Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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A pancada na procissão dos Passos

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Ideias

2017-03-05 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Quando os europeus, nas célebres Cruzadas da Idade Média, visitaram os locais sagrados de Jerusalém que Jesus Cristo tinha percorrido, desde logo pensaram em recriar esse percurso nas suas localidades europeias. Desde então, começaram a organizar procissões que retratassem os últimos Passos de Jesus Cristo.
Um pouco por toda a Europa, com maior incidência na parte sul, foram criadas cerimónias religiosas que descreviam o caminho percorrido por Cristo na Terra. Para complementarem estas cerimónias, foram construídas capelas que evocavam este percurso.
Os portugueses são um dos povos que mais aprofundou estas cerimónias religiosas, ao ponto de hoje continuarem a manter esta como uma das principais celebrações, como é o caso das realizadas em Braga e nas freguesias que a circundam.
Atualmente, as pessoas podem deslocar-se com facilidade às freguesias onde se realizam estas festas, mas até há poucas décadas o cenário era bem diferente. Assim, entre o final do século XIX e princípios do século XX, quem quisesse deslocar-se entre as freguesias de Braga para assistir às procissões dos Passos que aí eram realizadas, teria que percorrer a pé os vários quilómetros que separam as freguesias. Faziam-no por estradas em terra, no meio de muito lamaçal e por carreiros íngremes que ligavam as freguesias.
Quando chegavam, muitos destes romeiros abafavam o seu cansaço e as suas mágoas com tigelas de vinho. Com o decorrer das cerimónias religiosas continuavam a frequentar os locais de venda de comida e bebida e, quando terminavam, partiam para as suas localidades, novamente a pé, com varas na mão, para se equilibrarem do álcool e da alegria que este produzia.
A partir desse momento, qualquer pequeno comentário, qualquer pequena provocação, resultava de imediato em cenas de pancadaria, muitas delas acabando de forma fatal para os intervenientes. Camilo Castelo Branco, em “A Doida do Candal”, referindo-se a Simão, retrata bem esta época quando diz que este “esfregando uma das mãos na palma da outra, assim com ar de pimpão de arraial que se aquece para o pugilato”.
Ora, um desses episódios ocorreu, a 11 de março de 1902, na margem do rio Cávado que liga Manhente a Encourados, em Barcelos. Na altura, o barco era o meio de ligação mais rápido e eficaz entre estas freguesias. Nesse final de domingo, três irmãos de Encourados regressavam da procissão dos Passos, que se tinha realizado em Manhente. Na outra margem do rio encontravam-se dois homens, já embriagados, e algumas vendedoras de doces de romaria, que também regressavam da procissão dos Passos da referida freguesia. Os bêbados começaram, aos gritos, a proferir piadas para os jovens, provocando o riso às vendedoras! Os rapazes não se contiveram e responderam no mesmo tom de voz e de argumentos!
Entretanto, quando todos pensavam que este incidente tinha terminado, ao aproximarem-se de casa, já escuro, os três irmãos foram surpreendidos pelos dois bêbados, que lhes vieram tirar satisfações! Como estes se recusaram a continuar a conversa, um dos bêbados, Domingos da Fonseca Pinheiro, de Manhente, desferiu vários golpes de navalha em Manuel Lopes, matando-o naquele momento. Quando Albino Lopes, irmão da vítima, se aproximou do irmão, já no chão, foi também vítima de um violento golpe no peito que o deixou em estado grave. O terceiro dos irmãos, José Lopes, também foi agredido nas mãos com golpes de navalha!
A vítima mortal residia em Braga, onde estudava no Seminário Conciliar. Quanto aos agressores, Domingos da Fonseca Pinheiro e Manuel Rodrigues Esperança, foram posteriormente presos e levados para a cadeia de Barcelos.
Cinco anos após este grave acontecimento (março de 1907) ocorreu outro do género, agora na freguesia de Ferreiros, em Braga.
Um grupo de jovens de Ferreiros deslocou-se à freguesia de Cabreiros, para assistir à procissão dos Passos, que nesse dia se realizou. No regresso, junto ao lugar de Bairro, em Ferreiros, um desses jovens, Alexandre Ferreira, iniciou uma valente discussão com os seus colegas, que culminou em graves agressões entre estes. No final do episódio, Alexandre foi sozinho por um caminho velho, com destino a casa. Os restantes jovens, com medo, pediram ao cabo da regedoria, Manuel José Vieira, e ao seu filho, João Augusto Vieira, que os acompanhassem até casa. Quando todos seguiam mais tranquilos pelo lugar da Boavista, foram deparados de novo com Alexandre Ferreira, que voltou a agredi-los violentamente com uma enorme vara! O cabo Manuel José Vieira não hesitou e pegou na espingarda que trazia e lançou-a com violência à cabeça de Alexandre Ferreira, provocando-lhe a morte imediata!
Dado conhecimento deste caso ao regedor da freguesia de Ferreiros, este deslocou-se à esquadra da polícia de Braga, acompanhado por Manuel José Vieira, e ao seu filho, João Augusto Vieira, que de imediato ficaram presos.
Entre finais do século XIX e inícios do século XX, foram vários os episódios deste género que ocorreram na nossa região. São também a prova das agruras de um povo que lutava diariamente para sobreviver e que afogava os seus problemas no álcool e nas cacetadas!

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