Correio do Minho

Braga, sexta-feira

A Poesia é o melhor remédio

Amarelos há muitos...

Voz às Bibliotecas

2016-03-03 às 06h00

Aida Alves

“A poesia é um remédio contra as doenças do coração”, afirmou o escritor brasileiro Édio Vargas. A escrita e a poesia são terapêuticas que invadem as nossas vidas desde a nossa infância. O nosso trajecto da vida poética passa por todas as estações do ano e estados de alma: contemplação, alegria, tristeza, serenidade.

Usar a escrita como terapia é um óptimo recurso para melhorar a qualidade de vida. É uma ferramenta que nos é proporcionada desde a nossa infância, cómoda e barata, e que nos serve para nos afastarmos dos nossos problemas por instantes e melhor nos posicionarmos para os ver. A poesia é um meio para eliminar angústias, raivas contidas, para fomentar a auto-estima, a capacidade de relação com o EU, com os outros, e a ultrapassar medos. Aprendemos, por exemplo, a relativizar o ridículo, quando escrevemos como nos sentimos em relação ao eu e aos outros, e quais os nossos sonhos.

Lembram-se das músicas cantada pelos nossos pais quando éramos bebés, as rimas do “olha a bola Manel” que cantávamos no ensino pré-escolar e, por exemplo, o trava-línguas “o rato roeu a rolha da garrafa do rei da Rússia”? Poesia, nada mais são do que poesia disfarçada que nos chega aos ouvidos e intelecto e que nos treina o ritmo, educando, assim, o ouvido e a mente.

A poesia lírica faz culminar todos os processos terapêuticos internos, ao estar mais unida à parte mais profunda e emocional do ser humano. Ela oferece-nos a capacidade de aprofundar as nossas marés emocionais, de nos encontrarmos connosco, de estabelecer relações com o exterior, de olharmos para dentro e dar uma forma a pensamentos e emoções. Tudo isto, envolvido em beleza e, por vezes, na estranheza da linguagem poética. Se nos acostumarmos a presenciar o mundo desde a óptica de um poema, aprenderemos a buscar e a descobrir material “poetizável” até debaixo das pedras e monumentos, a observar as coisas como se fosse a primeira vez, a descobrir as nossas sombras e a entrar num universo diferente, sempre vivo de cores e sensações. Abrir-se para um mundo novo, de portas abertas com maior amplitude.

A capacidade terapêutica da poesia, passa por ouvir a cadência da palavra, do discurso poético, em prosa ou verso, conduzindo a uma máxima elevação quando se escreve. O despertar para o gosto da escrita poética, num registo de criação própria é uma vontade de libertação do eu. É um caminho que qualquer um de nós pode seguir. Mesmo que seja no seu mais íntimo registo. A criatividade e a aprendizagem da escrita permitem-nos, no dia-a-dia, libertarmo-nos, respirarmos ar fresco, carregarmo-nos de energias, e atravessarmos portas do pensamento, das emoções e da fantasia. Adquirir o hábito de escrever um poema em cada dia ajuda a superar o bloqueio inicial e o medo ao papel branco, que pode eventualmente barrar-nos o processo terapêutico inicial.

A poesia é considerada a mais completa, misteriosa e incompreensível arte da palavra. Escrever um poema ajuda a que as conexões entre os dois hemisférios cerebrais se realizem com maior eficácia, uma vez que atuam entre a parte racional e a parte emocional criativa. Estas conexões fazem com que o cérebro se predisponha mais à resolução de problemas e que seja mais fácil fazer frente ao stress. Também nos ajuda a sair fora de nós e a educar a observação que fazemos do mundo, dos nossos estados internos e a gozar mais o mundo exterior.

Subestimamos por vezes o importante papel da poesia, sendo ele o género mais intimista e referenciável de toda a literatura. Torna-se por isso um desafio para todos, leitores, estudantes, autores, mediadores, educadores, pais, editores, livrarias, sociedade em geral. Insistentemente precisamos de trabalhar para que a poesia seja urgente e necessária à nossa disciplina interna diária e se imponha no nosso pensamento e na forma como nos comunicamos com os outros.

Quando partilhada, comunicada, dita, em esfera pública, a poesia atinge o seu expoente máximo de sublimação. Por isso, em Braga, respira-se poesia nas bibliotecas durante os 12 meses do ano. Respira-se ainda poesia nas escolas, nas casas, nas ruas, nos estabelecimentos comerciais. Porque a poesia pode ser efetivamente um bom remédio para as suas maleitas de stress, de dor, para reflexão. Torne a poesia um remédio do seu EU para o EU dos OUTROS.

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