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Braga, terça-feira

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A portagem de Arnoso para Braga

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Ideias

2019-06-09 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Na sociedade dos nossos dias, a vertente económica está bem vincada, uma vez que vivemos rodeados por impostos de vária ordem. Esta vertente económica advém desde cerca de 1 100 a.C., quando as moedas começaram a ser usadas na China, ou mais perto de nós, no séc. VI a.C., na região do mar Mediterrâneo.
Deste modo, os Estados aproveitavam as receitas provenientes dos impostos arrecadados às populações para desenvolverem obras em várias vertentes. As efetuadas nas vias de comunicação eram uma das mais visíveis, pois constituíam a estrutura basilar do desenvolvimento de qualquer região ou país.
Uma das primeiras fontes de receita proveniente dos transportes terrestres surgiu em finais do século XVIII, em Lisboa, por intermédio do secretário de Estado do Reino, José Seabra da Silva, que ordenou, a 28 de março de 1791, que fossem colocadas cancelas à entrada de Lisboa. Quem quisesse aí entrar teria de pagar uma renda, junto a esse posto, que se destinava a melhorar ou a construir estradas na capital.
Junto a cada cancela foi construída uma casa para abrigar o cobrador de impostos que aí fora colocado. Assim, quer os carros, quer as bestas que quisessem entrar na cidade de Lisboa, teriam que pagar alguns dos valores que a seguir são descritos:
- Por um carro de dois bois – 40 réis; por uma sege ou liteira – 100 réis; por uma besta de viagem – 15 réis; por um jumento – 5 réis; os bois, vacas ou bestas deslocadas em manadas de dez – 40 réis; por cabras ou porcos, em grupo de dez – 2º réis! O cobrador entregava um bilhete que era válido para todo o dia, desde o nascer ao por do sol!
Em Braga, antes da chegada dos caminhos-de-ferro, as viagens eram efetuadas também com recurso à tração animal. As viagens eram tão perigosas que, antes de as iniciarem, os passageiros tinham que se benzer e até confessar-se!
Só há 162 anos é que Braga ficou ligada ao Porto por uma estrada com ligação direta. No entanto, o percurso entre as duas cidades ficou marcado por vários obstáculos. Um dessas barreiras situava-se entre a Trofa e Ribeirão, onde o Minho começa, e onde foi construída uma das mais belas pontes do Reino, sob o rio Ave, inaugurada em 1858. Ficou conhecida pela “Ponte Pênsil da Trofa”, por estar suspensa sobre o rio.
A urgência de uma ligação direta entre o Porto e Braga era tão elevada que as viagens entre as duas cidades foram realizadas mesmo antes da ponte junto à Trofa ter sido inaugurada, sendo então usadas barcas entre a Trofa e Ribeirão para atravessar o rio. As primeiras viagens de diligências entre o Porto e V. N. de Famalicão iniciaram-se a 5 de maio de 1852 e entre o Porto e Braga iniciou-se a 4 de maio de 1853.
Contudo, entre V. N. de Famalicão e Braga existia outro grande obstáculo, situado em Arnoso, já no limite do concelho famalicense. O vale imenso que aí existe não facilitava o transporte de mercadorias e passageiros. Foi decidido, então, construir um imponente viaduto, tendo sido lá colocado um obelisco em granito.
Nesse importante obelisco, que ainda hoje o podemos admirar, estão colocadas três placas, datadas de 1851. Numa em que se refere a responsável pela obra, a Companhia de Viação Portuense – Contrato de 9 de Setembro de 1851; na outra placa onde está referido que os primeiros diretores da Companhia de Viação Portuense foram o Barão de Massarellos, António Gomes dos Santos e José P. de Barros Lima. Finalmente, na terceira placa, está grafado que o Ministro das Obras Públicas era António Maria Fontes Pereira de Melo, o Engenheiro Fiscal era Plácido António C. Abreu e os Diretores dos Trabalhos S. L. Calheiros de Menezes e Belchior José Garcez.
Foi também nesse local, em Arnoso, que foi colocada, posteriormente, uma importante portagem, para que todos os que quisessem entrar em Braga pagassem os seus impostos.
Em junho de 1894 foi realizado, na delegação de Braga do Ministério da Fazenda, não só o procedimento de adjudicação dos contratos de cobrança dos direitos de portagem existentes na ponte de Arnoso, mas também dos situados em Brito e ainda em Celorico de Basto. Nesta ocasião foram efetuadas, em hasta pública, as melhores ofertas para estas portagens!
Quem viesse do Porto, ou de V. N. de Famalicão, e quisesse entrar em Braga, teria de pagar uma taxa pelas mercadorias que trazia. Desde Arnoso até Braga, os carros de bois ainda tinham pela frente mais de duas horas de viagem, até chegarem à cidade.
As dificuldades da época eram tão elevadas que próximo desta portagem de Arnoso foi construída uma estalagem, cujo edifício ainda existe, e cuja parede “cai” na via pública, e servia de abrigo aos viajantes e cocheiros que por ali diariamente circulavam. Por vezes temos a ideia da distância que nos separa do tempo, relativamente a esta ligação rodoviária, ou à forma como se cobravam os vários impostos no nosso país, mas a distância não é assim tão longa, pois ocorreu há pouco mais de 150 anos.

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