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A Pastelaria Benamor

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2016-06-19 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Uma cidade dinâmica e moderna deve afirmar-se em várias áreas, nomeadamente pela qualidade e quantidade de estabelecimentos comerciais que possui. Ao longo de décadas, de séculos até, existiram várias casas comerciais em Braga que constituíram verdadeiras referências da história desta cidade. Como não é possível abordar todas, vou recordar, hoje, um estabelecimento que foi um autêntico ponto de referência e de elegância da sociedade bracarense, ao longo de quase um século. Refiro-me à célebre Pastelaria Benamor.

A Pastelaria Benamor foi inaugurada em 1926, ano em que o general Gomes da Costa saiu de Braga e deu início ao regime ditatorial em Portugal. Foi numa quinta-feira, dia 9 de dezembro, que as portas deste célebre estabelecimento comercial abriram ao público, pela primeira vez.
A Pastelaria Benamor tinha como proprietários Adelino Vilela e Benedito Vilela, dois irmãos que constituíram a firma “Vilela & Irmão”. Estes jovens empreendedores não olharam a meios para dotar esta Pastelaria numa das mais belas de Braga, comparável mesmo às mais elegantes que então existiam em Lisboa e no Porto.

O nome “Benamor” causou espanto em Braga, mas Constantino Costa, responsável pela construção desta Pastelaria, esclareceu, numa entrevista ao jornal “Correio do Minho”, de 17 de outubro de 1926, que “Benamor traduz uma infinidade de delicias encerradas num cofre precioso, coberto de pérolas e guarnecido a ouro”. A Pastelaria Benamor será, para Constantino Costa, um nome “fumegante, adoçado ao mesmo tempo, um nome que a gente de Braga trará sem duvida todos os dias a bailar-lhe nos lábios como uma caricia, como um sorriso”.

As instalações da Pastelaria Benamor tinham uma elegância extrema, com um mobiliário inspirado em Luís XVI, com “pintura em pérola e ouro”. As cadeiras do estabelecimento eram “forradas a veludo de seda, lindíssimo”. Também as mesas eram de grande requinte, uma vez que tinham “tampas de cristal e as hastes em metal”. De destacar ainda a parte superior da Pastelaria, de onde figuravam “cupidos, ao lado dos quais caem cachos abundantes de glicinas pintadas em lilaz”. Nas paredes existiam panos gigantes pintados por Rebelo Júnior, um bracarense que se destacou na decoração de interiores de casas comerciais, e entre os panos sobressaíam “espelhos, encimados, por focos de luz”.

Todos os trabalhos de marcenaria desta Pastelaria foram da responsabilidade da “Arte Moderna, Marcenaria”, uma empresa de Braga, propriedade de “Francisco Costa & Filho”. Da mesma forma, o trabalho de instalação eléctrica foi da responsabilidade da “Electro-Instaladora”, de António Barbosa, e as tintas foram adquiridas na Papelaria Progresso, situada na rua de S. Marcos, em Braga.

No salão da Benamor destacava-se ainda um “conjunto com lustres formosos, em cristal, serpentinas, tapeçarias” tendo a porta do fundo um enorme vitral composto por vivas e atraentes cores. De referir ainda que a existência de enormes vidros serviam, também, para que os clientes pudessem ver-se ao espelho, numa sociedade que começava a valorizar mais o indivíduo e a sua personalidade. A Pastelaria Benamor, situada no início da Avenida da Liberdade, muito próximo do edifício do Turismo, constituiu uma referência social, pois funcionou como casa de chá, uma pastelaria de grande elegância e formosura. Tratou-se, ao longo da sua existência, de um local onde as pessoas, sem receios, podiam ter “diariamente os seus encontros, as suas reuniões favoritas, fazendo um pouco de conversa, de convívio franco enquanto saboreia uma chicara do seu chá predilecto”.

Na inauguração, que ocorreu a 9 de dezembro de 1926, marcaram presença as principais figuras da região, nomeadamente o Governador Civil de Braga; o Inspector da Polícia de Investigação Criminal; o presidente da Associação Comercial de Braga e ainda representantes das mais importantes instituições de Braga.

Quando se depararam, pela primeira vez, com a Pastelaria Benamor, os convidados foram unânimes em classificá-la como uma das mais belas casas comerciais do norte de Portugal.
Ao recordamos algumas casas comerciais desta envergadura e deste alcance social, quer para Braga quer para a região, e verificamos que aos poucos vão desaparecendo, como é o caso da Pastelaria Benamor, ou estão degradadas e em aflita sobrevivência, só podemos ficar preocupados, pois com o encerramento destas casas comerciais encerram, também, referências e memórias que a todos dizem respeito.

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