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Braga, quarta-feira

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A participação das mulheres no coro da Igreja

Os amigos de Mariana (2ª parte)

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A participação das mulheres no coro da Igreja

Ideias

2021-11-28 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Numa altura em que se aproxima o Natal, evento centrado nos valores do Cristianismo e, por inerência, nos valores da família, é importante recordar o papel subserviente que a mulher exerceu na sociedade durante séculos, concretamente o papel desempenhado na Igreja.
No caso concreto de Portugal, basta recordar que, até à Revolução do 25 de abril de 1974, era o homem quem detinha praticamente todos os direitos sobre a mulher, exercendo-os de forma mais ou menos austera e autoritária.
No que concerne ao papel que a mulher desempenhava dentro da Igreja, as suas limitações eram quase totais. Odo, abade de Cluny, localizada na Borgonha, França, chegou a referir que “Quando vês uma mulher, pensa que é um demónio, que é uma espécie de inferno”.

Ora, na atualidade, uma das áreas onde o tributo das mulheres é bem notório é no coro das igrejas. Contudo, nem sempre foi assim, pois as autoridades eclesiásticas impediam veementemente a sua participação não só nos coros como nos cantares realizados nas igrejas.
Sendo Braga profundamente católica, muito marcada pela forte participação das famílias nas cerimónias religiosas, também aqui verificavam-se grandes limitações ao contributo que as mulheres traziam às eucaristias.
Por outro lado, as mulheres eram controladas na sua atividade diária, fazendo-se alusões, em finais do século XIX, por exemplo, à forma de vestir das mulheres, concretamente aos vestidos que estas usavam.

Assim, as que usavam vestido apertado eram avarentas; as que usavam vestido largo eram fanfarronas; as que usavam vestido muito curto eram apaixonadas pelos bailes; as que usavam vestido desprezado eram preguiçosas; as que usavam vestido sempre novo eram temíveis; as que usassem vestido velho renunciavam ao amor; as que usavam vestido de cores claras eram muito alegres; as que usavam vestido de cores escuras eram timoratas e judiciosas; as que usavam vestido afogado eram modestas; as que usavam vestido muito decotado eram formosas e as que levantam o vestido quando chove tinham um bonito pé!

Quanto às cerimónias religiosas, a participação das mulheres era quase nula, apenas limitando-se a assistir às cerimónias proferidas pelos homens. Até nos coros das igrejas a participação feminina era proibida, havendo a necessidade de o Arcebispo de Braga clarificar essa proibição. A prová-lo está a portaria de 30 de agosto de 1877, através da qual o Arcebispo de Braga decidiu que todos os párocos, comissários das Ordens Terceiras e Capelães de Santuários de toda a Arquidiocese, não podiam aceitar nas suas atividades religiosas as mulheres, como cantoras, sem que para isso existisse uma autorização prévia e exclusiva da Arquidiocese de Braga.
De referir ainda que essa autorização era de tal forma indispensável, que teria de ser efetuada por escrito e assinada pelo Arcebispo!

Apesar desta proibição, existiam alguns locais onde as mulheres tentavam participar no coro das igrejas. Um deles foi em Barcelos, onde ocorriam com alguma frequência cerimónias religiosas com a presença de mulheres que aí cantavam.
Contudo, quando isso acontecia, esse facto era imediatamente dado a conhecer ao Arcebispo que, por sua vez, tomava medidas para impedir que isso voltasse a repetir-se. Foi o que aconteceu em 1889, doze anos após esta portaria, quando foi dado a conhecer ao Arcebispo de Braga que em alguns templos religiosos do concelho de Barcelos essa portaria, de 1877, que proibida as mulheres de cantarem nas igrejas, não estava a ser cumprida, pois havia conhecimento da participação de algumas mulheres, nas atividades religiosas dessas paróquias, fazendo-o como cantoras.

Indeciso quanto ao que fazer, relativamente a esta falta de respeito, o reverendo vigário da Real e Venerável Ordem Terceira, de Barcelos, solicitou esclarecimentos à Arquidiocese, acerca dos procedimentos a adotar perante esta situação.
A resposta da Arquidiocese de Braga não podia ser mais clara, pois clarificou que a “Portaria de 30 de Agosto de 1877 se guarde e observe, não só na Egreja da mencionada Ordem Terceira de S. Francisco, mas em todos os demais templos da Villa de Barcellos e de todo o Arcebispado” (Commercio do Minho, 17 de agosto de 1899).

O esclarecimento do Arcebispo estendeu-se a toda a Arquidiocese de Braga, pois ordenava que “todos os Revdos Parochos, Comissarios das Ordens Terceiras e Capellães dos Sanctuarios d’este mesmo arcebispado, debaixo do mesmo preceito da santa obediência, e com a mesma pena de suspensão ipso facto, que durará por tempo ao Nosso arbítrio, que não admitam mulher alguma, como cantora ou fazendo parte das chamadas capellas de musica, nas festividades religiosas das suas Egrejas, Capellas ou Sanctuarios, sem previa licença Nossa por escripto” (Id.)

Braga era de facto uma região de música sacra e de músicos de grande prestígio, como o foram os célebres membros da família dos Paivas, que englobava Fernando José de Paiva, autor dos “Cantos de pastores” que compôs para as festas de S. João, e que continuam a ser muito apreciados nestas tradicionais festas bracarenses, e ainda o célebre “O Drama de Fr. Bento”. Mas tratava-se de elementos do género masculino!
Quando fosse necessária a existência de vozes agudas, nos cânticos realizados nas igrejas, estas não eram realizadas por mulheres, mas sim por crianças, que desempenhavam o seu papel de forma mais eficaz!
Só após o Concílio Vaticano II, que terminou a 8 de dezembro de 1965, é que as mulheres foram autorizadas a integrar o coro nas igrejas, mas apenas num espaço distante do altar-mor.
No tempo em que vivemos, marcado pela procura da igualdade entre homens e mulheres, é importante recordar este episódio, para desta forma percebermos a dignidade que marca a evolução atual da nossa sociedade.

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