Correio do Minho

Braga, sábado

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A primeira grande viagem

Saída de menores de território nacional

Conta o Leitor

2021-07-17 às 06h00

Escritor Escritor

Carlos Azevedo

O estado da 4L (Renault) era deplorável, já que o meu pai não tinha possibilidade de comprar um carro melhor, comprou este em muito mau estado (hoje admiramo-nos como é que fez quase 4000 km seguidos). Foi nesta viagem que aconteceu uma das cenas mais engraçadas que ainda hoje recordamos em família.
Passo a explicar:
A 4L não era um carro espaçoso, mas mesmo assim levava todos os pertences mais importantes, já que a intenção do meu pai era não voltar mais a Portugal, e como podem imaginar o carro ia totalmente superlotado, ao ponto de eu e o meu irmão praticamente não ter espaço no banco de trás suficiente para nos sentarmo-nos.
Esta viagem ia ser feita a “monte” isto é ilegalmente (só o meu pai e a minha mãe é que tinham passaporte), por conseguinte nas fronteiras (na altura não eram abertas), eu e o meu irmão tínhamos que nos esconder debaixo daquela tralha toda, para que os guardas não nos vissem.
Para verem até que ponto era a nossa situação financeira, levávamos dois galos vivos (para que se fosse necessário “presentear” os guardas das fronteiras), e o mais caricato é que no momento em que os guardas da fronteira de Vilar Formoso, faziam a revista ao carro para ver se havia alguma coisa ilegal, eu e o meu irmão estávamos a enfrentar debaixo daquela tralha toda, as bicadas dos galináceos.
Podem imaginar duas crianças que sem ter a noção do perigo que a situação implicava, começaram a fazer algum barulho, o meu pai estava ao volante apercebeu-se desta anomalia, e antes que os guardas dessem por ela, saiu do carro abriu o capô simulando uma avaria, pôs-se a gritar à minha mãe, para pôr o carro a trabalhar, ela gesticulava e gritava, dentro do carro que não o sabia fazer, toda esta algazarra chamou a atenção dos guardas que estavam a fazer a revista na mala, que fechando-a perguntaram ao meu pai o que se passava, o meu pai respondeu que o carro não pegava, os guardas mandaram-no entrar para o carro que eles iam empurrar para ver se pegava.
Com a ajuda dos guardas a empurrar, o carro lá pegou, eles gritaram que seguisse viagem, mas, entretanto, saiu um guarda a correr do posto fronteiriço gesticulando energeticamente para que parassem o carro.
Os meus pais ficaram assustados e disseram-nos para estarmos calados e quietos, o guarda corria na nossa direção com o braço no ar. Chegando ao carro todo fogueado e arfando, entregava ao meu pai os passaportes.
Sorrindo com um ar muito natural, o meu pai enquanto pegava nos passaportes com uma mão, a outra procurava uma garrafa de vinho do Porto estrategicamente colocada por detrás do banco (já a contar com uma situação inesperada), entregou-a ao guarda enquanto agradecia, este com a garrafa debaixo do braço mandou-nos seguir viagem.
É fácil imaginar a tensão dentro do carro naqueles intermináveis minutos, e o respirar de alívio quando tudo passou, foi de tal forma intensa que quilómetros mais à frente paramos para descontrairmos e esticar as pernas (eu e o meu irmão) arrumamos o interior do carro para irmos mais à vontade o resto da viagem, e ao comentarmos o episódio rimo-nos à gargalhada (ainda hoje quando falamos sobre o assunto isso acontece).
E lá seguimos viagem para o novo destino e um futuro incerto.
Mas a aventura não acabou aqui.
Durante o nosso percurso dentro de território Espanhol, deslumbrei-me com belos cenários, grandes extensões de terreno a perder de vista em tons de castanho e branco, tinha nevado, paisagens magníficas, houve situações que paramos mesmo para deliciar o nosso olhar e curiosidade, já que para nós (eu o meu irmão e minha mãe), era a viagem mais longa que fazíamos.
O contentamento não tinha expressão.
A viagem decorria com normalidade apesar das temperaturas baixas, lembro-me que o frio era intenso naquelas pradarias espanholas, fazendo lembrar o nosso Alentejo, que eu não conhecia nessa altura, mas que agora posso fazer uma leve comparação, porque conheço a região.
Passar a fronteira Espanha/França não houve problemas, os guardas espanhóis depreendiam que se nós tínhamos passado a fronteira Portugal/Espanha é porque não havia problema e assim entramos em território francês.
Já em França ao fim de tarde, íamos nós descontraídos na viagem, quando começou a nevar, o frio dentro do carro era intenso, porque a 4L não tinha aquecimento “chauffage”, e apesar do frio eu e o meu irmão de boca aberta e olhos arregalados, víamos pela primeira vez neve a cair em flocos grandes. Mais uma novidade, que perduraria para sempre nas nossas mentes, porque o que estava-mos a presenciar era um nevão bastante intenso, que provavelmente iria atrasar a nossa viagem, não se conseguia ver um palmo à nossa frente, e como era fim de tarde, a noite caiu mais depressa tornando-se impossível transitar, o meu pai decidiu sair da estrada principal para procurarmos um local para pernoitar, só que o nevão era de tal ordem intenso e espesso que o meu pai teve que parar o carro sem saber onde estava.
Ali ficamos até de manhã, foi uma noite tortuosa, fria e desconfortável, o carro ficou totalmente coberto de neve, quando começou a amanhecer tivemos dificuldade em abrir as portas do carro. Saímos para fora do carro cheios de frio, a neve tinha parado de cair, o céu apresentava-se em tons de cinzento, mas prometia um dia de sol. Foi então que descobrimos onde estávamos, simplesmente no meio do nada.
No dia anterior como não se via nada, acabamos por ir parar no meio de um campo enorme sem habitações à vista, nem estrada não se via vivalma, parecia que tínhamos andado quilómetros às cegas.
Depois do espanto inicial e dum pequeno-almoço frugal, retomamos viagem, com grande dificuldade, pois devido à neve que tinha caído no dia anterior e durante a noite, tinha-se formado um manto branco com uma espessura considerável, dificultando o andamento da 4L. Devagar fomos avançando, mas sem saber em que direção tomar.
Andamos bem uma hora dentro do campo (no dia anterior não tivemos a noção do que tínhamos andado), tentando vislumbrar alguém que nos pudesse ajudar a sair dali. A Renault parecia um 4X4 e dava cada solavanco que às vezes tínhamos a noção que iríamos capotar, até que ao longe começamos a ver telhados de casas. Bem pelo menos não estaríamos perdidos durante muito tempo.
E assim foi ao fim de dez minutos conseguimos falar com uma pessoa de uma quinta que ficou admirada por aparecermos do meio do campo.
Depois das explicações com um francês meio atabalhoado do meu pai, lá conseguiu arrancar a informação pretendida, e na direção certa fomos encontrar a estrada que nos encaminharia na direção da autoestrada.
Assim, depois de mais esta aventura, chegamos ao meio da tarde ao nosso destino, e a um futuro inserto em terras de França.

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