Correio do Minho

Braga, sábado

A Pepa, o Zico e o FMI

Consumidores mais habilitados a comparar comissões bancárias a partir de 1 de outubro

Ideias

2013-01-13 às 06h00

Carlos Pires

1. A Samsung Portugal lançou uma campanha - “Desejos para 2013” - que se tornou palco de falatórios e risos, em grande parte devido ao vídeo da bloguer de moda Filipa Xavier (conhecida por Pepa Xavier). O motivo de tanto alarido foi só um: Pepa fez um balanço do ano de 2012 e para 2013 pediu, como desejo pessoal, poder comprar uma carteira da marca Chanel. E apenas isso. A declaração causou a indignação - pelo seu lado supérfluo e porque desadequada aos momentos de sofrimento e pobreza que tantos portugueses vivem -, tornando-se rapidamente na anedota mais partilhada por milhares de pessoas nas redes sociais, de tal forma viral que a Samsung retirou o vídeo e pediu desculpas pela publicação do mesmo.
Em primeiro lugar, não posso deixar de lamentar que alguém, adulto, provavelmente com elevada escolaridade cumprida, possa ter aspirações e objetivos pessoais tão fúteis e “vazios”, pelo que recomendo à Pepa que reserve o dinheiro para um adequado acompanhamento psicológico, que lhe trate os aparentes problemas de construção pessoal que revela. Contudo, desengane-se a “Pepa”, não é ela a peça importante desta história, não é nela que reside o cerne do problema… Na verdade, pergunto-me, o que terá levado a Samsung a publicar na sua página oficial da internet aqueles conteúdos? Falta de rigor profissional? Ou será que a campanha publicitária em causa, de forma astuta, e pretendendo abarcar um público relevante, incluíra aquele vídeo exatamente por saber que somos um país em que existem muitos e muitas “Pepas”, um país em que os/as “Pepas” têm voz, um país em que os/as “Pepas” têm seguidores? Qual é, afinal, o lado do país que mais pesa: o país dos “Pepas” ou o país dos verdadeiros valores?

2. Uma criança, de 18 meses, morreu, em virtude dos ferimentos causados pelo ataque de um cão. Desconheço o nome da criança vitima. Mas sei que o cão que a matou se chama Zico; ou não fosse ele o protagonista de uma campanha de solidariedade que arrasta milhares na internet, com o fim de evitar o seu abate - a mesma campanha que denuncia e aponta o dedo aos “verdadeiros” culpados: os familiares da pobre criança!
É estranho, confesso, que, em vez de ser a morte de uma criança a suscitar a lamúria nacional, seja, ao invés, o cão que a matou a ser objeto de uma campanha de solidariedade. É estranho, ainda, confesso, que os mobilizadores da campanha, em vez de discutirem os “motivos” pelos quais o Zico matou, não prefiram despender sinergias a apelar aos especiais cuidados a que estão obrigados todos aqueles que mantêm nas suas residências, em estreito convívio, cães de raças perigosas, de forma a evitarem perigos e tragédias (repetidas nos últimos tempo, de resto!), aproveitando para alertar para a necessária condenação, na Justiça, de todos os prevaricadores e negligentes. O eventual abate do Zico nunca constituiria um castigo, mas tão só a constatação de se tratar de um animal perigoso - algo que os apoiantes do Zico certamente desconhecem e que apenas as autoridades responsáveis poderão concluir. E, convenhamos, por muito que eu ache e defenda que os animais têm direitos e que não podem ser maltratados, uma coisa é certa: a vida humana tem um valor absoluto e incomparável!

3. O relatório do FMI relativo a Portugal divulgado esta semana prevê uma drástica redução, de 4 mil milhões de euros, na despesa do Estado e propõe uma série de cortes, que passam, em grande medida, pela redução dos funcionários públicos em todas áreas, desde a educação à saúde.
Caros leitores, o relatório acrescenta algo de novo, verdadeiramente digno de registo? Não! Já todos sabíamos que a despesa do setor público é insustentável, pelo que não podemos deixar de concordar com o diagnóstico. E já todos sabíamos que o FMI é radical e revela desconhecimento da realidade social nacional, pelo que impõe-se que discordemos com a terapêutica recomendada. O relatório pode outrossim ser utilizado como base de trabalho, com o ponderado consenso e diálogo de todos os agentes e setores políticos. Mas é isso que está a acontecer? Não! Infelizmente, e provindos de todos os quadrantes, soam ecos de alarme e discórdia; todos contribuem para a “confusão” e ninguém colabora para a “solução”. O próprio Governo, internamente, revela falta de sintonia; houve quem criticasse o relatório - o caso do Ministros dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas -; houve quem o elogiasse - desde logo, o titular do pomposo cargo de Secretário de Estado Adjunto do Primeiro Ministro, Carlos Moedas (a quem, de resto, desde já convido a tomar o primeiro passo no esforço de poupança: que pugne pela urgente extinção de todos esses cargos de secretários, assessores, adjuntos, que apenas constituem um fator de engorda da despesa pública, inúteis “jobs for the boys”!).
“A Pepa, o Zico e o FMI” é o título desta crónica, inspirada em episódios ocorridos no nosso país e na reação de vários agentes e massas, na semana que findou. Retrato de um país que não quero: um país que teima em focalizar-se no acessório; um país em que impera a falta de bom senso; um país que teima em precipitar-se no mar da irresponsabilidade e do ridículo.

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