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A pandemia social e as estratégias de apoio aos mais velhos

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A pandemia social e as estratégias de apoio aos mais velhos

Ideias

2021-02-20 às 06h00

Bruno Miguel Oliveira Bruno Miguel Oliveira

O envelhecimento da população, cada vez mais considerado um fenómeno dos países desenvolvidos é sem dúvida um dos maiores desafios deste surto pandémico da infeção de Covid19. Num olhar muito superficial aos números de infeções a nível nacional, verifica-se que o grupo etário de pessoas com 60 ou mais anos representam apenas cerca de 15% das infeções por coronavírus, no entanto são também o grupo que representa cerca de 96% das mortes por Covid19 em Portugal.
O envelhecimento é caracterizado pelos autores da Gerontologia como um processo biopsicossocial, ou seja, um processo influenciado por fatores biológicos, psicológicos e de carácter social. Todo esse processo traz diversas alterações fisiológicas com influência na rotina, alterações de humor, sedentarismo e na alimentação com consequências diretas na qualidade de vida do indivíduo.

Todas estas medidas de prevenção e controlo da pandemia foram sem dúvida um grande entrave para esta classe mais velha, que por estarem nesta fase mais avançada da sua vida (o que nem sempre é aceite da melhor maneira), viram as suas rotinas completamente alteradas priorizando a segurança e temendo as piores consequências deste vírus. Problemas como alterações de sono, diminuição da atividade física, sentimentos negativos (medo, angústia pela distância física dos seus entes queridos), stress e pânico podem surgir nesta fase de confinamento para esta classe mais idosa.

Uma das grandes influências para este grupo etário, os midia, mais especificamente os noticiários televisivos, rádio, etc., podem ser neste momento elementos com alguma influência tóxica para a população mais velha. Tal como alguns autores defendem, informação menos explicita e por vezes sensacionalista pode provocar dois posicionamentos extremos na população idosa: o otimismo irreal do “vai ficar tudo bem” independentemente das suas ações que resulta por vezes na despreocupação e diminuição das precauções; e a interpretação de forma distorcida e negativa que gera a adoção de medidas de preocupação intensa associada ao medo, angústia e tristeza. Pesquisas realizadas na India revelam o pânico e crescimento na dificuldade de dormir após acompanhar as notícias da pandemia onde 75% afirmaram a necessidade de cuidados mentais.
De forma a responder a este desafio social que afeta tanto a população mais velha, as evidências científicas sugerem-nos algumas estratégias.

Como principal foco e que serve à maioria das outras medidas de apoio sugere-se uma política de incentivo digital à população idosa, com apoio na aquisição, no processo de aprendizagem e na criação de conteúdos adaptados à monitorização destes mesmos indivíduos. Esta medida seria abrangente a várias áreas muito importantes para todo o processo de envelhecimento no individuo idoso. Permitiria o acompanhamento a nível de saúde física, tão importante e tão escassa nesta onda de pandemia onde hospitais estão sobrecarregados e condicionados na realização de consultas e cirurgias. Auxiliaria também em questões de saúde mental, com a criação de plataformas digitais para apoio psicológico online, já que se relata o aumento significativo de pacientes ansiosos, depressivos e com demência, resultado de longos períodos de isolamento. Facilitava também no combate ao sedentarismo e doenças crónicas associadas com a criação de conteúdos de apoio e monitorização na atividade física para mais velhos.

A criação de conteúdos digitais de estimulação cognitiva e lúdicos adaptados para a terceira idade aumenta agora também a sua pertinência. Manter a mente ocupada e em constante estimulação revela-se fundamental para preservar e otimizar as funções cognitivas e evitar assim possíveis perdas associadas à idade.
A comunicação constante com familiares e amigos por via telefone, ou redes sociais é também uma grande estratégia de combate ao isolamento nesta faixa etária já que reduz sentimentos de solidão, stress e tristeza melhorando assim a sua rede de apoio/suporte social tão importantes nesta fase.
Sugere-se também que procurem aproveitar o máximo de luz solar possível, isto porque assume um papel fundamental na regulação do sono que em fases de isolamento tende a descontrolar-se.
Importa ainda nesta fase identificar mecanismos de vigilância aos idosos para criar um sentimento de segurança e apoio comunitário, que ao mesmo tempo lhes preste uma informação fidedigna acerca de toda a conjuntura de pandemia.

Estas medidas que as evidências científicas nos sugerem podem realmente ser determinantes nesta faixa etária que tanto tem sido sacrificada com este surto que se faz sentir.
A nível autárquico e até mesmo nacional é notável uma crescente preocupação com as políticas para os mais velhos, no entanto tardia e ainda escassa.
Para se poder intervir nesta faixa etária tão característica é necessário um conhecimento específico e integro sobre tudo o que se refere ao processo de envelhecimento. Para isso, a emergência dos Gerontólogos, profissionais formados para observar, avaliar e intervir no processo de envelhecimento e em todas as suas vertentes, quer a nível individual quer a nível comunitário.
As instituições urgem pela presença destes profissionais, as autarquias necessitam de profissionais capazes de criar projetos e iniciativas comunitárias adaptadas à sua comunidade, e os idosos precisam de quem os acompanhe com o conhecimento suficiente para intervir no seu processo de envelhecimento.

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