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A nove e de cabeça

A Biblioteca Escolar – Um contributo fundamental para ler o mundo

Ideias

2018-09-30 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Inventamos o relógio para marcar o tempo, tanto como o balizamos com os acontecimentos que vincam ou rasgam o tecido social, nos arrebatam e povoam as conversas do quotidiano. Avizinhámo-nos de um período em que iremos viver suspensos de decisões judiciais, que confirmarão ou não as escroquerias de um primeiro-ministro e subalternos, de banqueiros e administradores de topo, tempos em que aguardaremos por sentenças ou acórdãos que dêem ou não uma machadada na corporação militar, num benfiquismo perlado de pecados, sabe-se lá se mortais, se veniais. E que dizer da prova de fogo a que serão sujeitos autarcas, chefias de bombeiros e protecção civil, quadros de empresas, que por suposta negligência contribuíram para a letalidade de incêndios que enlutaram Portugal!? Sem esquecer arranjinhos, é claro, os de palheiro que por encanto vira palácio.
Não me sobra vontade para me deter em casos meio andado, meio por andar, como o do nosso Macedo-ministro, da lavandaria Luanda-Lisboa, que por má-língua proporcionaria bom trocadilho, do branco em banco que vira o mais negro de nódoa retinta. Não me sobra feitio para fazer as voltinhas de Macada em torno do navio a pique da AIMinho, caso com palavras fortes à mistura, tipo «fraude», «desvio de fundos»: que sabemos nós!
Tampouco quero aderir ao caso da senhora mancomunada, que um Grilo triatleta calou para sempre, por andar zonza e engrilada, e mais não me chega a coragem para continuar com o gri-gri. Registo, apenas, o drama e a estupidez irreparável que lhe subjaz, assinalando que não concorre o hediondo da morte de uma mulher com a de um homem, pesadelos de quando um já não quer e o outro não é querido. Sobem as estatísticas da vítima-mulher, e lá vão despontando as da vítima-homem, e toda a desproporção de vinte para um salta à vista. Mas mal vai quem mede a violência de género pelos crimes de morte. É menina de muitas caras, a violência, e mais primitivo se mostra o macho pelas soluções. Bom era, porém, que os feminismos não tomassem a nuvem por Juno: centrados na ferocidade masculina, quiçá não sobrelevem o adjectivo ao substantivo, e não embarquem, assim, numa caça aos gambozinos. Bem sei que é mais prático ficarmo-nos pelo que dá nos olhos: mas quanto não corre em silêncio!
Perdoem-me, mas ligo o complicómetro: em assassinato que envolva homem e mulher, eu vejo o acto, e os personagens muito depois. Que interessa quem matou quem? Vá lá, senhoras e senhores da igualdade de género: dizei que um indivíduo humano aniquilou outro, sem melhor justificação que a da falta de valores, sem outro acessório que o da descultura. Puni, mas preocupai-vos com as vidas de farrapeira que descambam em efusões de sangue, e em traumas de órfãos duplamente. Estaticai com palavra grossa, mas não vos esqueçais que perorais por empregos de nicho e dotações do erário público.
Monstrifica-se, a sociedade. Da mesma caixota de pragas saem as mortes às mãos de quem nos desama, as frialdades que a tais desfechos levam, os nós-cegos que deixam alma desvairada sem tino e sem conselheiros acessíveis para que a clareza de espírito seja recuperada. E é da mesmíssima caixota monstrificada que sai a corrupção de alta-roda. Talvez seja eu, que anos ganhando, mais me puxa para sopas e missas, mas cada vez menos compreendo o que se passa em redor. Nem de propósito: perceberam aquela questão do curador mimoso de Serralves? Mas em que ponto do tracto gastrointestinal se lhe empancou a exposição? E de que maleita sofre o coro grego, que em polifonia lhe repetiu a ária?

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