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A primeira praga do século XXI

O estado de emergência e a prisão preventiva

A primeira praga do século XXI

Voz aos Escritores

2020-03-13 às 06h00

Fabíola Lopes Fabíola Lopes

Não, caro leitor, não vou falar do vírus que nos condiciona a vida, o medo, e até exala o egoísmo de que somos feitos, uns mais do que outros. Vou falar de algo que impede os jovens de socializar, de experimentarem novas vivências e de dormir.
Sim, há algo que está a viciar os nossos jovens, dia e noite, qualquer bocadinho de existência. São jogos, uns mais famosos do que outros, com heróis de carne e osso que não salvam ninguém. Apenas são famosos por dominarem estes jogos, são pagos a peso de ouro em eventos, ganham balúrdios em publicidade pelos milhares de miúdos que diariamente assistem online aos seus jogos filmados e comentados, com direito a todas as dicas.
Ouvi, na primeira pessoa, testemunhos de adolescentes, dos 11 aos 16, que ficam a jogar até à 1h da manhã ou mais nos dias da semana. Claro que vão para as aulas cansados, com sono, irritados e até agressivos. Os professores vêem-se a braços com uma pandemia que não conseguem controlar, nem impedir. Como seduzir alunos para o conhecimento, para a descoberta e para a realização pessoal? Desenvolvimento mental, espírito crítico, construção empírica? Puros horizontes irreais. Professora, para quê? Isso não paga contas.

Assim são os novos heróis. Se até há poucos anos eram os jogadores de futebol ou os músicos de bandas de sucesso, mais ou menos comerciais, agora os novos heróis, a par com os jogadores de futebol que ainda se mantêm, são os jogadores de fortnite e os youtubers. Miúdos novos, que ganham rios de dinheiro a dizer meia-dúzia de parvoíces, a jogarem e a serem os maiores. Boas casas, com piscina, bons carros, namoradas até giras com o mesmo grau de empreendedorismo. O sucesso rápido, como uma lotaria. A troca do tempo, do esforço, da conquista, da realidade por um punhado de ilusões.
Alguns até ganham algum dinheiro, ocasionalmente. Um deles avançou que ganhou uma vez 1200 euros. E têm aí o combustível para alimentar o sonho, enquanto vivem um pesadelo criado e permitido à volta deles. À sexta e ao sábado chegam a jogar até às cinco da manhã ou viram mesmo a noite. Acordar num domingo às 3h da tarde é comum e é permitido. Não entendo a inversão de poder ou o poder que lhes foi dado para assim acontecer. Será difícil tirar os aparelhos? Desligar uns botões ou até desligar a internet?

As reações tornam-se viscerais e assustadoras. E escalam, como tudo o que não é resolvido ou tratado em tempo útil. Que tempo passam estes jovens em família? Que experiências adquirem e que vivências além das que rodeiam ecrãs, jogos e youtubers?
Alguns pais viram-se para a escola, na pessoa dos professores, e soltam desabafos. Já não consigo ter mão nele, não consigo que me obedeça, já não me respeita. Não consigo fazer nada dele. Queixumes e desesperos, mais ou menos assumidos, entre os pedidos de ajuda disfarçados ou gritados num pedido de socorro que tarda a chegar.
Esta demissão e esta desistência começa muito lá atrás. Algures onde ser amigo dos filhos foi mais importante do que ser pai ou mãe. Onde para se evitar confrontos se perderam pequenas batalhas, sem terem noção que estavam a perder uma guerra. Onde um pedido de ajuda ou colaboração por parte dos professores foi visto como mais um problema, uma ameaça ao bom ambiente familiar.

E olham para os psicólogos como magos, aqueles que vão resolver, como num passe de magia, o problema que cresceu e fermentou durante meses e anos. E mudam de profissional quando fica difícil, quando não concordam, porque têm de ver o que não querem, têm de sair do papel a que se agarraram, têm de construir novas máscaras.
A família é o nosso ninho, o nosso porto seguro, a base de tudo, do bem e do mal. A raiz dos nossos valores, da nossa identidade. De quem somos. O nosso ponto de partida e, tantas vezes, horizonte de chegada. E nenhuma viragem de século vai mudar isso.
A pandemia do Covid 19 irá passar, com prejuízos enormes e vidas perdidas, infelizmente, porque não aprendemos as lições que devíamos em tempo útil. E esta praga, que prejuízos (alguns irrecuperáveis) nos trará nos próximos anos ou décadas?

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