Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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A primeira mudança da hora vista pelos bracarenses

O Movimento Escutista Mundial (IV)

Ideias

2012-10-22 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

No próximo dia 28 de Outubro (domingo), como é habitual, os relógios em Portugal irão ser atrasados 60 minutos, dando desta forma início ao chamado “horário de inverno”.

Todos os anos, por duas vezes, os portugueses participam neste ritual: na última semana de Março adiantam os relógios uma hora e, na última semana de Outubro, atrasam-nos também uma hora. A questão que se coloca é saber qual a causa destas alterações, quando surgiram e como foram vistas essas alterações pelos bracarenses.

Apesar do português Pedro Nunes, ainda no séc. XVI, ter estudado os limites dos “Crepúsculos” e de Benjamim Franklim, no séc. XVIII, ter proposto o ajuste da hora às estações do ano, só no decurso da Primeira Guerra Mundial os países sentiram a necessidade de tomarem medidas que promovessem a poupança de energia.

Desta forma, dois intervenientes e aliados na Grande Guerra (a Alemanha e o Império Austro-Húngaro) resolveram, no dia 30 de Abril de 1916, adiantar os seus relógios em 60 minutos, dando dessa forma origem à chamada “hora de verão”. O objectivo era aproveitar a luz solar durante mais uma hora. Como na altura os países gastavam muita energia na guerra, esta poupança foi muito bem vista.

Apesar de outros países europeus também estarem em guerra, e até em lados opostos da Alemanha e Áustria-Hungria, não hesitaram em adoptar esta medida. Nas semanas seguintes vários países adoptaram a mudança de hora, como foi o caso da Dinamarca, a 14 de Maio de 1916 e de Portugal, no dia 21 de Maio desse ano.

Uma mudança desta dimensão causou estranheza e até espanto em muitas pessoas, cujos reflexos fizeram-se sentir nos jornais da época. Em Braga, foram várias as críticas efectuadas a esta decisão, uma vez que as pessoas estranhavam mexer daquilo que parecia “sagrado”: a hora.

Segundo o jornal “Commercio do Minho”, do dia 30 de Maio de 1916, os “Kalendaristas officiaes de alguns paizes da Europa” não levam a sério algumas das tradições europeias, nomeadamente aquela que diz que “Nem por muito madrugar amanhece mais cedo”! E não hesitaram em legislar para a sociedade e também… para a natureza!

A mudança de hora era difícil de entender para algumas pessoas, uma vez que os “legisladores europeus” querem dançar com a natureza, e por isso “N’um dia, mudam a hora, no outro dia, as estações”!

O espanto em Braga era de tal ordem que alguns questionavam mesmo se os homens, que mudam a hora, seriam também capazes de mudar as próprias “colheitas… antes dos fructos estarem maduros, ou as chuvas… quando há temporal”!

A mudança na hora mereceu críticas fortes do jornal acima referenciado, uma vez que “a humanidade como os indivíduos, chegada a phase da decrepitude, delira”.

O facto de se proceder à alteração, até então quase sagrada, das 24 horas que um dia tinha, causava enorme espanto em Braga, ao ponto de se dizer, inclusive, que qualquer dia “os chinezes suprimem os equinoxios, os botocudos riscam do kalendario os solstícios, os groenlandezes exigem a contagem dos dias polares de 24 horas e os habitantes do equador decretam para seu uso as noites e dias polares… E a humanidade obedece”.

As principais razões apontadas para a mudança da hora estavam relacionadas com a Primeira Guerra Mundial, mas até este argumento era dirimido pelo jornal acima mencionado, ao questionar se seria para começar a guerra mais cedo que se alterava a hora. Se assim fosse, haveria um bom remédio: era “combater constantemente, sem uma hora de trégua, a ver se acabam mais depressa essa horrorosa carnificina”.

Apesar de todas estas críticas, outros países foram adoptando alterações nas suas horas, com destaque para a Austrália e a Nova Zelândia, logo em 1917, e os Estados Unidos da América, em 1918.

Actualmente os portugueses já estão rotinados com este procedimento, e no próximo fim-de-semana encararão, com naturalidade, o atrasar da hora em 60 minutos.

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