Correio do Minho

Braga, sábado

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A nova roda dos rejeitados

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

Ideias

2017-02-05 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

O Asilo de S. José, em Braga, é atualmente uma das instituições de maior prestígio no que ao acolhimento de pessoas idosas diz respeito. É uma instituição que merece todo o nosso respeito e consequente aplauso pelo trabalho que têm desenvolvido nesta nobre área social.
Fundado em 1850 por Fernando de Oliveira Guimarães, esta instituição teve como objetivo primordial o apoio aos idosos e aos mais necessitados, funcionando desta forma como Asilo de “velhos e entrevados”.
Foi precisamente nesta instituição que ocorreu, passam agora 106 anos, um dos seus mais tristes episódios.
Era uma noite fria de inverno (fevereiro de 1911) quando, às 22.30 horas, se deu um grave acontecimento no seu interior: encontravam-se nessa altura internados cerca de 40 pessoas quando, sem ninguém contar, uma delas levantou-se repentinamente da cama, pegou numa muleta e agrediu violentamente as outras pessoas que se encontravam internados.
Os gritos que surgiram alertaram várias pessoas que de imediato ocorreram ao local do incidente. Aí, com grande dificuldade, conseguiram dominar o agressor, José da Costa, de 34 anos de idade e natural de Arosa - Guimarães. Em consequência deste ato tresloucado, vários idosos ficaram em estado grave, com as costelas partidas e graves feridas na cabeça.
Perante tão alarmante caso, logo surgiram ao local o Governador Civil de Braga, o Comissário da Polícia e a Guarda Civil e encontraram José da Costa, solteiro, rodeado por funcionários do Asilo, levando-o de seguida para a esquadra da polícia.
Os idosos que ficaram feridos com gravidade foram João Alves, de Palmeira; José Joaquim Gomes, de Dume; Manuel de Sá, de Lomar; José Ferreira Murta e José António de Oliveira, ambos de Real; José Exposto, Francisco Barreto, Joaquim Marques e Guilherme José Barbosa, todos de S. Victor.
Este episódio transporta-nos para a atualidade. De facto, vemos, por vezes, a nossa consciência alertada para as dificuldades que muitos idosos vivem nesta fase da vida. Não são tão poucos os casos daqueles que vivem sozinhos, sem o apoio de familiares, de amigos ou de instituições sociais. São os rejeitados da sociedade.
São muitos os que vivem com reformas que rondam os 300 euros mensais, tendo com esse dinheiro que despender uma parte considerável para medicamentos. Muitos não conseguem alimentar-se de forma conveniente; não têm uma habitação condigna e não têm possibilidades económicas para melhorarem as suas habitações, muitas delas em adiantado estado de degradação; não têm possibilidades económicas para suportar as despesas em lares de acolhimento ou em instituições de apoio domiciliário.
Muitos destes idosos, autênticos rejeitados da sociedade, não recebem visitas de filhos ou de amigos, que não têm tempo, ou vontade, de os visitar nem de lhes prestar cuidados básicos!
Muitos destes idosos, autênticos rejeitados da sociedade, são precisamente aqueles que fizeram enormes sacrifícios para darem uma formação aos seus filhos que lhes proporcionasse um futuro melhor que o deles!
Muitos destes idosos, autênticos rejeitados da sociedade, esforçaram-se para criar uma geração que esperavam ser mais solidária e mais afectuosa!
Muitos destes idosos, autênticos rejeitados da sociedade, esperavam passar mais tempo com quem mais amam, nomeadamente filhos e netos, mas não passam!
Quem gere o dinheiro público, antes de o gastar, devia olhar bem para as duas faces da moeda e questionarem-se: estará este dinheiro a ser bem gasto? Não estarei a usufruir, a título pessoal, de dinheiro público, que muita necessidade faria aos mais necessitados? Aos mais idosos?
Há três dias, ao início da manhã, percorria de carro uma rua de Braga. O distrito estava sob aviso vermelho devido ao mau tempo e, apesar desse efeito sentir-se mais junto ao mar, o certo é que chovia nessa altura torrencialmente e com forte queda de granizo à mistura. De repente olhei para um passeio e vi um idoso, com cerca de 85 anos à chuva, encostado a um passeio. Parei o carro, desci o vidro e disse-lhe se queria que o levasse a casa. Acenou com a cabeça que não! Peguei num guarda-chuva que trazia e coloquei-o fora do carro, estendendo-o na sua direção. O senhor voltou a acenar com a cabeça que não! O seu olhar parado, fixo e triste ficou gravado na minha memória…
Se repararmos um pouco mais no ritmo de vida que nos rodeia, facilmente nos confrontamos, logo de manhã bem cedo, com idosos apressados, à chuva, mal agasalhados e tristes. Atarefados, como se fosse esse o seu último dia de vida! São estas as pessoas que muito deram pela família, pelos amigos, pela sociedade, pelo país, que agora estão desamparados, esgotados, quase abandonados.
O elevado número de crianças abandonadas no nosso país, levou as autoridades portuguesas a criarem a circular de 10 de maio de 1783, que legislava a criação de casas de expostos nos concelhos, com a finalidade de recolherem as crianças rejeitadas pela família.
Passados 234 anos dessa circular, será necessário criar uma nova, agora para os rejeitados, para lá colocarmos os nossos idosos? Será esta a nova roda que um dia iremos integrar?

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