Correio do Minho

Braga, quarta-feira

A política, os políticos e os cidadãos

Saboaria e Perfumaria Confiança – pela salvaguarda do seu património

Ideias

2013-10-08 às 06h00

Jorge Cruz

Neste regresso às páginas do Correio do Minho não posso nem devo esquivar-me a comentar as recentes eleições autárquicas, não obstante a distância temporal, embora um dos assuntos da actualidade - a total ausência de vergonha de Rui Machete, também merecesse uma abordagem crítica.

Em relação às autárquicas, e para além das claras vitórias do PS, da CDU e do CDS, em evidente contraste com a copiosa derrota do PSD e o eclipse do BE, creio ser de evidenciar, no plano nacional, os números relativos à abstenção bem como os que respeitam aos votos brancos e nulos.

Agora que a poeira assentou parece-me lícito concluir que se assistiu, no plano nacional, a uma ampla censura ao governo, em função das políticas de autêntico terrorismo social que Passos Coelho tem implementado. Sob esse ponto de vista os resultados globais não deixam margem a dúvidas. Contudo, constata-se também um inquietante crescendo de desencanto, diria mesmo decepção, de muitos portugueses face à política e aos políticos, bem perceptível nos números da abstenção e votos em branco.

De facto, os valores da abstenção em eleições autárquicas nunca foram tão elevados como este ano - 47,4 por cento dos eleitores inscritos optaram por não comparecer nas mesas de voto quando, há quatro anos, a percentagem se situou nos 41 por cento. Acresce que os votos brancos e nulos também atingiram cifras recorde, praticamente duplicando em relação aos últimos actos eleitorais.

Alguns especialistas tentaram justificar o acréscimo da abstenção com a inexistência de cobertura televisiva das campanhas e com a baixa fiabilidade dos dados do recenseamento eleitoral. Poderão ser explicações plausíveis, principalmente quanto aos números do recenseamento eleitoral, já que os dados oficiais podem ter sido superados pelo acentuado crescimento da emigração que as desastrosas políticas do governo incrementaram e até incentivaram. Há, aliás, estimativas que apontam para uma discrepância de cerca de 900 mil eleitores, o que obviamente inflacciona a taxa de abstenção em mais de nove pontos percentuais.

Como quer que seja, creio que a democracia portuguesa enfrenta um problema grave, um problema que vai minando lenta mas progressivamente o regime, e que é o desinteresse e consequente afastamento dos eleitores da participação cívica e política. Desse ponto de vista a duplicação de votos brancos e nulos deve ser entendida como uma atitude de protesto contra os partidos. E estamos a falar, nestas eleições, em quase 190 mil votos brancos e cerca de 145 mil nulos, ou seja, 3,87 e 2,95 por cento, respectivamente.

Claro que, pontualmente, o fenómeno também poderá ter sido ampliado em função de outros factores: não me custa admitir, por exemplo, que esses votos traduzam repúdio e protesto pelas consequências da controversa reorganização administrativa do território que, como se sabe, acabou com inúmeras freguesias.

Com estas ou com outras variáveis, a verdade é que o distanciamento entre eleitores e políticos tem vindo a acentuar-se, o que explica, em grande medida, o advento de candidaturas independentes. Nestes casos, há claramente uma falta de identificação de parte do eleitorado com os partidos concorrentes, por discordância com programas e/ou com os protagonistas. O fenómeno alastrou ainda mais com os falsos independentes, geralmente gente mais ou menos ressabiada com os seus próprios partidos e que se coloca na oposição por vezes apenas por ter sido preterida nas escolhas ou por outros motivos fúteis.

Acredito que a qualidade da democracia só terá a ganhar com o aumento da participação cívica e política dos cidadãos, participação que, obviamente, não se esgota nos partidos, embora tenha a profunda convicção de que eles são essenciais e um dos pilares do regime democrático. Também por essa razão, os partidos e, de uma forma geral, a classe política tem uma responsabilidade acrescida no labor que terá inevitavelmente de ser desenvolvido para reaproximar as pessoas da política e para acercar os eleitos dos eleitores.

Nesta reflexão não quero furtar-me a abordar os resultados verificados em Braga: a vitória da coligação “Juntos por Braga”, que reúne os partidos da direita, corresponde naturalmente à expressão de mudança de grande parte do eleitorado, cansado de 37 anos de gestão monolítica do PS. Considerando a evolução dos resultados dos anteriores actos eleitorais, até nem se pode dizer que, sob esse ponto de vista, tenha havido grande surpresa. A dimensão da derrota poderá ter causado algum espanto mas mesmo neste caso os observadores mais atentos, aqueles que constaram a passividade da Câmara perante os múltiplos sinais que foram surgindo, e não apenas nas anteriores eleições, certamente não tiveram uma grande surpresa.

À apatia perante os múltiplos indícios juntou-se um conjunto de medidas de última hora que sentenciaram definitivamente a derrota da candidatura socialista. Enuncio apenas as mais recentes, afinal aquelas que, em minha opinião, mais terão contribuído para os resultados que se verificaram: a questão dos parquímetros, o processo das Convertidas e a famigerada estátua. Convenhamos que num quadro como este, e depois de uma diferença tão curta nas eleições de 2009, qualquer candidato socialista corria sério risco de ser imolado, como veio a suceder.

Uma palavra final para a CDU, também ela vitoriosa já que soube capitalizar o descontentamento de largas franjas da esquerda de que resultou um aumento considerável do número de votos quer para a assembleia quer para a câmara, neste órgão traduzido pela eleição de um vereador.

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