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Braga, quinta-feira

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A necessidade de travar o feudo da urgência!

Frei Tomás dos tempos modernos

A necessidade de travar o feudo da urgência!

Voz às Escolas

2020-01-29 às 06h00

Flora Monteiro Flora Monteiro

O dia-a-dia nas nossas escolas mostra-nos que, muitas vezes, a necessidade de se ser criativo fica subordinada a um senhor feudal chamado “urgência”, atitude que nos é imposta diariamente. Parece que muitas vezes as escolas são geridas mais por regulamentos do que por pessoas. O diálogo e as relações interpessoais são substituídos pelo papel, pelos documentos escritos que impedem a inovação e as relações humanas. E a autonomia, onde fica, por onde vai, como se concretiza ou pode concretizar?

João Barroso diz-nos “que as escolas vivem um estado de esquizofrenia entre a autonomia e a sua ausência”. Aparentemente ela existe, mas imposta de cima para baixo, com as direções carregadas de tarefas administrativa e de gestão, sem espaço para o trabalho ao nível dos currículos, das aprendizagens, da criatividade dos professores, asfixiados pelas horas que não são suficientes para todas as necessidades. Estas políticas de autonomia são, no entender do autor, “diversas, controversas e por vezes, perversas!”. Será possível sair dos labirintos a que estas políticas nos conduzem?! Quando a tutela diz que não há espaço para se ter vida (dentro deste sufoco de trabalho) e oferece mais dois ou três questionários, mais um novo projeto para implementar, mais duas plataformas para preencher…. E para quando? Para ontem! Pode-se recusar qualquer um deles (de forma autónoma e consciente)? Talvez, mas não seria a mesma coisa! Ou seja, a pressão não o permite! Mas é fundamental sobreviver, para poder viver, muito além deste trabalho.

É baseado nestes pressupostos às vezes se “gerem” as nossas escolas, limitando-se a fazê-las funcionar dentro da lei. As escolas estão completamente carregadas por normativos que transformam, muitas vezes, a tão aclamada autonomia numa miragem que não deixa alternativa aos diretores das escolas para trabalhar em processos de mudança de forma livre, criativa e autónoma. Nos últimos anos temos vindo a assistir a novas propostas nas políticas da educação, a diversas experiências, a alterações nos normativos legais, ao aumento quase sufocante de questões técnicas, à proliferação de plataformas, à multiplicação de questionários, à invenção desenfreada de documentos e registos ou, como se vai brincando, com “ar angustiado”, ou se vai queixando, com algum humor negro - à época das “grelhas” que até parece que têm um santo padroeiro, o S. Lourenço.

Parece que nada mudou muito em termos de processo de autonomia. Em 2006, Natércio Afonso, referindo-se à total inexistência da autonomia das escolas e à centralização imposta pelo Ministério da Educação, carateriza o trabalho da direção afirmando que “os conselhos executivos, perdidos numa lógica de tarefas inadiáveis, não conseguem pensar para além do imediato, não conseguem agir para além da ordem recebida, não conseguem libertar-se para além da teia centralizadora que os envolve”. Quem está atualmente nas escolas, sente que quase nada mudou, mesmo nessas escolas com contrato assinado que pretendem, neste momento, renegociar o contrato para aprofundar os níveis de autonomia. Mas a procura da autonomia é uma aventura também na esperança, no investimento da própria dinâmica da escola, de construção da sua identidade e na resolução dos seus problemas.
E as lideranças estão sempre a tentar dar um salto qualitativo, procurando valorizar o primado da pedagogia sobre a burocracia, conseguindo a participação de todos os interessados na vida da escola, aproximando os serviços das populações e dando à comunidade educativa mais capacidades de resolução das suas limitações. Nesta luta diária é importante que exista uma verdadeira intenção de resolução dos problemas e da procura da melhoria contínua, para lá do cumprimento obrigatório dos impositivos formais e legais.

Não podemos cruzar os braços à espera que essa proclamada autonomia surja nos decretos e despachos ministeriais. Todos sabem que o ideal seria a possibilidade de uma escola com autonomia financeira e pedagógica, com capacidade de gestão dos seus recursos, património e organização pedagógica, uma escola mais ligada à comunidade local, com competências mais alargadas, onde os órgãos de topo aparecem com funções e competências bem definidas, e subordinada à educação das nossas crianças e jovens. Mas com autonomia real e não inspecionada a cada novo decreto ou a cada novo documento. Confiem em nós! Somos muito capazes!
As organizações escolares devem ser entendidas como instituições que têm os meios para serem autónomas e sabem justificar a utilização desses meios. Consideramos estar ainda longe deste ideal porque não se procedeu efetivamente à descentralização dos sistemas educativos - vivemos uma autonomia relativa, mas acreditamos nela, como no Pai Natal (metáfora utilizada por João Barroso). E precisamos de acreditar, libertando-nos um pouco do tal feudo da urgência que parece ser um dos valores assumidos por toda a sociedade atual – tudo é necessário e urgente, tudo é obrigatório para já, ou até para o dia anterior!

Salientei a dificuldade de se ser líder numa organização com todas estas especificidades, onde não há produtos, mas processos, não há matéria- -prima, mas crianças e jovens, não há clientes, mas alunos, professores, assistentes, pais e educadores. Cada decisão que se toma, transforma-se num dilema ético porque as suas consequências alcançam a vida inteira de cada um destes atores.
Saber compreender e lidar com esta complexidade aparentemente tão simples é o desafio mais difícil e simultaneamente mais gratificante de uma gestão atual. Procurar manter sempre o foco no essencial e não o perder de vista, é muito importante.

Mas o caminho é árduo e é necessário lutar, com as armas certas, para tentar submergir desta atrofia que nos aponta a necessidade de, por um lado, cumprir com a parafernália administrativa e a necessidade de reinventar novas formas para conseguir cumprir as nossas missões.
É necessário abrandar as urgências pois nem sempre as conseguimos acompanhar. Não há grande tempo para pensar e saltamos de umas receitas para outras, às vezes sem tempo para reflexão e avaliação. Queremos abrandar, pensar, refletir, decidir, agir, orientar, motivar!
E aqui socorremo-nos de um santo superior que é a paixão pela educação (verdadeira), o amor aos alunos, o gosto por ensinar, o brio por fazer melhor, a tenacidade para lutar, a persistência em aprender, a vontade de cumprir a nossa missão!

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