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A 'nova' ultradireita distópica: um alerta pós-pandemia

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A 'nova' ultradireita distópica: um alerta pós-pandemia

Ideias

2020-05-23 às 06h00

António Ferraz António Ferraz

“Utopia” e “Distopia” são duas ideias contrárias entre si que têm vindo a ser objeto de um intenso debate sobre a realidade da humanidade. Este debate passa, aliás, a ganhar ainda mais oportunidade face a atual crise sanitária, económica e social à escala mundial. “Utopia” relaciona-se com a ideia de uma civilização ideal, imaginária, perfeita e, assim, talvez algo inalcançável. Por sua vez, “Distopia” resulta de uma visão negativa e pessimista do futuro, normalmente associada ao totalitarismo, autoritarismo e opressivo controlo da sociedade. A ideia de “Utopia” se tem mantido há séculos e, mais, continua a influenciar obras de ficção, filosofia e política. Exemplificamos, com seguintes obras utópicas: “A República” (380 A.C), de Platão; “Utopia” (1516), de Thomas More; “O Capital” (1848), de Karl Marx. Pelo contrário, o conceito de “Distopia” está expresso em obras ficcionais onde se releva o futuro de uma forma negativa, com um eventual final catastrófico, enfim, com uma sociedade oposta à da ideia utópica. Em consequência, na visão distópica do mundo, o Estado aparece em geral como sendo inerentemente corrupto, as normas que visam ao bem comum são flexíveis e a tecnologia é usada como instrumento de controlo de indivíduos, do Estado e das grandes corporações.

Desta forma, a “Distopia” aponta para a ideia de que é impossível alcançar um mundo melhor, ao invés, as características negativas e pessimistas do mundo são reforçadas. Temos como exemplos de obras distópica: “O discurso por G. Webber e J. Stuart Mill ao Parlamento Britânico” (onde, aliás, o termo distopia foi usado pela primeira vez) em 1868; “Admirável Mundo Novo” em 1932 de A. Huxley; 1984” em 1949 de G. Orwell.
De seguida, faremos algumas constatações sobre o que é a chamada “nova” ultradireita distópica.

Desde logo, apesar de os seus defensores alegarem em teoria as virtudes do nacionalismo, a verdade é que, na prática, para a “nova” ultradireita distópica a nação se encontra submetida aos poderosos interesses económicos gerados pela globalização. Ou seja, a “nova” ultradireita distópica tendo em conta a profunda crise em que vivemos tentará certamente fazer o seu aproveitamento político visando um mundo caracterizado: (1) Na esfera política e social pelo totalitarismo, autoritarismo e opressivo controlo da sociedade; (2) Na esfera económica pelo reafirmar das pretensas virtudes do neoliberalismo económico mas com um cariz autoritário. Mas será como afirmam alguns círculos intelectuais que por isso estamos perante o ressurgir do fenómeno do fascismo histórico (tal como vigorou entre as duas últimas guerras mundiais? Ora, o que verificamos é que embora apresentando elementos muito próximos do fascismo histórico, dado que as circunstâncias históricas são diferentes do passado será mais próprio designar na atualidade de “nova” ultradireita distópica e não tanto de fascismo (histórico). É que no fascismo histórico este último as suas características essenciais são, entre outras, a existência de um líder de massas como autocrático, a militarização e o nacionalismo extremado da sociedade (não existia à época o fenómeno da globalização).

Por sua vez, a “nova” ultradireita distópica têm como elemento central a existência de uma figura de “líder”, mas que não se reconhece como um autocrata. Na verdade, porém, não deixa de o ser ao manter uma relação direta com “o povo”, sem intermediários institucionais e mesmo contra eles (“populismo de extrema direita”). Mais, a “nova” ultradireita possui tem um discurso mais ou menos disfarçados do fascismo “histórico”: (a) Discurso de ódio ao outro; (b) Racismo; (c) Xenofobia; (d) Homofobia; (e) Misoginia; (f) Recusa de ideologia de género; (g) Utilização das tecnologias de informação em fortes práticas de vigilância, de controlo e censura; (h) Propagação das chamadas notícias falsas (“fake news”) como meio de governação. Quer dizer, a “nova” ultradireita distópica aponta para um futuro de catástrofe planetária e induz ao medo das populações.
Concluindo, o totalitarismo pós-pandemia aponta para a institucionalização de uma sociedade homogénea, negando a possibilidade de qualquer tipo de diferenciação social, de existência de classes sociais, de diversificação de modos de vida, de comportamentos, de crenças e opiniões, de costumes, de preferências e valores.

Como resultado de uma eventual empoderamento da “nova” ultradireita distópica, a construção neoliberal vigente sofrerá com certeza um viés, passando a caracterizar-se: (1) Pela eliminação de direitos económicos, sociais e políticos garantidos pela sua governação “totalitária” a favor dos interesses privados, tornando-os em serviços baseados na lógica do mercado livre, desregulado e onde a privatização de direitos promove cada vez mais todas as formas de desigualdade e exclusão; (2) Pela transformação dos adversários políticos em corruptos (na verdade, sendo eles próprios corruptos!); (3) Pelo controlo do poder judiciário a seu favor; (4) Pela introdução do desemprego estrutural e terceirização do trabalho, originando uma nova classe laboral assente na precariedade, no emprego instável, na ausência de contrato de trabalho, na baixa sindicalização e na exclusão da proteção social. Enfim, na pós-pandemia, com uma profunda crise económica e social é possível o surgimento de uma “nova” classe trabalhadora mais fragilizada coletivamente, manipulável e servindo os interesses do capital e do lucro. É esta, a essência de uma sociedade totalitária. Fica o alerta!

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