Correio do Minho

Braga, quarta-feira

A pós-verdade

Saúde escolar: parceiro imprescindível das escolas de hoje

Escreve quem sabe

2016-11-20 às 06h00

José Manuel Cruz

No início era a Verdade. Deus, entendendo que só, morreria ela de tédio, de falsa costela lhe extraiu devotada companheira. Do reboliço então engendrado nunca mais os universos recuperaram. Milénios conviveu a Verdade com a Mentira, mas a de trazer por casa, a das petas de caracácá, essas que relevam de fantasias compensatórias, estratagema com o qual se faz grande quem é minúsculo, com o qual se realça quem se afoga na própria pequenez. Milénios conviveu a Verdade, também, com patranhas alinhadas por desgraçado, vilão apanhado com pé em ramo verde, embustes jurados diante de magistrado ou autoridade concorrente na derradeira tentativa para salvar a pele. Mentiras rasteiras e máculas do carácter, diríamos. Mentiras de plebe e desqualificados.

Milénios transcorridos, mantém--se a Verdade como no instante germinal - intocada, quiçá estéril. Já a Mentira, essa evoluiu, prosperou. Poderíamos imaginar que a Mentira - à metade filha da dissimulação - não vicejasse que nas penumbras, nos ângulos mortos. Mas não, ei-la que arrebita à vista desarmada, sob sol inclemente, ei-la que brota de lábios cultos como sacra palavra, como essência destilada em quinto alambique, filtrada de impurezas nanométricas.

Elegem, os Oxford Dictionaries, a PÓS-VERDADE, como a palavra, o conceito do ano. Mais do que uma palavra, a pós-verdade espelha um estado do mundo. Vivemos, assim, uma época em que os comportamentos do dia-a-dia respondem menos aos factos e mais às emoções ou crenças pessoais. Parece, por conseguinte, que resvalamos para a bestialidade, que, quais desvitalizadas marionetes, nos entregamos sem reservas ou remorsos a manipula- dores de meio-pataco.

Com que falsas verdades nos emparedam? Volta e meia lá desponta uma. Como esquecer a saga das armas de destruição maciça de Saddam? E aquela rábula da globalização económica, que era boa para toda a gente? Pois não iria o planeta saltitar de júbilo, até ao último dos seus habitantes, com as bondades do liberalismo auto-regulado? E por que é que os que querem o retorno das fronteiras e do proteccionismo económico são necessariamente retrógrados, quase proto-fascistas? E, quem é que nos explica, por que não cessa de se cavar o fosso entre os mais ricos e os mais pobres?

Regressemos a verdades desclassificadas do século XIX, por exemplo àquela que sustenta que mais não é o homem comum que uma força de trabalho, de rendibilização do capital, e que, por conseguinte, a geração do desemprego outro não visa que a manu- tenção de um contingente de reserva e a pressão sobre os empregados, sustendo ímpetos reivindicativos. Já sei que parece revolucionário: mas é menos verdade por isso?

A mentira sistémica de Estado tomou o lugar do medo enquanto cimento social. Impunham-se aos povos, outrora, as elites dirigentes, pela força das armas, por aparelhos repressivos. Penavam vidas pacatas, os povos, temendo o gládio e a fúria divina. Os deuses viraram eunucos, a repressão foi rebaixada a ferragem de tiranete. Como conter os deserdados, senão com desinformação, com similares descartáveis da verdade? Verdades ió-ió, verdades-iogurte de previsível obsolescência. Aristóteles não saberia o que dizer. Mas isso era Aristóteles, um picuinhas, no fundo.

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