Correio do Minho

Braga, quarta-feira

- +

A peste que provocou tensão com espanhóis

As bibliotecas são espaços inclusivos?

A peste que provocou tensão com espanhóis

Ideias

2020-10-04 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

As ruas outrora lotadas ficaram desertas... cães e porcos devoravam os mortos e tornaram-se selvagens, então ninguém se atrevia a se aventurar sozinho por medo de ser roído até a morte”, escreveu o patriarca Macarius, a propósito da terrível peste que assolou Moscovo, nos anos de 1654-1655.
Esta peste provocou a morte a cerca de 700 mil pessoas (85% da população da cidade). Nessa ocasião, as casas e propriedades das vítimas da peste foram incendiadas para controlar a sua propagação.
Atualmente, a pandemia que nos afeta já provocou um número bastante superior, ultrapassando um milhão de vítimas! Deste modo, regresso novamente a este tema e à Peste no Porto, que afetou muito a nossa região.

Nesse ano de 1899, sempre que chegava alguém vindo do Porto, o pânico apoderava-se das pessoas que tudo faziam para se afastarem.
Nas fronteiras do Minho, especialmente em Cerveira, Monção, Valença e Melgaço, o relacionamento entre portugueses e espanhóis atingiu momentos de grande tensão, alguns deles mesmo fatais.
Assim, no dia 19 de agosto de 1899 foi disparado um tiro por parte de um soldado espanhol, contra os “snrs escrivão de fazenda e recebedor d’aquelle concelho, que estavam sentados a gosar a fresca da tarde. Felizmente a bala não os alvejou”. Este acontecimento foi relatado pela folha de Melgaço de 22 de agosto de 1899.
Nessa altura, também, os soldados espanhóis dispararam sete ou oito tiros contra o reverendo António Monteiro, da freguesia de Passos (Melgaço), que se encontrava tranquilamente junto ao rio Minho a pescar enguias. Felizmente nenhum desses tiros alvejou o reverendo da freguesia de Passos.

Já em Monção, os soldados espanhóis dispararam contra o posto fronteiriço português, não causando danos maiores por não se encontrarem, no momento, soldados portugueses nesse posto!
Também no início de setembro de 1899 um soldado espanhol, que se encontrava de serviço no cordão sanitário de Chaves, passou a fronteira fardado e disparou contra um habitante da povoação de Soutelinho da Raia (Chaves). A vítima do tiro de espingarda disparado por um soldado espanhol foi António Rufino, que acabou por falecer. Esse soldado espanhol acabou preso pelas autoridades portuguesas.
Na tarde do dia 28 de setembro de 1899, na altura em que uma lancha pertencente à canhoeira “Rio Minho” vinha de Cerveira para Monção, partiu uma vara, sendo a embarcação empurrada para a margem espanhola. Ao ser avistada na outra margem, logo os soldados espanhóis dispararam 40 a 50 tiros contra a embarcação. Os militares dos postos fiscais próximos ameaçaram reagir, mas um oficial espanhol deslocou-se próximo dos fiscais portugueses pedindo-lhes que não o fizessem contra os espanhóis uma vez que se tratava de soldados “…andaluzes e tinham mucha sangre, não podendo por isso contel-os”. De seguida, já mais calmos, deslocaram-se para socorrer a tripulação portuguesa. (CM 5.10.1899)

Com receio da propagação da peste do Porto, os soldados espanhóis impediram que todos os compatriotas, que se encontrassem em Portugal, entrassem em Espanha. Neste sentido, desde o dia 15 de agosto que se foram se foram acumulando centenas de espanhóis em Valença, de tal forma que nessa localidade não havia alojamento suficiente para os receber. Deste modo, os espanhóis ameaçavam forçar o cordão sanitário na fronteira para poderem entrar no seu país.
Felizmente, no início de setembro começou a funcionar um posto de desinfecção, na estação ferroviária de Tui. Contudo, a entrada em Espanha foi gradual, apenas permitida durante cinco horas por dia e em grupos de 20 pessoas. À chegada a Tui cada cidadão era obrigado a tomar um banho e depois desinfetar-se. Este serviço era organizado por um médico e vigiado por forças de infantaria e cavalaria espanholas.
No entanto, ainda em finais de agosto, verificou-se outro incidente, quando um individuo que era transportado de Valença para o Porto saltou do comboio em andamento, desaparecendo nas margens do rio Minho, e causando um alarme na população.

Aliás, na costa portuguesa verificavam-se constantes ataques de espanhóis. Em Vila Real de Santo António, por exemplo, os soldados espanhóis atiravam a matar sob os portugueses que se aproximassem da fronteira espanhola e que pudessem aumentar os números de uma peste que teimava em persistir.
Perante tamanho receio, surgiram na altura pedidos divinos. Assim, o arcebispo de Braga, muito preocupado com a peste que vigorava no Porto, enviou uma circular a todos os párocos do arcebispado na qual solicita ao “Altíssimo o afastamento do terrível mal, não só d’aquella cidade, mas de todo ao paiz”.

O apelo referia que “em todas as egrejas parochiaes e nas das casas religiosas do arcebispado, se faça com a possível solemnidade um tríduo de preces publicas deante do SS. Sacramento exposto em throno ou á porta do sacrário, observando-se em tudo o que prescreve o Ritual Romano de Paulo V. Fit. IX, cap. 10 O Rempore mortalitatis et pestis”.
O arcebispo informava ainda que durante os três dias de preces se dê em todas as missas, quando o rito o permitir, a oração “provitanda mortalitate vel tempore pestilentice”, tirada da Missa votiva, que para este fim se encontra no Missal romano.
Quando todos pensávamos que acontecimentos desta natureza jamais nos voltariam a atingir, eis que nos deparamos atualmente com a segunda vaga de uma pandemia, com um crescente número de vítimas, que a todos deve preocupar.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

26 Novembro 2020

Quo vadis União Europeia?

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho