Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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A Política e a não-Política

A saia comprida

Ideias

2014-11-24 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

Admito que é difícil resistir à tentação de comentar a actualidade política nacional. Nos últimos dias, as notícias sobre alegados casos de branqueamento de capitais, favorecimentos diversos e corrupção ao mais alto nível dentro de hierarquias públicas que se desejavam fossem de irrepreensível ética e sentido de dever na construção do bem comum, trazem à minha tarefa de docente de Ciência Política, ainda que não sem alguma ironia, um sentido de utilidade e até de urgência que muitos não achariam alcançável.

A verdade é que, ante o que parece ser uma guerra oculta de poderes, na qual cada um à vez vai lançando as suas bombas de mau cheiro no grande ventilador dos Media, na espectativa de que a nova pestilência desvie as atenções da anterior que ainda persiste, facilmente se compreende que se possam acentuar os sentimentos de descrédito do cidadão quanto à idoneidade da classe política.

Mas essa é a via mais fácil que para quem estuda os fenómenos políticos já pouco diz. E por isso, hoje mais do que nunca, tenho de lidar com as mentes inquietas de jovens alunos de graduação e de pós-graduação que buscam analisar e compreender esta complexa práxis política de valores e comportamentos que contrastam com as ideias de virtude cívica, do Estado de Direito e do bem comum que lhes chegam pelo estudo do legado político grego.

Estes jovens, que buscam reflectir além dos quadros de leitura simplista do senso comum, e além da mera reprodução das tiradas de sonantes opinion makers só ingenuamente tidos como descomprometidos, sabem que estudar Política é e será sempre fascinante, tal como sabem que esta “política” (seja a das peripécias dos vistos dourados, seja a da tentativa ridícula da reposição das subvenções vitalícias para os políticos), é a política que não querem para o seu futuro.

E sabem-no, com a mesma clareza com que percebem que os casos noticiados nos últimos dias não são, em rigor, Política, mas tão-só a natureza humana na destreza da sua pequenez a fazer mau uso, uso indevido, abuso, de um Poder que apenas lhe é consentido, não dado; de um Poder cuja fonte legitimadora se encontra nos cidadãos, não na pessoa autorizada.

Mas confesso que, não obstante todo o meu optimismo quanto à qualidade intelectual e ética dos meus jovens alunos que vejo crescer para a cidadania, não é sem alguma preocupação que assisto quotidianamente a um fazer política que nem chega a ser a Política amoral maquiavélica. Essa, apesar de escandalizar os que confundem imoralidade com amoralidade, rege-se ainda assim por uma muito clara ética estatal (a “raison d’État”), por implacável que ela pareça aos espíritos mais sensíveis. Esta a que assistimos nos Media, nem sequer tem dignidade para aceder ao estatuto de Política no sentido descrito na obra “O Príncipe”, de Nicolau Maquiavel.

É antes uma espécie de não-política. Comparo-a, consciente da força visceral da imagem que emprego e que é directamente proporcional ao desprezo que sinto, a um imenso campo de bostas, em que às mais secas se vão sucedendo outras mais frescas, e que nos fazem estacar na nossa marcha ante o invariável pensamento: “Quantas mais haverá? Quantas mais estarão escondidas entre o pasto alto?”

Mas não há que desanimar. Se toda esta expedição nacional pelos campos de bosta da pequena política, da política dos abusos de autoridade, dos branqueamentos, dos favorecimentos, dos erros e omissões, servir para cartografar de vez o terreno que enquanto cidadãos pisamos, talvez possamos assistir a mudanças paradigmáticas na forma como futuros servidores públicos poderão encarar a sua missão e possamos por fim assistir ao emergir de uma autêntica Política.

E com tudo isto, acabei por não falar dos paradoxos que resultam de ambiciosos projectos de cooperação triangular que parecem agradar a todos os países envolvidos (por exemplo, Japão-Moçambique-Brasil, para dar o exemplo da minha última crónica de Outubro), mas que na verdade também resultam em prejuízo dos que não têm voz, ou seja, a Natureza e as populações autóctones politicamente débeis e ignoradas pelos governos centrais. Disso falaremos então em outra crónica.

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