamenta o estudo estão explicitadas no sítio oficial da referida Fundação; a abordagem vem claramente da sociologia. O estatuto dos diversos intervenientes na hierarquia da organização, os papeis que lhes são atribuídos, depende da própria organização como um todo. São as pessoas que fazem as casas, que as habitam, que as mobilam e modelam com base nas suas preferências; de forma semelhante, as organizações sociais incorporam as “manifestações mais visíveis das estruturas de poder”.

Mas depois, de uma forma circular, atuam também sobre a sociedade como um todo, porque fazem regras que se aplicam a todos e a todos os setores, incluindo a religião ou a comunicação. Se as instituições funcionarem bem, então terão condições para promover o desenvolvimento do país, gerar e aplicar novas ideias, serem pro ativas. Mas funcionar bem significa formas claras de recrutar e selecionar trabalhadores e dirigentes, imunes à política e à cultura do “amiguismo “, seja ele de base política, de pertença a qualquer clube que seja, ou até mesmo porque vive “ no 4.º esquerdo do meu prédio e é um tipo simpático”.

Significa ainda imunidade à corrupção e à apropriação de interesses especiais, instituições abertas para o exterior , capazes de alterar tradições enraizadas e no “sempre assim foi feito”.
Só organizações com estas características potenciam o desenvolvimento económico e social. O estudo divulgado conclui que em algumas organizações a teia de interesses próprios e favores é por vezes demasiadamente elevado. E concluem também que a austeridade acabou por agravar este tipo de comportamentos e atitudes, diminuindo a importância da perceção da meritocracia, substituída provavelmente pela necessidade de sobreviver.

Nada disto é novo, e tem sido abordado também pela economia . E todos aceitamos de imediato o seu valor, sem discutir, um pouco como se fossem questões óbvias , mas depois…
Muitas vezes nem tão pouco se tem a perceção das atitudes; quando num cartão de visita institucional se coloca a informação de um qualquer cargo fictício “porque depois é mais fácil estabelecer contactos”; quando se elaboram documentos não institucionais para outros assinarem, porque isso “ é o que o meu chefe quer “; quando se conta o que se passou na reunião porque “mostro a todos que estou dentro dos assuntos e importo”; quando o chefe pede isso e aceita tal, que um colaborador seu lhe redija documentos pessoais ou passe informações confidenciais; quando um responsável máximo de uma organização propõe que um órgão da mesma funcione de forma fictícia, e que os membros do mesmo aceitem tal e assinem por baixo de decisões tomadas apenas por uma parte; quando um contrato é assinado com uma pessoa qualquer, diretamente e sem qualquer concurso, porque “é a pessoa melhor para fazer esse trabalho, que eu sei”; quando “é assim, porque eu sempre fiz assim” ; quando se forçam as regras “porque desta forma interessa-me mais , e posso obter esta vantagem”; quando se promove com base na estrutura de poder formal ou informal que existe e não da forma que o mérito imporia, quando aprovamos leis e nos comportamos como se o quadro social a que se referem não existisse (João Miguel Tavares, no Público de quinta feira, chamava a atenção para a curiosidade de em Portugal onde se legislou positivamente o casamento dentro do mesmo sexo, não se assumir como tal pouquíssimos casos de pessoas conhecidas, contrariamente outros países na Europa). São tantas, tantas as histórias, as atitudes, os comportamentos que se tomam como neutrais, como não corruptíveis, mas que no fundo se tornam nas regras sobre as quais assenta a a organização onde trabalhamos e por ela a sociedade.

As dimensões económica e social não são independentes; pelo contrário, este estudo e muitos outros sublinham que são mutuamente dependentes, e atuam fortemente de forma intergeracional. O capital social e as normas são passadas de forma sucessiva entre diversas gerações, e isso contribui também para reforçar a via de desenvolvimento .
Fica expresso nas desigualdades de rendimento, no capital humano a longo prazo, até mesmo no progresso tecnológico traduzido em ideias com capacidade real para serem implementadas de forma a gerar , não apenas estatuto, mas rendimento sustentável.

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