Correio do Minho

Braga, sábado

A propósito das provas de aferição

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Ideias

2017-04-28 às 06h00

Margarida Proença

Começam na próxima semana as provas de aferição dirigidas aos alunos do 2.º ano. Não se trata propriamente de exames, uma vez que nenhum aluno poderá vir a reprovar, ainda que os pais venham a conhecer os resultados obtidos. O facto de serem provas de aferição - dos alunos e das escolas - é importante, na medida em que possa vir a permitir proceder a um diagnóstico sério sobre as eventuais debilidades do sistema educativo. Para já, parece que teve um efeito muito positivo, segundo a imprensa tem noticiado, no reconhecimento da importância da educação por parte do poder local; muitas autarquias desenvolveram esforços para que todas as escolas de 1º ciclo tivessem à sua disposição o material necessário para as provas, em particular de Expressões Artísticas.

O debate á volta da relevância dos exames para crianças no ensino primário é significativo. Os seus críticos sublinham o stress demasiado com que as crianças são confrontadas, e o reforço excessivo de uma cultura de competição sobre os outros, em vez de sublinhar a importância do trabalho em equipa, da comunicação e da aceitação da diferença. Por outro lado, argumentam, os exames contribuem fortemente para transformarem as escolas numa espécie de “linhas de produção”, como se foram “fábricas de exames”, onde os alunos são treinados para serem mais eficientes nas respostas, acabando por reforçar a existência de “ligas de escolas de elite” .

O caso do sistema de educação finlandês, tido como um dos melhores do mundo, é, neste contexto, interessante. Na Finlândia, a educação é gratuita, a todos os níveis, desde a pré-primária. Nos dois primeiros ciclos, pré e primária , são gratuitos os livros, as refeições e os transportes; é proporcionado apoio especial às crianças que de qualquer forma dele necessitarem. Não existem escolas privadas. A responsabilidade pela educação, nesses dois ciclos, é das câmaras municipais, - no quadro da política educativa e dos princípios definidos pelo Governo - que recebem co-financiamento da administração central.

A autonomia pedagógica é muito elevada, podem adaptar-se a especificidades culturais locais, mas os resultados do processo de aprendizagem são aferidos todos os anos; são feitos testes não apenas a matérias de natureza curricular, como a matemática por exemplo, mas também a artes, artesanato e outros; mas essas provas não são nacionais, cabendo a sua responsabilidade aos próprios professores, que devem elaborar e entregar relatórios individuais pelo menos uma vez por ano.

Os resultados são utilizados para fins de desenvolvimento pessoal e das escolas, bem como para analisar e avaliar os programas; não resultam em qualquer tipo de ranking. Os alunos são também incentivados a desenvolver capacidades ao nível da sua própria avaliação e a aquisição individual de conhecimentos , mas não levam “trabalhos para casa”. Enfim, tem sido referido que a Finlândia violou boa parte das regras tidas por recomendáveis, e conseguiu construir um sistema de ensino de topo, ainda que, possivelmente, não possa ser facilmente replicado por outros países. Em qualquer dos casos, mostra que não existe uma receita única para o sucesso.

No campo contrário, a defesa dos exames encontra argumentos na consideração de que os alunos só estudam, de facto, se souberem que vão ser avaliados. Ainda que fiquem nervosos, é também uma forma de aprenderem a lidar com o stress, já que a avaliação fará, de qualquer forma, parte da sua vida adulta. Por outro lado, os exames promovem a competição, que é uma realidade do mundo em que vivemos, contribuindo assim para desenvolver a confiança em si próprios. Pelo menos desde 2016, em Inglaterra, as crianças no 2º ano de escolaridade são avaliadas nos seus conhecimentos curriculares (matemática, gramática, pontuação e ortografia) com base em provas nacionais, que permitem posteriormente o ranking das escolas. Os testes nacionais têm vindo a ganhar importância a nível europeu.

Em Portugal, estas provas de aferição do 2º ano letivo têm alguns aspetos muito interessantes. No que tem a ver com questões de natureza curricular, e com base nos exemplos divulgados pelo Ministério, são rigorosas (e confesso que indiciam uma aquisição de conhecimento muito mais exigente, de longe, do que no meu tempo), mas para além disso, a prestação de provas em expressão plástica e em educação física deve ser reconhecida e sublinhada, principalmente porque são áreas onde, tradicionalmente, o investimento não tem sido elevado. Em qualquer dos casos, será importante obter informações sobre o estado da situação - mas evitar, de todo, a utilização das mesmas para elaborar rankings .

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