Correio do Minho

Braga, sábado

A padeira portuguesa

Escrever e falar bem Português

Conta o Leitor

2017-07-23 às 06h00

Escritor

Ana Maria Monteiro

Há muitos, muitos anos - mais de seiscentos, se é que se consegue imaginar! -, nasceu em Portugal uma menina a quem foi dado o nome de Brites.
Foi num tempo em que havia reis e rainhas a sério. E príncipes e princesas. E quase toda a gente acreditava que a terra acabava lá ao fundo, onde só já se via o céu.
Brites nasceu em Faro, que hoje é uma cidade grande, mas naquela época era apenas mais uma pequena vila Algarvia, conquistada aos mouros pelo Rei D. Afonso III, cerca de cem anos antes.
Quando ela era menina, Portugal era um país independente, mas passados alguns anos ficou sob o domínio dos espanhóis, que hoje são os nossos vizinhos do lado. Mas na altura não era assim e os reis só pensavam em aumentar os seus territórios para serem mais ricos e poderosos.
Ela sempre foi uma menina diferente das outras. Diz-se que tinha mais que cinco dedos em cada mão, embora não se saiba muito bem quantos. Mas isso era o menos. A verdade é que esta menina, em nada poderia ser confundida com as outras meninas da sua época; ela era corajosa, ousada, e nunca recuava perante um desafio. Além disso possuía uma vontade forte, era independente e tinha muito bom coração.
Graças às suas qualidades e defeitos, teve uma vida muito diferente da de qualquer mulher daquele tempo - ou deste. Tanto que ficou para a história - o nome por que é conhecida é o de “Padeira de Aljubarrota”. Mas já lá vamos, pois há muito mais nesta nossa heroína, o muito mais que a trouxe a esta categoria de personagem histórica.
Os pais dela eram como ainda hoje são quase todos os pais, nem pobres nem ricos. E poderiam viver todos descansados, não fosse o feitio danado daquela menina que não sabia comportar-se.
Brites era alta, corpulenta e muito forte. Envolvia-se em brigas e resolvia tudo à tareia. E ela gostava daquilo, era guerreira mesmo.
Não deve ter sido por causa dela que os seus pais morreram cedo, mas foi o que sucedeu e ela ficou órfã ainda jovem. Orfã e com alguns bens deixados pelos pais.
E o que pensam que ela fez? Casar? Formar família? O costume na época? Nada disso!
Brites vendeu tudo o que tinha, pegou no dinheiro e pagou para aprender a usar uma espada e lutar melhor.
Depois, partiu para o mundo e andava de feira em feira usando a arte da espada para lutar contra homens - diz-se que ganhava quase sempre.
Um dia um soldado desafiou-a para um combate especial: se ele ganhasse, ela casava com ele; se fosse Brites a ganhar, ela poderia matá-lo. Brites lutou, ganhou e cumpriu a aposta.
Pensa-se que não terá sido o primeiro homem que matou (e sabe-se que não foi o último), mas ele era soldado e matar um soldado era crime.
E, para não ser presa, Brites fugiu.
Queria ir para Espanha e para isso roubou um bote e fez-se ao mar, mas o bote foi tomado por piratas que a raptaram e levaram para a Argélia, onde a venderam como escrava a um árabe.
Vocês conseguem imaginar esta mulher como escrava? Nem pensar!
Não sendo a única portuguesa em terras africanas, conheceu outros escravos a quem convenceu a que fugissem consigo. Disfarçou-se de homem, para passar despercebida e, depois de muitas peripécias que apenas podemos imaginar, conseguiu regressar a Portugal, ficando numa terra pequena que se chamava e ainda chama Torres Vedras e onde passou a trabalhar como almocreve. Almocreve é uma profissão que já não existe porque não faz falta, mas os almocreves eram as pessoas que transportavam animais e carga de umas terras para outras, o que era um trabalho muito necessário antes de haver automóveis e camiões.
Sempre disfarçada de homem, continuava a meter-se em sarilhos atrás de sarilhos e, depois de se desenvencilhar de muitos deles e de matar mais alguns homens, teve que fugir de novo.
Desta vez foi para Aljubarrota aonde chegou já vestida de mulher. Já não era nova, estava cansada e não tinha trabalho. Então pedia esmola junto a uma padaria. A dona da padaria, que era uma velhota a quem já faltavam as forças, reparou nela e em como era uma mulher grande e forte que poderia ser-lhe muito útil e deu-lhe trabalho.
Quando a padeira morreu, Brites ficou com a padaria. Os anos iam passando e ela tornou-se mais calma. Sentia-se bem com a sua vida e com o seu trabalho. Assentou, deixou-se de brigas, até casou com um lavrador da região.
Foi nesta altura que aconteceu a Batalha de Aljubarrota e foi por causa desta batalha que Brites ficou para a história. Aconteceu no dia 14 de agosto de 1385 e opunha os portugueses aos espanhóis que nessa altura ocupavam o país. O povo estava todo do lado do Mestre de Avis, já reconhecido pelas cortes como o legítimo rei D. João IV de Portugal - e Brites também, claro. Foi um nobre e general chamado Nuno Álvares Pereira quem liderou esta batalha e, com o seu génio e estratégia brilhantes, derrotou finalmente os castelhanos.
Brites estava na rua, como não podia deixar de ser. Chefiava um grupos de pessoas do povoado perseguindo os sobreviventes espanhóis que fugiam. E como estava na rua, não estava em casa. E como não estava em casa, alguns desses espanhóis fugitivos (diz-se que sete, mas podem ter sido mais, ou menos), vendo uma casa vazia, esconderam-se nela.
Coitados! Onde eles se haviam de ter metido! Logo na casa desta nossa padeira!
Esconderam-se dentro do forno do pão à espera que as coisas acalmassem para prosseguirem na fuga, mas o que lhes sucedeu foi ser encontrados por ela.
Quando deu com eles, Brites não teve mais: pegou na pá de levar o pão ao forno e, à medida que iam saindo do forno, matou-os a todos um por um.
A história não acaba aqui, mas pouco mais se sabe do que sucedeu depois.
Sabemos que Brites de Almeida, que ficou conhecida como ‘A padeira de Aljubarrota’, terá desempenhado um papel determinante na reconquista de Portugal.
O país nunca esquecerá nem deixará de prestar homenagem a esta mulher que optou por viver como quis, decidiu ser livre, construiu o seu destino, enfrentou tudo e todos sem nunca baixar os braços, quebrou tabus, venceu batalhas.
Que bom que seria se alguém na altura tivesse escrito a história toda…
Ana Maria Monteiro, 2017, 10 de maio
Mistura de factos históricos e das várias lendas que correm em torno desta figura incontornável.

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