Correio do Minho

Braga, segunda-feira

A propósito da aceitação de uma proposta de emprego

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Ideias

2016-03-11 às 06h00

Margarida Proença

Num dos seus artigos, McCloskey - uma reputada economista das áreas de metodologia e história económica - começa por referir que, dada a sua formação como economista no sentido mais ortodoxo, e pertencente à escola de Chicago, tinha sido com muita relutância, e talvez peso na consciência, que tinha acabado por aceitar a importância da cultura para a economia.
Na verdade, a abordagem mais comum dos economistas vai no sentido de argumentar sempre que a cultura das empresas por exemplo, não é assim tão relevante, porque seja qual for, para que as mesmas se mantenham no mercado, e continuem a ter lucros, terão de se adaptar ás necessidades dos consumidores, e eventualmente ás mudanças tecnológicas que forem ocorrendo. E são argumentos deste tipo que normalmente são utilizados para discordar dos sociólogos, ou antropólogos, como aliás a autora refere de forma quase crua - falem, falem, que no fundo tudo vai dar ao mesmo: a maximização dos interesses individuais e preços relativos. Money, Money, Money…
N verdade, estou quase na mesma; com formação idêntica, tenho contado muitas vezes a história de, no percurso do meu doutoramento, ter ouvido a um economista de relevância mundial, uma observação feita, com manifesto desagrado, a um aluno que o interpelava : “ Economia é economia; se o senhor quer discutir ética, está no doutoramento errado”.
O mais longe que se vai é com o famoso ótimo de Pareto - não vale a pena mudar nada se for impossível melhorar a situação de alguém sem piorar a de outro. Na linha da abordagem da economia do bem-estar social, compete ao Estado, ao setor público digamos, atuar como um agente benevolente que tem como função contribuir para a melhoria da qualidade do nível de vida de todos.
Com o tempo, a experiência, a idade enfim, contudo tenho vindo cada vez mais a aceitar a validade da cultura e da ética na economia. No fundo, acho que aquilo a que, na sociedade a que pertencemos, nos fomos habituando a acreditar, e a achar correto, as crenças que temos e que , de certa forma , estão na base da nossa cultura, ajudam a definir as escolhas que fazemos, muitas vezes sem pensar na sua racionalidade. E depois as instituições, e o modo como funcionam, são muitas vezes a representação externa dessas crenças, e isso claro que afeta a economia. Estou certa que para muitos isto pode ser demasiadamente reducionista, até porque a cultura é certamente um fenómeno muito complexo, com muitos aspetos diferentes, que pode evoluir e mudar.
Quando fazemos uma escolha, ou mesmo antes de tomar a decisão, estamos implicitamente a atribuir um valor, que traduz uma escala de preferências, que muitas vezes correspondem aquilo que é a norma , que nos habituamos a aceitar como sendo correto, que corresponde à cultura .
Discute-se por agora a aceitação por parte de uma personalidade que foi Ministra das Finanças, de uma oferta de emprego tentadora numa determinada empresa , mais ou menos na área por si regulada. As abordagens á questão remetem fundamentalmente para posições políticas - a favor ou contra, conforme a adesão , ou não, ao perfil político da pessoa em questão. Tem aparecido ainda uma outra linha, que procura ser neutral, com base na especificidade própria da empresa - comercializa dívida pública, ou não?
Em qualquer dos casos, a questão não é essa. Não importa a empresa - é o setor em causa que é relevante. E sem dúvida alguma insere-se na área previamente regulada, do ponto de vista político, pela pessoa em causa. O problema é que nos habituamos a aceitar que este tipo de comportamento é normal - é normal ser deputado, sem que tal obrigue de facto a exclusividade; é normal transitar entre cargos e empresas; é normal escolher de entre os amigos para ocupar cargos, pois, coitados, são quem precisa e nos apoia. Tivemos até um Presidente da República que achou normal recusar o vencimento que teria, e optar pelo montante mensal a que tinha direito pela sua reforma porque era mais elevado. “Normal” aqui remete para uma escala de preferências, que sustenta escolhas e decisões que maximizam o interesse individual, mas que traduzem também uma cultura. Demora tanto mudar.

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